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Com novo programa, Lula quer reduzir endividamento dos brasileiros, de olho nas eleições

Por Redação Juruá em Tempo.6 de abril de 202611 Minutos de Leitura
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A seis meses da eleição, o governo Lula corre para tentar reduzir o alto nível de endividamento que corrói a renda de boa parte da população. É uma tentativa de reduzir a rejeição nas pesquisas às vésperas de o presidente concorrer à reeleição e não descumprir uma das principais promessas da campanha que lhe deu o terceiro mandato.

Em 2022, o petista prometera uma saída para as famílias com dificuldades de lidar com dívidas, atacando os níveis recordes de endividamento do fim do governo de Jair Bolsonaro. Lançou o Desenrola, programa de renegociação de dívidas, no início do mandato, em 2023, mas, passados três anos, com a escalada dos juros para conter pressões inflacionárias, os números estão nos mesmos níveis de 2022.

E com um agravante: a fatia da renda das famílias usada para pagar dívidas cresceu. Com o custo alto dos empréstimos, há pouco tempo para Lula apresentar avanços nessa área.

O desafio do ministro da Fazenda, Dario Durigan, é entregar soluções que gerem efeitos no curto prazo, tendo em vista a campanha para a eleição de outubro, quando Lula será cobrado sobre o tema. Os dados de endividamento acenderam um sinal de alerta no governo, que busca explicações para o mau humor dos eleitores em meio à alta da renda e o desemprego na mínima histórica.

O auge do endividamento ocorreu em julho de 2022, quando a relação entre o saldo das dívidas das famílias e a renda acumulada em 12 meses chegou a 49,9%, sem considerar o financiamento da casa própria. A taxa fechou aquele ano em 49%. Em janeiro de 2026, último dado disponível, foi de 49,7%. A parcela do orçamento familiar gasto com parcelas foi recorde: 29,3%.

Promessa é dívida: com novo programa, Lula tenta evitar fim de mandato sem cumprir compromisso de ‘desenrolar’ endividados — Foto: Arte O Globo
Promessa é dívida: com novo programa, Lula tenta evitar fim de mandato sem cumprir compromisso de ‘desenrolar’ endividados — Foto: Arte O Globo

Neste período, houve algum alívio. O Desenrola, que terminou em maio de 2024, surtiu um efeito momentâneo. Mas os indicadores de endividamento voltaram a subir, acompanhando a escalada da taxa básica de juros (Selic), que chegou a 15% ao ano e segue no maior nível em duas décadas mesmo com o corte recente do Banco Central para 14,75%. É só a base de um sistema financeiro que cobra taxas muito mais altas de quem pega empréstimo e usa cartão de crédito.

Um relatório do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (FGVcemif) em colaboração com o BC mostra que o comprometimento de renda com dívidas é maior entre os mais pobres. No grupo de beneficiários do Bolsa Família, superou 30% no fim de 2024, último período analisado.

Nova estratégia

O plano em discussão no governo e com bancos é ter, dentro de poucos dias, um novo programa de renegociação de dívidas em atraso, uma versão simplificada e de menor duração do Desenrola, focada nas modalidades mais caras do mercado: cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia, como antecipou O GLOBO.

Durigan adiantou à colunista Míriam Leitão que busca descontos de até 80% na dívida com refinanciamento do restante. Ainda está em discussão se será imposta um teto para a taxa dos novos contratos, mas essa é a tendência, dizem executivos do setor financeiro, diante de garantias que devem ser dadas pelo governo.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan — Foto: Washington Costa/MF
O ministro da Fazenda, Dario Durigan — Foto: Washington Costa/MF

O programa também deve incluir algum tipo de solução para tentar evitar que as pessoas se endividem novamente. Segundo a Folha de S. Paulo, o governo cogita algum tipo de veto a apostas em bets para quem ingressar no programa e estender benefícios a pequenos empreendedores com CNPJ, como microempreendedores individuais (MEIs).

‘Enrolados’ vivem ‘bola de neve’

Entre os que seguem “enrolados”, a sensação é de uma “bola de neve” incontrolável. O analista João Vitor Fonseca, de 40 anos, conseguiu quitar uma de suas dívidas no Desenrola, em 2024, mas o programa não funcionou para as outras, e ele segue inadimplente.

— O sistema financeiro engole a gente, a ponto de você submergir em valores tão altos que impossibilitam as chances de pagamento da dívida real. Devo cerca de R$ 100 mil derivados de um valor original em torno de R$ 40 mil. Hoje tenho que comprar tudo à vista, ou pedir cartão emprestado a familiares — diz Fonseca.

Ele continua:

— Eu tinha uma dívida de dois cartões de crédito de R$ 6 mil com juros, o valor original era R$ 2 mil. Quitei pagando seis parcelas de R$ 180 pelo Desenrola, que me ajudou, mas não contemplou todas as dívidas porque tinha um período determinado considerado.

Fonseca diz conviver com dívidas desde que começou a trabalhar, aos 18 anos:

— Eu me deixei levar. Comecei a usar cartões em grande quantidade, limites especiais em bancos, linhas de crédito e financiamentos. Comecei viver uma sensação de ter uma renda dez vezes maior.

‘Ganho meu dinheiro, mas não saio do lugar’

O bombeiro civil Yan Teixeira, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, também começou a usar cartões aos 18. Hoje, com 26 anos e salário de R$ 1.820, chega a comprometer até R$ 1.500 por mês com três cartões diferentes. Admite que, em alguns meses, recorre ao parcelamento das faturas com juros para não ficar inadimplente:

— Tem mês que não tem jeito, eu parcelo. Aí no outro mês já vem mais coisa, e meu medo é virar uma bola de neve.

O bombeiro civil Yan Teixeira, de 26 anos, recorre ao parcelamento das faturas com juros para não ficar inadimplente — Foto: Acervo pessoal
O bombeiro civil Yan Teixeira, de 26 anos, recorre ao parcelamento das faturas com juros para não ficar inadimplente — Foto: Acervo pessoal

Apesar de satisfeito com a renda fixa do emprego formal, ele diz que essa dinâmica tem frustrado seu plano de sair da casa dos pais. Sente que ordenado “desaparece” de forma menos perceptível usando cada vez menos dinheiro vivo:

— No começo, o cartão era só pra uma coisa ou outra, mas quando vi já estava usando pra tudo.

Ele diz ter dificuldade de conter o impulso no consumo de roupas, acessórios e passeios;

— Às vezes aparece uma promoção, uma viagem com os amigos, e eu acabo indo. Na hora, parece que vai dar para pagar depois. Você faz um Pix, passa o cartão, parcela… Não tem aquela sensação de que o dinheiro está indo embora. Quando você vê, foi quase o salário todo. Era pra eu conseguir guardar, só que nunca sobra. Trabalho, ganho meu dinheiro, mas não saio do lugar. Quero comprar um carro, financiar ou alugar uma casa, mas não dá. Sempre tem o cartão pra pagar.

Cartão como ‘extra’

Para a especialista em crédito da Tendências Consultoria, Isabela Tavares, o governo Lula teve boas iniciativas para enfrentar o problema, como a criação do crédito consignado privado. É uma opção mais barata e estruturada de crédito, mas não disponível para quem não tem carteira assinada. Esse grupo acaba recorrendo ao rotativo quando a situação aperta. Sem educação financeira muitos veem o cartão como uma “renda extra”, ela observa:

— Essas pessoas não conseguem modalidades melhores porque os bancos estão mais seletivos. Acabam pegando crédito nas piores modalidades, o que vira uma bola de neve. Pagam contas (imediatas), mas não conseguem pagar o empréstimo.

Para Isabela, um novo programa de renegociação do governo tende a ajudar se alongar prazos e reduzir as taxas do cartão.

‘Vou dando um jeito’

Clea Machado, de 66 anos, vive sozinha em Magé, no Grande Rio, com a aposentadoria de um salário mínimo (R$ 1.621), mas terá R$ 270 descontados por mês até 2030 para pagar um empréstimo renegociado. A dívida começou com gastos inesperados de saúde, que ela foi cobrindo com o cartão de crédito. Em pouco tempo, perdeu o controle.

— Fui passando o cartão, quando vi já estava em quase R$ 3 mil. Aí fiz um empréstimo de R$ 5 mil. Passados dois anos, tentei renegociar para pegar outro para fazer uma obra, e o banco juntou tudo num só. Quando eu vi, já estava devendo R$ 16 mil. Já tinha pago cerca de R$ 4 mil reais. Peguei mais R$ 6 mil, mas aquilo que eu já tinha pago parece que sumiu — diz a aposentada.

A aposentada Clea Machado, de 66 anos, terá R$ 270 descontados por mês até 2030 para pagar um  empréstimo renegociado — Foto: Acervo pessoal
A aposentada Clea Machado, de 66 anos, terá R$ 270 descontados por mês até 2030 para pagar um empréstimo renegociado — Foto: Acervo pessoal

Enquanto as despesas com medicamentos não param de subir, ela segue usando o cartão de crédito para tentar fechar as contas do mês:

— Quando faço a compra do mês, parcelo tudo. Compro arroz, feijão, azeite, o que está faltando em casa. Depois vou só completando. Mas você parcela uma compra de R$ 400 e, quando vê, está pagando quase R$ 600.

Sem familiares para contar, Clea resolveu voltar a trabalhar para tentar sair do endividamento. Ela conta que passou a fazer faxinas para complementar a renda, mesmo sofrendo de osteoporose.

— A aposentadoria não dá para tudo, não. Não é suficiente para pagar os remédios e as contas — ela diz, ressaltando que tenta manter algum dinheiro para necessidades cotidianas. — Tem que sobrar ao menos R$ 100, R$ 150, para comprar um pão, uma verdura ou se eu quiser tomar um sorvete. A gente trabalha e merece. Vou dando um jeito. Mesmo enrolada, eu me organizo. Mas só a aposentadoria é pouco para viver com dignidade de verdade.

Cartão à mão vira problema

O aumento do uso das linhas de crédito mais caras — cujo acesso foi facilitado pelas fintechs — é apontado por especialistas como um fator decisivo na alta do endividamento e comprometimento de renda, mesmo com salários em alta nos últimos anos.

Só o montante financiado no rotativo do cartão de crédito (quando o titular paga parte da fatura e soma o restante à próxima com juros) cresceu 32,7% nos 12 meses encerrados em fevereiro, a maior expansão entre linhas do crédito livre para pessoas físicas. É a modalidade mais cara, com juros de 15% ao mês ou 435% ao ano, mas muito usada para fechar as contas do mês.

A designer Taisa Alcantara, de 28 anos, começou a acumular dívidas no cartão quando se mudou para São Paulo, em 2022. Em junho do ano seguinte, devia R$ 2.614. Em fevereiro de 2025, a dívida em aberto já superava R$ 26 mil.

— Resolvemos tentar a vida lá sem uma reserva financeira. Fui sem emprego e, nesse meio tempo, meu cartão estourou. Meu marido já estava com o nome sujo — conta.

Taisa tinha outras dívidas e fez novos empréstimos no nome do sogro para pagá-las, mas acabou deixando a fatura do cartão de lado. Já recebeu proposta de desconto e parcelamento, mas espera oferta melhor enquanto se reorganiza:

— Há um ano, consegui retomar o controle. Tenho tudo em planilha e aos poucos estou me livrando das dívidas. A prioridade é pagar meu sogro, as dívidas do meu marido e, por último, limpar meu nome.

Porta de entrada

Um dos autores do estudo do FGVcemif, o professor de Finanças Rafael Schiozer diz que, nas faixas de renda mais baixas, a inclusão no setor bancário nos últimos anos se deu majoritariamente pelo cartão de crédito, cuja oferta tem sido “menos discriminada”, principalmente nos bancos digitais:

— As pessoas que têm mais cartões estão mais endividadas. Poderia ser demanda, mas parece mais um problema de oferta. Quem está ofertando está fazendo de maneira menos discriminada — avalia Schiozer, ressaltando que a democratização do crédito é positiva, mas precisa de um ajuste qualitativo e iniciativas de esclarecimento sobre as condições que poderiam vir das próprias instituições financeiras. — É preciso dar mais informação na concessão do limite.

Viviane Fernandes, pesquisadora do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), vê uma oferta indiscriminada de produtos financeiros ruins. Por isso, ela não vê sentido num novo Desenrola, cujo impacto diz não ser claro.

— Falta acompanhamento. Não é que a pessoa não saiba gerir seu orçamento. Ela recebe tanta oferta de crédito, com cheque especial, cartão, consignado CLT, Pix Parcelado, que, em algum momento, vira a vítima perfeita. Se estou precisando, vou usar. Se contratei e não entendi, saio prejudicada — diz. — Precisamos pensar nas causas. Regular a oferta indiscriminada de crédito.

Por: O Globo.
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