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Brasil

68 milhões de brasileiros moram em áreas com presença de facções e milícias

Por O Globo. 11/05/2026 09:39 Atualizado em 11/05/2026 09:39
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Pesquisa contratada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública junto ao Datafolha estima que 68 milhões de brasileiros percebem a presença de grupos criminosos envolvidos com o tráfico de drogas ou milícias no seu bairro de moradia, o equivalente a 41% da população. Destes, quase metade classifica essa atuação como “visível” ou “muito visível”, expondo a dificuldade do poder público em dar solução ao problema e retomar o controle de territórios.

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— O momento atual que o Brasil vive é de consolidação criminal em torno de organizações que, de certa forma, têm controlado territórios, mercados, economias e, sobretudo, a vida da população. Não é simplesmente o medo do assaltante, do trombadinha, como era nos anos 70 e 80. Hoje são negócios que respondem às dinâmicas do crime organizado — afirma o presidente da entidade e professor da FGV, Renato Sérgio de Lima.

Ele faz um paralelo entre os maiores temores da população, medidos pela pesquisa, com o modelo de operação das facções e milícias. Roubo e furto de celular, por exemplo, abastecem um esquema mais amplo em que um receptador próximo já tenta desbloquear o aparelho com ferramentas digitais e efetuar fraudes bancárias. A prática faz mais vítimas a cada ano.

— Ou seja, por trás de um crime que antes poderia ser difuso, temos cadeias criminais organizadas que vão sendo reguladas e consolidadas, sobretudo no PCC e no Comando Vermelho, além de outras 30 a 40 organizações presentes no território brasileiro — alerta.

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A pesquisa também mediu o quanto a disseminação do crime organizado afeta a rotina da população afetada. Cerca de um terço dos residentes nessas áreas acredita que o crime organizado “influencia muito” nas regras de convivência do bairro. Somando com os relatos de impacto “moderado” ou de “um pouco”, o percentual chega a mais da metade dos entrevistados nesse recorte da pesquisa.

— O medo da violência faz com que as pessoas alterem seus comportamentos. Elas têm sua mobilidade reduzida, o que traz prejuízos do ponto de vista psicológico e econômico, elas deixam de consumir, de circular em determinados espaços. Então, o recado aqui é que o medo importa — acrescenta Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Há níveis alarmantes sobre o risco de ficar no meio de um conflito armado, de frequentar certos locais, de ter um familiar aliciado pelo tráfico, de circular em determinados horários, de sofrer represálias ou punições por denunciar crimes e até mesmo de falar sobre política, a cinco meses de uma nova eleição que tem a segurança pública no centro do debate.

Um percentual menor de entrevistados afiram ter sido compelidos a contratar serviços oferecidos pelos criminosos (12%), como TV a cabo, internet, luz, água e telefonia, assim como comprar produtos e marcas específicas nos comércios locais (9%). Samira entende que essa pode ser interpretada como uma “notícia positiva” do levantamento, em termos de incidência, pois essa “nova camada, ainda mais cruel de exploração da população nesses territórios, ainda parece restrita a algumas localidades”.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública contratou o levantamento do Datafolha como forma de subsidiar as discussões eleitorais deste ano. Uma das queixas levantadas diz respeito à estratégia recorrente de candidatos de culpar adversários e outros entes federativos pelo alastramento do crime organizado, em vez de assumir uma postura ativa e de colaboração para o enfrentamento da questão.

“Segurança pública não pode ser apresentada apenas como promessa de confronto ou endurecimento penal, mas como tarefa de proteção das comunidades mais expostas e de recuperação das condições mínimas para que justiça, circulação e projeto de futuro deixem de ser condicionados pelo poder armado”, afirma o relatório.

A pesquisa foi realizada pelo Datafolha através de entrevistas presenciais em pontos de fluxo, com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, distribuídas em 137 municípios de todo o país. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos, com nível de confiança na amostra de 95%.

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