Um estudo publicado neste mês na revista científica The Lancet Regional Health indica que o Brasil vai alcançar as metas de tabagismo e de redução do consumo regular de bebidas adoçadas com açúcar até 2030. Por outro lado, o cenário vai piorar para a ingestão de álcool, obesidade, diabetes e hipertensão. Além disso, a prática de atividade física e o consumo de frutas e verduras, embora melhorem, ainda continuarão distantes das metas do país.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Núcleo de Pesquisa em Epidemiologia das Doenças Crônicas da Universidade Federal de São Paulo (CRÔNICAS/UNIFESP) e do Ministério da Saúde. As projeções foram realizadas com base nos números de 643.196 adultos que responderam o Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), uma pesquisa anual conduzida pela pasta da Saúde nas capitais do país.
As metas foram calculadas com base nos objetivos de evolução dos indicadores estabelecidos pelo Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil, 2021-2030, em relação à prevalência observada em 2019. Entre elas, reduzir o consumo de bebidas adoçadas em 30%, o tabagismo em 40% e o consumo abusivo de álcool em 10%, e aumentar a atividade física no lazer em 30% e o consumo recomendado de frutas e hortaliças em 30%.
Após realizar as projeções, os pesquisadores concluíram que o Brasil deve viver uma queda no tabagismo, saindo de 9,8%, em 2019, para 4,7%, em 2030 – não apenas alcançando, como superando a meta de redução em 30,1%. Em relação às bebidas adoçadas, o consumo deve cair de 15% para 3,2%, também excedendo a meta, em 162%.
As boas notícias param por aí. O consumo episódico excessivo de álcool deve subir de 18,8% para 21,3%, desviando-se da meta em 133%, com aumentos mais acentuados entre mulheres. Já o consumo de frutas e verduras, embora passe por um crescimento modesto, de 22,9% para 24,5%, isso vai representar apenas 23,3% da meta. O mesmo ocorre para a atividade física no lazer, que deve aumentar de 39% para 45,3%, somente 53,8% da meta.
Como consequência, as doenças crônicas não transmissíveis devem manter a tendência de alta. A obesidade deve aumentar de 20,3% para 28,3%, mais de 1 a cada 4 brasileiros. Isso representa uma alta de 29,4%, enquanto a meta do Brasil é interromper o crescimento. A prevalência de diabetes deve subir de 7,4% para 10,9%, uma alta de 47,3%, e a de hipertensão arterial passar de 24,5% para 27,3%, crescimento de 11,4%, também fora da meta.
Além disso, os autores destacam que mesmo as projeções positivas, relacionadas ao consumo de bebidas adoçadas e ao tabagismo, demandam cautela. Em relação às bebidas, citam que políticas públicas como tributação, rotulagem frontal, proibições de publicidade e restrições de venda em escolas podem ter contribuído para a melhora, além de uma maior conscientização sobre os danos dos produtos.
No entanto, a análise mostrou que o período mais recente, de 2015 a 2023, apresentou sinais de estagnação na tendência, indicando que “o progresso observado ao longo do tempo, (utilizado para projetar os dados de 2030), pode não se manter, e que esforços contínuos de políticas para reduzir o consumo de bebidas açucaradas permanecem essenciais”, segundo escrevem no artigo.
O mesmo vale para o tabagismo. Eles citam que políticas de controle do tabaco de longa data no Brasil, como proibição de publicidade, tributação, ambientes livres de fumo e advertências sanitárias com imagens, contribuíram para a queda ao longo do tempo. No entanto, “evidências recentes sugerem uma possível estabilização na queda do tabagismo”.
“A ausência de ajustes na tributação do tabaco desde 2016 e a crescente disponibilidade de novos produtos de nicotina e tabaco (por exemplo, cigarros eletrônicos), que não foram incluídos nesta análise, podem representar novos desafios”, afirmam os autores.
Já em relação aos outros indicadores, eles citam entraves como adesão baixa a políticas de redução de consumo de álcool, com lacunas na definição de preços e regulamentação de marketing, e elevado custo de alimentos saudáveis. Sobre a alta de obesidade e diabetes, destacam ainda o papel dos ultraprocessados:
“O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados na dieta brasileira, observado na mais recente Pesquisa de Orçamentos Familiares, pode ajudar a explicar esse padrão, e foi reforçado pela recente Série da Lancet sobre Alimentos Ultraprocessados e Saúde Humana, que sintetizou evidências ligando o consumo desses alimentos a diversos desfechos adversos, incluindo obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares”.

