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‘Poderemos ter mulheres no Alto Comando’, afirma Claudia Gusmão, primeira general a assumir posto no Exército

Por Redação Juruá em Tempo.10 de abril de 20266 Minutos de Leitura
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Primeira mulher a alcançar o generalato do Exército, a médica Cláudia Lima Gusmão Cacho, de 57 anos, afirma que a presença feminina no Alto Comando da Força é apenas questão de tempo e uma “evolução natural” da carreira militar. Recém-promovida e prestes a assumir a direção do Hospital Militar de Área de Brasília, ela diz que militares votam, mas mantêm a política fora dos quartéis — e vê o avanço das mulheres aos postos mais altos da hierarquia como resultado do desempenho ao longo dos anos. O colegiado do topo da carreira militar, formado por 16 generais quatro estrelas, atualmente é composto apenas por homens.

— Futuramente pode acontecer. Quando as mulheres da Academia Militar das Agulhas Negras chegarem aos postos até a promoção ao generalato, estarão disputando no mesmo patamar dos homens. Será gradual.

Entrevista com Cláudia Gusmão, primeira mulher general do Exército Brasileiro

Entrevista com Cláudia Gusmão, primeira mulher general do Exército Brasileiro

Recém-promovida, a general, que está há 30 anos no Exército, vê oficiais femininas ocupando cada vez mais postos de comando na Força. A partir de segunda-feira, ela passará a chefiar soldados mulheres que se alistaram voluntariamente ao Exército:

— Procuro liderar pelo exemplo, sempre pela capacidade e pela seriedade. Mostrar que somos capazes, com resiliência, empatia e escuta. Quero incentivar. É a importância da representatividade, do compromisso e de dizer que elas podem.

Como vê o ineditismo do fato de ser a primeira mulher a se tornar oficial-general do Exército?

Com muita emoção. É o reconhecimento de um trabalho nesses 30 anos. Para alcançar o generalato, você cumpre critérios, que foram acontecendo ao longo dos anos. Fui realizando os cursos que eram necessários, as direções dos hospitais, tudo isso vai agregando capacidades de modo que a gente possa chegar ao posto de coronel e dali compor depois a lista de escolha ao generalato.

O ineditismo é muito bom, estar nesse momento agora. Mas, com certeza, novas turmas virão e a gente deve ter outras mulheres alcançando esse posto.

Quais foram as dificuldades para chegar até aqui?

Quando entrei, minha preocupação maior era a parte física, porque não era o meu dia a dia como médica. Era o que eu mais receava. A partir daí, com muitos treinamentos físicos e militares, fui me adaptando. Ao longo desse período, fui recebendo novas atribuições. O médico militar participa de outras missões e atua também em cargos de chefia. Vamos nos preparando com cursos de aperfeiçoamento e cursos de Estado-Maior; fiz MBA em administração hospitalar. À medida que fui adquirindo essas capacidades, fui ocupando outras funções.

O que ainda precisa mudar no Exército para mais mulheres chegarem ao topo da carreira militar?

Isso já está acontecendo. É uma evolução natural. As mulheres hoje têm diversas formas de ingresso na carreira, tanto como militar temporária quanto como militar de carreira. Existe procura. Houve grande procura de mulheres para ingressar como soldado. Na parte de oficiais, temos as nossas escolas: Instituto Militar de Engenharia, Escola de Saúde e Formação Complementar do Exército e também a porta de entrada das oficiais combatentes, que é a Academia Militar das Agulhas Negras e o concurso da Escola Preparatória da Cadete do Exército.

A senhora é médica e especializada em pediatria. O que a levou a entrar no Exército?

Foi uma oportunidade que apareceu: inicialmente entrar como oficial temporária e posteriormente fazer o concurso e ingressar na carreira. Eu era esposa de militar e, diante das movimentações, que são uma peculiaridade do militar, sempre tive o desejo de trabalhar na minha área e poder acompanhar.

Apenas 10% do efetivo total é feminino. Quais os desafios de viver esse período em um ambiente tão masculino?

Quando eu entrei, éramos 12 aspirantes oficiais médicas, dentistas e farmacêuticas. Fizemos o curso juntas. Mesmo no ambiente de um quartel, mais masculino, fomos bem recebidas. Nunca tive essa dificuldade. Isso nunca nos foi colocado como um obstáculo. Eu estava ali cumprindo, fazendo os exercícios físicos, participando do acampamento, montando barraca e realizando as provas junto com todos.

As Forças Armadas enfrentam cenário de restrições orçamentárias. O Brasil tem condições materiais de enfrentar um conflito?

As Forças Armadas têm se preparado e precisam se manter sempre de prontidão. As três Forças têm seus projetos estratégicos, fruto de planejamento de longo prazo. No caso do Exército, há o projeto Força 40, que observa a estrutura diante dos cenários, com a rápida evolução, hoje em dia, da ciência, da tecnologia, da defesa cibernética e da defesa antiaérea. O Brasil é um país rico, com grande importância estratégica, e precisamos estar preparados.

Como a senhora viu a punição de oficiais por tentativa de golpe de Estado?

O Exército é uma instituição de Estado. Estamos sempre preocupados em cumprir nossa missão, que é defender a democracia, a lei da pátria e os poderes constituídos, respeitando as normativas vigentes. O papel do Exército é manter a coesão e a disciplina.

Este ano temos eleições presidenciais novamente. A política estará afastada dos quartéis?

Somos uma instituição de Estado e, dentro dos quartéis, procuramos cumprir nossa missão. O militar vota, tem sua opinião, mas não traz isso para dentro. Temos que focar na missão. Na minha área, estarei dirigindo um hospital e preciso me preocupar com o atendimento e a saúde. As opiniões devem ser respeitadas, mas, dentro do quartel, precisamos focar na missão.

O Alto Comando do Exército deveria ter uma mulher?

Futuramente pode acontecer. Quando as mulheres da Academia Militar das Agulhas Negras chegarem aos postos até a promoção ao generalato, estarão disputando no mesmo patamar dos homens. Será gradual.

Chegar ao Alto Comando é seu objetivo?

Quando entramos na carreira, vamos até coronel. O generalato já é um afunilamento. No caso dos generais de saúde, somos apenas cinco: um general de divisão, quatro generais de brigada.

Pode acontecer, todos temos condições, mas há prazo e tempo. Meu objetivo agora é assumir o hospital, fazer uma boa direção, implantar coisas boas e novas.

A senhora serviu em vários estados (RJ, RO, PE, RN, MS, GO e no DF). Houve desafios para conciliar vida pessoal e carreira?

A mobilidade geográfica é uma peculiaridade da profissão militar. Isso impacta nos filhos, escola e amigos. Eu e meu cônjuge somos militares, e consegui conciliar. Já precisei deixar minha filha um pouquinho mais na cidade com amigos por conta do ano letivo, para ir a outra cidade sem atrapalhar a escola dela.

O que falta para haver mais mulheres no combate?

Temos peculiaridades fisiológicas, e os exercícios são adaptados. Hoje as mulheres estão na área operacional, em missões de paz, armadas e equipadas, dirigem viaturas e manuseiam armamento.

No Hospital Militar de Área de Brasília, a senhora vai liderar um grupo de soldadas que estão chegando ao Exército. Qual será seu modelo de gestão?

Procuro liderar pelo exemplo, sempre pela capacidade e pela seriedade. Mostrar que somos capazes, com resiliência, empatia e escuta. Quero incentivar. É a importância da representatividade, do compromisso e de dizer que elas podem.

Por: O Globo.
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