Arábia Saudita e Emirados Árabes atacaram Irã em segredo durante a guerra, dizem fontes
Enquanto o cessar-fogo entre EUA e Irã mantém em suspenso as hostilidades entre os rivais apesar do impasse nas negociações diplomáticas, informações reveladas por fontes ocidentais mostram que os bombardeios lançados contra a nação persa envolveram mais atores do que se sabia anteriormente. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos realizaram ataques contra o território iraniano, segundo fontes, em um desdobramento que aumenta o risco de uma implicação de países do Golfo em uma guerra direta com Teerã, caso o conflito seja retomado.
A maioria dos países da região foi duramente atingida pela campanha de retaliação do Irã à ofensiva de EUA e Israel. Mísseis, drones e foguetes forçaram o fechamento do espaço aéreo em alguns dos principais hubs de aviação civil do mundo e atingiram diretamente países alheios ao conflito, causando morte de civis e danos estruturais. Sistemas de defesa antiaéreo foram ativados e houve condenação massiva aos bombardeios iranianos, mas não havia confirmação sobre ataques diretos contra Teerã.
Os ataques sauditas foram confirmados por fontes ocidentais e iranianas ouvidas pela Reuters, sob condição de anonimato. A agência de notícias conseguiu detalhar que bombardeios conduzidos pela Força Aérea do país teriam sido conduzidos em fins de março, em retaliação a ataques que atingiram Riad. Os alvos em território iraniano, porém, não puderam ser precisados. Oficialmente, o reino não confirma as ações.
Outra nação do Golfo que atacou secretamente o Irã foram os Emirados Árabes Unidos. O Wall Street Journal detalhou que Abu Dhabi teria usado jatos Mirage, de fabricação francesa, e drones Wing Long, de fabricação chinesa, para atacar alvos no Irã, incluindo a Ilha Lavan, uma instalação estratégica para o setor de petróleo iraniano, pouco antes do início do cessar-fogo entrar em vigor.
A participação de duas das nações mais influentes da região em ações militares contra Teerã podem indicar uma mudança de forças em caso de uma retomada no conflito. Apesar disso, as abordagens de Riad e Abu Dhabi tem diferenças marcantes, em uma análise mais ampliada. A liderança saudita tem buscado uma intensa atividade diplomática, mantendo diálogo constante com o governo do Irã, enquanto os emiradenses parecem apostar em uma aproximação aberta com os EUA e seus aliados.
Em uma das medidas com maior potencial de impacto, os Emirados Árabes Unidos anunciaram saída da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e da Opep+, aliança que reúne membros do cartel do petróleo e aliados como a Rússia. A medida foi vista em Washington como movimento favorável aos interesses americanos, enquanto fragiliza a capacidade da organização de influenciar os preços globais do petróleo.
Outros indícios da colaboração mais estreita entre Abu Dhabi e atores ocidentais surgem. Na terça-feira, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, revelou que o Estado judeu enviou sistemas de defesa antiaérea e pessoal para operá-los durante o período de alta intensidade do conflito, apresentando o desdobramento como um benefício obtido em função da adesão aos Acordos de Abraão — de normalização de relações diplomáticas entre países árabes e Israel.
— Posso expressar algumas palavras de reconhecimento, uma profunda gratidão e uma profunda admiração em relação aos Emirados Árabes Unidos? — declarou Huckabee durante uma conferência na Universidade de Tel Aviv. — Foram os primeiros signatários dos Acordos de Abraão e vejam os benefícios que obtiveram. Israel acaba de lhes enviar baterias para o ‘Domo de Ferro’ (…) Como isso é possível? Porque existem relações extraordinárias entre os Emirados Árabes Unidos e Israel.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que a trégua com o Irã estava “na UTI” no começo da semana, após a contraproposta apresentada por negociadores da nação persa. Apesar do diálogo mediado pelo Paquistão, os países não conseguem superar gargalos como o futuro do programa nuclear iraniano e do Estreito de Ormuz.
O republicano chegou a ameaçar a retomada do “Projeto Liberdade”, uma iniciativa militar para liberar o tráfego de embarcações mercantes pela rota naval — que especialistas disseram ter sido interrompida menos de 48 horas após seu lançamento, em parte pela recusa da Arábia Saudita de permitir operações a partir de seu território.