Filha de Che Guevara cita temor de invasão dos EUA e defende democracia em Cuba
A médica Aleida Guevara, filha de Ernesto “Che” Guevara, afirmou que existe em Cuba um sentimento de alerta constante diante de uma possível ofensiva militar dos Estados Unidos. Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, Aleida classificou o comportamento do presidente americano, Donald Trump, como “imprevisível” e “louco”, argumentando que a proximidade geográfica com o “império” exige que o povo cubano esteja pronto para o pior.
“Sabemos que podem nos atacar a qualquer momento porque são loucos. Esperemos que a loucura não chegue ao extremo e que eles se deem conta do tipo de inimigos que realmente podemos ser”, declarou a médica, citando uma frase de Fidel Castro: “Quando um povo enérgico e viril chora, a injustiça treme”.
Em visita ao Brasil para participar de um encontro do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Aleida comentou o endurecimento do bloqueio econômico, que recentemente deixou a ilha sem receber petróleo por três meses. Segundo ela, a crise energética gera apagões intermitentes que dificultam a conservação de alimentos e a vida cotidiana nas províncias.
Questionada sobre sua vinda ao país, Aleida destacou que a questão da terra continua sendo o maior desafio brasileiro. “A reforma agrária continua sendo o calcanhar de Aquiles do país. Se não houver uma reforma profunda e real, será muito difícil resolver o problema da soberania alimentar”, avaliou.
Sobre as críticas frequentes de que Cuba não seria uma democracia, Aleida rebateu questionando o sistema político de outras nações. Para ela, o termo grego que significa “poder do povo” se concretiza na ilha de forma mais plena do que no modelo liberal.
“Democracia significa igualdade de condições para ser julgado, não importa quanto dinheiro você tenha no banco. Quando o povo brasileiro entender o que é democracia de verdade, perceberá que, em Cuba, existe a mais popular e aberta que existe, porque o povo governa”, afirmou.
Com 65 anos, Aleida refletiu sobre a figura do pai e a educação recebida de sua mãe, Aleida March. Ela revelou que, apesar da morte precoce de Che, a família nunca aceitou privilégios materiais, vivendo sob as mesmas restrições de racionamento impostas ao restante da população cubana.
“Minha mãe não permitia que recebêssemos nada a mais. Nós comíamos o que todos em Cuba comiam. Mas fomos privilegiados por ter o carinho e a admiração do povo. Percebo que meu pai ainda está muito vivo; a presença dele é muito forte, principalmente nas crianças”, concluiu a médica, que retorna a Havana nesta sexta-feira (15).