Em mais um capítulo das denúncias feitas na CPMI do INSS, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) apontou novos nomes ligados a instituições religiosas investigadas e citou a Assembleia de Deus do Amazonas, associada a familiares do deputado Silas Câmara (Republicanos-AM).
A parlamentar reforçou que não se trata de ataque à fé, mas do cumprimento do dever constitucional do Congresso de investigar o destino de recursos públicos. O tema ganhou repercussão após Damares divulgar uma lista com nomes de igrejas e pastores citados ao longo dos trabalhos da comissão. Segundo a senadora, a CPMI tem sofrido pressões e tentativas de interferência desde que as investigações passaram a alcançar “grandes igrejas” e “grandes líderes religiosos”. Entre as instituições mencionadas está a Assembleia de Deus do Amazonas, além da Fundação Boas Novas, presidida por um irmão de Silas Câmara.
As duas aparecem associadas a movimentações financeiras investigadas pela comissão. Procurado, o deputado afirmou que a igreja já prestou os esclarecimentos solicitados e que, por isso, não há requerimentos em curso contra ela neste momento. Mesmo diante das críticas, Damares manteve o discurso de firmeza. Em entrevista, respondeu às declarações do pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que a chamou de “linguaruda” por citar religiosos sem, segundo ele, apresentar provas públicas.
A senadora afirmou que não submete sua atuação parlamentar a lideranças religiosas e rebateu diretamente o pastor. Disse que Malafaia “devia orar” e reforçou que há, sim, menções documentais à Assembleia de Deus do Amazonas nos autos da CPMI, ainda em análise técnica pela comissão. A reação de Malafaia foi imediata. O pastor acusou Damares de mentir e a desafiou a apresentar provas de envolvimento de “grandes igrejas” no esquema, além de apontar quem estaria, segundo ela, fazendo lobby para impedir as investigações.
Os documentos que sustentam as apurações foram apresentados pelo relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), ainda em novembro. Eles indicam que a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA) teria feito pagamentos à empresa Network, que posteriormente repassou recursos a parentes de Silas Câmara e a empresas ligadas a ele. Parte desse dinheiro, segundo denúncias levadas à comissão, teria sido destinada à Fundação Boas Novas.
A ligação entre a Assembleia de Deus do Amazonas, a fundação e os familiares do deputado foi mencionada pelo próprio presidente da CBPA em depoimentos à CPMI, o que levou o tema ao centro do debate político e religioso. Aliados tanto de Damares quanto de Malafaia afirmam que o embate entre os dois não é recente e remonta ao período em que a senadora chefiava o Ministério dos Direitos Humanos, no governo Jair Bolsonaro. À época, a tensão teria sido intermediada pelo próprio ex-presidente.
Apesar do desgaste político, Damares afirma que seguirá com as investigações. Disse sentir “profundo desconforto e tristeza” diante da possibilidade de envolvimento de igrejas ou líderes religiosos em esquemas de fraude contra aposentados e pensionistas, mas ressaltou que a CPMI não pode se omitir.
Segundo a senadora, a comissão tem a obrigação de atuar com responsabilidade, imparcialidade e base documental. “Ninguém está acima da lei”, tem reiterado, ao defender que a fé não pode ser usada como escudo para desvio de recursos públicos nem para silenciar investigações parlamentares.

