Cheias do Rio Acre têm causas além do El Niño e La Niña, revela estudo da Ufac
Um estudo desenvolvido por alunos e pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac) está ajudando a mudar a forma como se entende as enchentes do Rio Acre, em Rio Branco. Intitulado “Influência e contribuição dos eventos de El Niño e La Niña na dinâmica de inundações do Rio Acre no município de Rio Branco”, o trabalho mostra que as grandes cheias não acontecem apenas por causa desses fenômenos climáticos conhecidos, como muita gente costuma acreditar.
A pesquisa foi elaborada pelos estudantes de graduação Jesus Padilha, Dan Gustavo Feitosa Braga, José Luiz Monteiro Benício de Melo e Osmar Philipe Barbosa Farrapo, além dos pós-graduandos Matheus Nathaniel Soares da Costa e Alana Karen Mariano da Silva. O estudo teve orientação do professor Rafael Coll Delgado, doutor em Meteorologia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e docente da Ufac.
Para chegar às conclusões, os pesquisadores analisaram dados históricos de temperatura dos oceanos, volume de chuvas e nível do Rio Acre em períodos de grandes enchentes, como os anos de 1997, 2012, 2015 e 2024. A ideia era entender melhor o que realmente influencia o comportamento do rio ao longo do tempo.
Em entrevista ao ac24horas, o pesquisador Matheus Nathaniel Soares da Costa explicou que o estudo nasceu dentro de atividades acadêmicas, mas ganhou importância ao levantar um debate mais amplo. “O trabalho foi desenvolvido com base nas análises da disciplina, e a gente acompanhou todo o processo junto com o professor orientador. E o principal ponto é mostrar que não é só o El Niño ou a La Niña que explicam as cheias aqui no Acre”, afirmou.
Ele destaca que esses fenômenos têm, sim, influência, mas estão longe de ser os únicos responsáveis. “Muita gente pensa que, se tiver La Niña, vai ter grande inundação, mas isso não é verdade. Pode acontecer ou não. Ao longo da história do Rio Acre, já tivemos situações diferentes. Então, a gente mostra que existem outros fatores que também influenciam, e é preciso olhar para todos eles”, explicou.
O estudante Jesus Padilha reforça que o estudo quebra uma ideia muito comum na região. “A gente sempre ouviu que o ENOS, que envolve o El Niño e a La Niña, seria o principal fator das grandes enchentes. Mas o nosso trabalho mostra que isso não é bem assim. Foi uma quebra de paradigma”, disse.
Segundo ele, além do Oceano Pacífico, onde ocorrem esses fenômenos, o Oceano Atlântico também tem influência importante. “A temperatura do Atlântico interfere no clima da região. E não é só isso: existem fatores mais locais, como ilhas de calor, aumento de queimadas e até mudanças no próprio leito do rio, que também acabam influenciando as cheias”, acrescentou.
Outro ponto importante do estudo é a análise da chamada região Niño 3.4, uma área do Oceano Pacífico usada no mundo inteiro para monitorar o El Niño e a La Niña. O estudante José Luiz Monteiro Benício de Melo explica que os dados nem sempre seguem um padrão simples.
“Em muitos casos, as temperaturas do oceano ficam mais baixas nos períodos de cheia, mas isso não é regra. Em 2024, por exemplo, as temperaturas estavam altas e, mesmo assim, tivemos uma das maiores enchentes da história do Acre”, destacou.
Para ele, isso reforça que o fenômeno é complexo. “Não existe uma relação direta. Outros fatores podem influenciar, como chuvas muito intensas em curto período e até processos que vêm de fora da região, como o degelo na Cordilheira dos Andes”, afirmou.
Os dados do estudo mostram, por exemplo, que durante a cheia de 2023-2024 as temperaturas da superfície do mar ficaram até quase 2°C acima da média histórica . Ainda assim, esse período coincidiu com uma das maiores inundações já registradas em Rio Branco, o que reforça que não há uma explicação única para esses eventos.
A pesquisa também destaca que as enchentes na região não acontecem apenas por chuvas intensas em um único dia, mas sim pelo acúmulo de chuva ao longo de vários meses. Esse processo vai saturando o solo e aumentando o volume de água nos rios até o ponto de transbordamento.
Além dos fatores climáticos, os pesquisadores lembram que características naturais da região, como áreas planas e próximas ao rio, também favorecem as inundações. Isso, somado à ocupação urbana em áreas de risco, aumenta os impactos para a população.
Ao final, o estudo conclui que entender as cheias do Rio Acre exige uma visão mais ampla, considerando desde fenômenos globais até fatores locais. Para os autores, esse tipo de conhecimento é fundamental para melhorar a previsão de desastres e ajudar no planejamento das cidades, especialmente em um estado que convive com enchentes frequentes.
A expectativa dos pesquisadores é que o trabalho contribua não apenas para a comunidade científica, mas também para gestores públicos e a sociedade em geral, ajudando a construir estratégias mais eficientes para enfrentar os impactos das cheias no Acre.