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Expansão de igrejas evangélicas impulsionada por imigrantes latino-americanos sofre preconceito na Espanha

Por O Globo. 04/05/2026 09:33 Atualizado em 04/05/2026 09:34
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Longe dos cartões-postais de Madri, o bairro de San Blas — antigo reduto operário durante a ditadura de Francisco Franco e um dos epicentros da epidemia de drogas nos anos 1980 — vive hoje um cotidiano mais silencioso, de ruas residenciais e pouco comércio. Entre as casas antigas, uma fachada de cores vivas se destaca com o letreiro: “Dios es Amor”. Aos domingos, as ruas da região, normalmente vazias, ganham movimento. Fiéis de diferentes nacionalidades atravessam a cidade para participar do culto da igreja evangélica pentecostal brasileira Deus é Amor. A maioria é formada por imigrantes latino-americanos que vivem na capital espanhola e encontram ali mais do que um espaço de fé: um ponto de apoio.

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— Aqui somos todos família, eles me perguntam se eu estou bem, se já jantei — conta a paraguaia “irmã Clara”, que preferiu não dar o sobrenome e vive na Espanha desde 2019.

Origem brasileira

A cena dominical em San Blas não é isolada. Em diferentes zonas do país, encontros semelhantes se multiplicam junto à expansão das congregações evangélicas no território espanhol. Segundo o Observatório de Pluralismo Religioso, uma nova igreja é aberta a cada quatro dias apenas em Madri — hoje, a capital concentra 1.187 templos evangélicos. Do total, 455 foram abertos nos últimos cinco anos, um aumento de 62%. Em Barcelona, a tendência se repete. Dados da Dirección General de Asuntos Religiosos de la Generalitat mostram que a presença evangélica quase duplicou em duas décadas.

Por duas horas e meia, em um pequeno salão, a congregação entoa gritos de “aleluia” e louvações que se misturam em português e espanhol. À frente, o pastor Gilberto Miranda de Moraes, do Rio Grande do Sul e líder da Igreja Deus é Amor na Espanha, conduz a pregação. Mulheres, homens e crianças acompanham atentamente as mensagens sobre vida conjugal, fé e prosperidade financeira.

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Igreja “Deus é Amor”, em Madri — Foto: Eduarda Melo

Perto das 14h, o pastor chama à frente do altar pessoas que estão passando por problemas de saúde, falta de dinheiro ou “crises causadas por pouca fé”. Acompanhado por obreiros da igreja, ele reúne mais de uma dezena de fiéis ao redor do palco, que aguardam as orações. Ao fim do culto, as famílias deixam o local aos poucos. Nem todos, porém, vão embora: um grupo denominado de “mulheres virtuosas” permanece para almoçar e celebrar o aniversário de uma das integrantes.

Em nível nacional, estima-se que a Espanha reúna cerca de 1,5 milhão de fiéis dessas igrejas. O aumento no número de adeptos aparece também na identificação religiosa: em 1998, apenas 0,2% da população se declarava pertencente a esse grupo. No último levantamento, em 2018, o percentual chegou a 2%.

Igrejas de origem brasileira também passaram a ocupar espaço significativo no xadrez religioso do país. A Deus é Amor, fundada em 1962 pelo missionário David Miranda, está há quase 30 anos na Espanha e iniciou sua atuação de forma discreta, com pregações esporádicas em espaços cedidos. Hoje, a congregação conta com dez sedes espalhadas no território espanhol.

Ao lado dela, a Universal do Reino de Deus, a Igreja Batista da Lagoinha, a Mais de Cristo, a Comunidade Evangélica Internacional Zona Sul, a Igreja Cristã Maranata e a Verbo da Vida disputam espaço e adesão com igrejas vindas de outras partes da região, como Colômbia e Equador.

O professor Chema Alejos explica que essa expansão está atrelada à forte imigração dos últimos anos no país, sobretudo de latino-americanos.

— Quando uma pessoa se muda, a tendência é se aproximar de quem compartilha a mesma cultura. Nesse contexto, as comunidades evangélicas se tornam um espaço muito importante de apoio. Mesmo quem não era tão ligado à fé no país de origem encontra ali um lugar de familiaridade.

Fiéis participam de culto da Igreja Deus é Amor no bairro de San Blas, em Madri: imigrantes de diferentes nacionalidades atravessam a cidade para participar da pregação aos domingos — Foto: Eduarda Melo

Senso de comunidade

A Espanha tem cerca de 4 milhões de imigrantes de origem latino-americana, dos quais 760 mil vivem sem documentação legal. A proposta de regularização em massa apresentada pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez acirrou o debate público sobre o tema. Um levantamento encomendado pelo jornal El Mundo indica que mais de 69% dos espanhóis apoiam a deportação dessa população. Nesse cenário de polarização, redes religiosas reforçam seu papel como espaço de apoio.

Entre esses imigrantes está Sandra (nome fictício), equatoriana que vive em Madri desde 2016. Ela é frequentadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia e sente, na prática, o senso de comunidade exercido pela congregação.

— Eles [integrantes da igreja] estão sempre presentes. Quando alguém acaba de chegar, temos que ajudá-la a encontrar um emprego, um lugar para ficar…

Fora dos templos, porém, o acolhimento encontra limites. Em um bairro periférico de Madri, a pregadora dominicana Josefa Nava, de 78 anos, evangelizava em uma das ruas da região quando contou já ter sido multada por pregar em espaços públicos. Algo que, segundo ela, não ocorreria se fosse católica.

A experiência não é isolada. Marcelo de Moura, brasileiro e cooperador da Igreja Deus é Amor em Madri, relata que, após se converter, enfrentou rejeição de colegas de trabalho. Ele afirma que passaram a estranhar mudanças em seu comportamento e forma de se expressar, que descreve como “menos mundanas e mais alinhadas ao cristianismo”.

Para o pastor Gilberto Miranda, as experiências são reflexo do lugar que os imigrantes ocupam na sociedade espanhola, onde persiste uma ideia de “superioridade europeia” em relação a outros países.

— Tem uma diferença social, e o fato de sermos vistos como gente de terceiro mundo também dificulta as coisas.

A trajetória do protestantismo na Espanha ajuda a explicar as tensões entre evangélicos e não evangélicos. Historicamente, o país se consolidou como um dos principais redutos do catolicismo europeu, com registros de perseguições a protestantes desde o século XV. Durante o franquismo, entre 1939 e 1975, práticas evangélicas chegaram a ser proibidas por lei. A liberdade religiosa só foi restabelecida no fim da ditadura, com a transição democrática.

Exclusão histórica

Kenny Clewett, ex-pastor e cofundador da Hello World, organização que trabalha com migrantes, aponta outro ponto de conflito: a composição dos evangélicos na Espanha é formada por grupos tradicionalmente excluídos.

— Antes da chegada dos latino-americanos evangélicos, a maioria dos fiéis era formada por ciganos, também marginalizados — diz. — A sociedade espanhola é racista. Então, quando há um grupo de não brancos, os brancos se afastam e os diminuem.

As dinâmicas também estão nas estruturas institucionais. A Federação de Entidades Religiosas Evangélicas da Espanha concentra a interlocução com o Estado e reúne a maior parte das congregações registradas. Mesmo assim, segundo Clewett, migrantes e ciganos seguem com baixa presença em espaços de decisão, o que “reproduz padrões de exclusão dentro do próprio campo religioso”. Mesmo que haja curiosidade de espanhóis não evangélicos em relação à religião, na prática, a sociedade impõe um afastamento, diz:

— Uma coisa é participar de uma igreja; outra é se sentir sob a autoridade espiritual de uma pessoa não branca.

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