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Por que a inadimplência no Brasil chegou ao patamar mais alto em quase 10 anos

Por Isto É. 08/03/2026 07:48
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A dificuldade de consumidores e empresas em honrar compromissos financeiros atingiu um ponto crítico no início de 2026 – e o cenário é de alerta para os meses à frente. A inadimplência em empréstimos concedidos com recursos livres (operações em que os bancos e os clientes negociam as taxas) subiu para 5,5% em janeiro.

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O índice é o mais elevado desde agosto de 2017, evidenciando o desgaste do brasileiro provocado pelo crédito caro. Em dezembro, o indicador estava em 5,4%, e acumulando alta de 1,1 ponto percentual no intervalo de um ano – período marcado pela manutenção de juros restritivos no país. As informações são do Banco Central (BC).

As taxas cobradas em empréstimos têm influência da taxa básica de juros, a Selic, atualmente, em 15% ao ano. Após interromper um ciclo agressivo de aperto monetário em julho passado, quando parou de elevar o juro, a autoridade monetária optou por manter o custo do dinheiro nesse patamar.

O nível mais alto de juros em quase duas décadas

Havia expectativa por parte do mercado de que o BC começasse a derrubar a Selic em janeiro, o que não ocorreu na primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). O Banco Central sinalizou que pretende iniciar um processo de corte nos juros em março, amparado por sinais mais nítidos de que a atividade econômica está esfriando.

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Em um relatório anterior a esse divulgado há poucos dias, que apontou o mais alto patamar de pessoas com dívidas penduradas desde 2017, a instituição havia atribuído a subida da inadimplência a ajustes em regras específicas, mas ponderava que já via alguns sinais de estabilização.

O cenário de juros elevados também refletiu diretamente na disposição dos bancos em emprestar e na busca do público por crédito. As concessões do sistema financeiro nacional despencaram 18,9% em janeiro na comparação com o mês anterior. Com isso, o estoque total de crédito (dinheiro emprestado no país) retraiu 0,2%, somando R$ 7,116 trilhões.

Nas operações de recursos livres, onde as taxas são negociadas diretamente entre bancos e clientes, a queda nas concessões foi de 17,2%. Já no crédito direcionado, que segue normas governamentais, o recuo foi ainda mais severo, atingindo 32,9% no período. Além do volume menor de dinheiro circulando, o custo final para quem consegue o empréstimo ficou mais salgado.

Os juros médios no crédito livre subiram para 47,8% ao ano em janeiro, com acréscimo de 1,2 ponto percentual em relação a dezembro. Já no segmento direcionado, a alta foi de 0,2 ponto na mesma comparação de período, fechando em 11,6%.

Outro dado que chama a atenção é o spread bancário — a diferença entre o que o banco paga para captar recursos e o que cobra do cliente final. Nos recursos livres, essa margem subiu para 34,3 pontos percentuais, superando os 33 pontos registrados no mês anterior, o que aperta ainda mais o orçamento de quem precisa de financiamento.
Recorde atrás de recorde

Com o dinheiro caro, o número de empresas que não conseguiram honrar compromissos financeiros alcançou um recorde nos últimos meses de 2025. Vale lembrar que a inadimplência empresarial alcançou quase nove milhões de companhias brasileiras, ou uma soma de R$ 205 bilhões em dívidas, informou a Serasa Experian no final do ano passado. O dado referia-se a outubro, e chamou a atenção por ser marco inédito alcançado desde o início da série histórica do indicador, em janeiro de 2019.

O levantamento mostrou que o endividamento médio por empresa também apresentou um aumento em um ano, ao sair de pouco mais de R$ 22 mil em outubro de 2024 para R$ 23,6 mil no mesmo mês de 2025. Esse valor era o reflexo de uma média de 7,1 contas em atraso por cada CNPJ negativado. A situação mais preocupante foi observada no setor de serviços, que concentra 54,9% do total de inadimplentes.

Embora o setor seja o mais representativo da economia nacional — respondendo por quase 70% do Produto Interno Bruto (PIB) —, o volume de débitos acendeu um alerta sobre a sustentabilidade desses negócios. Na sequência, os setores com mais registros negativos foram o comércio (33%), a indústria (8%), o setor primário (0,9%) e outras classificações (3,1%).

Combinação de fatores macroeconômicos pressionaram o caixa das empresas, o que levou à desaceleração na concessão de crédito e limitou a capacidade das empresas de renegociar dívidas e reorganizar obrigações financeiras. Paralelamente, o esfriamento da atividade econômica reduziu a geração de receita, aumentando a pressão sobre o capital de giro, com um impacto mais severo entre as micro, pequenas e médias empresas (PMEs).

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