Uma nota técnica divulgada nesta sexta-feira (22) por órgãos federais do clima acendeu um novo sinal de alerta para a Amazônia e, consequentemente, para o Acre: há mais de 80% de probabilidade de formação do fenômeno El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, com possibilidade de permanência até o início de 2027.
O documento foi elaborado conjuntamente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Instituto Nacional de Meteorologia, Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. A avaliação dos órgãos aponta para um cenário de redução de chuvas na Região Norte, aumento das temperaturas e risco ampliado de incêndios florestais e queda no nível dos rios da Amazônia.
As projeções divulgadas pelo Instituto Nacional de Meteorologia na última semana já indicavam avanço acelerado das chances de formação do fenômeno. Segundo o instituto, a neutralidade climática no Pacífico deve permanecer apenas até o fim do primeiro semestre. Depois disso, a probabilidade de formação do El Niño sobe para 79% no trimestre junho-julho-agosto e ultrapassa 90% a partir do trimestre agosto-setembro-outubro, com tendência de persistência até 2027.

O alerta reacende preocupações no Acre após os impactos registrados nos últimos anos, quando o estado enfrentou secas severas, fumaça persistente e dificuldades logísticas provocadas pela redução do volume dos rios.
Segundo a nota técnica, os modelos climáticos indicam “alta probabilidade de estabelecimento de um evento de El Niño ao longo do segundo semestre de 2026”. O documento ressalta que, embora ainda não seja possível definir com precisão a intensidade do fenômeno, os sinais observados no Oceano Pacífico já demonstram condições favoráveis para o aquecimento anormal das águas, característica central do El Niño.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. Durante sua formação, ocorre enfraquecimento dos ventos alísios, o que reduz a subida de águas frias profundas e mantém águas mais quentes na superfície do oceano. Em alguns casos, a temperatura pode ficar mais de 3°C acima da média histórica.

Os impactos mais diretos para a Amazônia aparecem justamente na combinação entre estiagem prolongada e temperaturas acima da média.
“Aumento do risco de fogo” e “redução do nível dos rios” aparecem entre os principais efeitos esperados para a região Norte.
Os órgãos federais destacam que uma estação seca mais longa, associada à baixa umidade do ar e ao calor intenso, cria condições mais favoráveis para a propagação de incêndios florestais. O documento relembra que, durante o El Niño de 2015, houve aumento de cerca de 36% na incidência de fogo na Amazônia em relação à média dos 12 anos anteriores.
No Acre, onde queimadas ilegais e fumaça já pressionam o sistema de saúde durante os meses mais secos do ano, a previsão preocupa especialmente autoridades ambientais e equipes da Defesa Civil.
Outro ponto considerado crítico é a possibilidade de redução nos níveis dos rios amazônicos. Segundo os órgãos técnicos, o déficit de chuvas nas cabeceiras pode afetar diretamente a navegação, o abastecimento de comunidades ribeirinhas, a produção agrícola, a pesca e até o sistema energético.
No estado, rios mais baixos costumam provocar isolamento de comunidades e dificuldades de transporte em municípios dependentes da navegação, especialmente no interior do estado.
Veja a nota técnica na íntegra:
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Na última semana, o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, coronel Cláudio Falcão, afirmou ao ContilNet que o município já iniciou o planejamento para enfrentar um possível cenário de seca severa em 2026.
Coordenador da Defesa Civil Municipal, tenente-coronel Cláudio Falcão/Foto: Gustavo Monteiro
Segundo ele, três planos de contingência serão colocados em prática a partir de junho: estiagem, exaurimento hídrico e queimadas.
“Pelo menos esses três planos têm que ser colocados em prática agora, para que a gente diminua os impactos”, afirmou.
De acordo com Falcão, as ações envolvem desde abastecimento com caminhões-pipa até mapeamento de áreas suscetíveis a incêndios que possam atingir a rede elétrica. O coordenador também disse que diferentes secretarias municipais já participam do planejamento, incluindo Meio Ambiente, Agricultura, Saúde, Educação, RBTrans e o Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco.
Entre as preocupações apontadas pela Defesa Civil estão o aumento de doenças respiratórias, impactos na produção rural, possível interrupção do calendário escolar em caso de níveis críticos de poluição e dificuldades no abastecimento de água.
Falcão também citou o comportamento do Rio Acre nos últimos anos. Em setembro de 2024, o manancial atingiu 1,23 metro, a menor marca já registrada até então. Segundo ele, a possibilidade de um novo cenário crítico não é descartada.
“Quando o nível do rio chega a esse nível de 1,30 metros, 1,40 metros, é porque já está muitos dias sem chuva e isso traz uma série de consequências”, disse.
O coordenador ainda afirmou que uma eventual seca severa pode provocar impactos econômicos diretos, principalmente sobre a produção rural, piscicultura, navegação e abastecimento urbano.
A nota também aponta que o padrão típico do El Niño historicamente provoca redução das chuvas na Região Norte entre os meses de junho e março.
Os efeitos também preocupam o setor agrícola. Segundo análise divulgada pelo INMET, o El Niño tende a agravar períodos de estiagem nas regiões Norte e Nordeste, além de partes do Centro-Oeste e Sudeste, comprometendo o desenvolvimento das lavouras e aumentando o risco de perdas, especialmente em sistemas de sequeiro.
O instituto alerta que a combinação entre menos chuva e temperaturas elevadas aumenta o estresse hídrico das culturas agrícolas e reduz a disponibilidade de água no solo. No Acre, produtores rurais já convivem nos últimos anos com oscilações climáticas mais severas, alternando enchentes históricas e períodos de seca extrema.
Os técnicos ponderam, porém, que as condições do Oceano Atlântico Tropical ainda podem amenizar parte dos efeitos da estiagem na Amazônia. Mesmo assim, o documento afirma que ainda é cedo para dimensionar o tamanho dessa possível compensação climática.
As previsões analisadas pelos institutos indicam ainda que a probabilidade de ocorrência do El Niño sobe para mais de 90% até o final de 2026 e início de 2027.
Na conclusão da nota técnica, os órgãos falam da necessidade de monitoramento contínuo das condições climáticas e de ações de planejamento para reduzir impactos associados a eventos extremos, como seca, queimadas e redução dos níveis dos rios na Amazônia.

