“Nós não sabíamos se eram um, dois ou 15 [atiradores]”, relata sobrevivente de ataque em escola do Acre
Se no primeiro momento a reação foi o silêncio e o chão como refúgio, o que se seguiu na mente de quem estava trancado nas salas do Instituto São José foi o vazio da incerteza. Enquanto os disparos ecoavam pelos corredores de Rio Branco naquele fatídico 5 de maio, o medo não tinha rosto ou quantidade definida.
“Nós não sabíamos se eram 1, eram 2, 5, 10, 15 [atiradores], ninguém sabia”, revela o servidor nesta segunda reportagem da série exclusiva do portal A GAZETA. No escuro sobre o que acontecia do lado de fora, o docente transformou a sala de aula em um abrigo improvisado: “Eu tentei ajudá-los, socorrê-los na sala de aula, tentando protegê-los”.
O intervalo entre os disparos
O docente descreve com precisão o momento em que a sequência de tiros foi interrompida, algo que ele atribui a um livramento. Foram cerca de cinco ou seis disparos iniciais antes que a arma do agressor apresentasse uma falha.
“Parecia a zoada de zinco, mas percebi que não era devido à sequência. Quando olhei para os alunos, eles também já estavam impactados. Acreditávamos que estávamos seguros, que nenhum aluno ia portar arma para adentrar a escola e fazer tal episódio trágico.”
O luto pelas “mães” da escola
Para além do terror dos 20 minutos de espera, a reportagem revela a dor da perda de Alzenir Pereira da Silva, 56 anos, e Raquel Sales Feitosa, 36. O servidor descreve um ambiente que, antes daquela terça-feira, era marcado pela harmonia e pelo zelo das duas funcionárias.
“Eram pessoas excepcionais e eu não consigo imaginar como será o retorno sem aquelas duas pessoas. Eram fundamentais para toda a escola, onde acolhiam todos com bastante amor e zelo”, desabafa o profissional, emocionado ao lembrar do contato diário que mantinha com as vítimas.
Marcas que o tempo não apaga
A pergunta que ecoa na comunidade escolar agora não é mais “quando”, mas “como” voltar. O trauma se manifesta em cada som inesperado e na dificuldade de encarar novamente o quadro negro que servia de cenário para as orações iniciais.
“É muito difícil entrar na sala de aula; qualquer tipo de barulho, eu acho que vai lembrar aquela situação. Não consigo ver algo que possa tentar remediar isso de imediato, pois o trauma, as cicatrizes, as marcas estão bem fortes até o momento.”
O depoimento reforça que, para os sobreviventes, o ataque não terminou quando a polícia chegou, mas continua a cada vez que o silêncio da escola é lembrado.
Este é o segundo de uma série de relatos exclusivos que o portal A GAZETA publicará desta entrevista. Em respeito às vítimas e à investigação em curso, preservamos a identidade de nossa fonte. A reconstrução do Instituto São José não será apenas física, mas humana, e nós seguiremos ecoando a voz de quem viveu esse capítulo sombrio da história do Acre.