Marrocos foi a montanha ideal a ser encarada pela seleção brasileira logo na estreia da Copa do Mundo. A força e a qualidade do adversário eram conhecidas, mas o técnico Carlo Ancelotti repetia que o Brasil estava pronto para o desafio. Não foi o que o campo indicou. Com mudanças de última hora na escalação e uma atuação assustada, sobretudo no primeiro tempo, a equipe deu claros sinais de que precisará de ajustes para a sequência do torneio, tanto em termos táticos como de comportamento. Foi esse o diagnóstico dos jogadores: será necessário fazer correções na rota. A avaliação interna é de que há tempo para isso. E Ancelotti pareceu disposto a mudar,
— Não podemos perder a confiança. Num primeiro jogo de Copa, tudo pode acontecer. A equipe não estaria perfeita no primeiro jogo. Tenho bastante claro o que temos que melhorar. Temos que seguir trabalhando para ter uma equipe mais equilibrada e mais agressiva na frente — cobrou o técnico.
Além de reconhecer o mérito do Marrocos, a principal dificuldade detectada pela seleção brasileira foi trabalhar a bola no meio-campo e fazer uma recomposição defensiva em velocidade. No gol adversário, em erro de Lucas Paquetá, zagueiros, laterais e volantes não fizeram uma boa transição. Essa demora em voltar para a defesa sem a bola foi considerada o ponto crítico, segundo O GLOBO apurou.
Com a posse, o time fez muitas ligações diretas e teve erros técnicos em profusão. Por isso, a entrada de Paquetá no time não se justificou, mesmo quando o meia subiu de produção pelo lado esquerdo. Houve muitas perdas de bola. O primeiro ajuste de rota passa por solucionar a necessidade de maior presença no meio sem correr riscos atrás. Contra o Haiti e a Escócia, a exigência pode ser menor, mas, em caso de classificação à segunda fase, esse quesito pode pesar.
Pressão por jovens
A fragilidade defensiva também recai sobre a presença de Casemiro. Se Ancelotti pareceu disposto a buscar soluções diferentes para jogadores que acabaram de chegar, com seu homem de confiança a situação é mais delicada. Fabinho, acionado para substituir o volante, entrou bem, com maior poder de combate e saída de bola. A chegada à área também ficou mais frequente quando Danilo Santos substituiu Bruno Guimarães, outro pilar do italiano. Se houve um mérito do técnico, foi manter uma base. Mas Copa do Mundo é encaixe.
Danilo, do Flamengo, que entrou no segundo tempo no lugar de Ibañez — surpresa na escalação ao lado de Igor Thiago e Douglas Santos —, pacificou o sistema defensivo. Depois da partida, foi um dos mais conscientes na análise sobre a condição mental da equipe e os erros cometidos na etapa inicial.
O lateral, que deve assumir a vaga de titular contra o Haiti, admitiu que a seleção esteve abaixo “comportamental, técnica e taticamente” e que teve sorte de ir para o intervalo com o empate. Ao mesmo tempo, enxergou uma equipe com mais confiança e mais bem posicionada na etapa final. Depois de fazer bons 45 minutos na estreia, o veterano se irritou com um questionamento sobre se aguentaria todos os jogos como titular, mas garantiu que sim.
Do outro lado, na lateral esquerda, Douglas Santos foi um dos poucos jogadores a ter uma exibição sólida e mantém em aberto a disputa com Alex Sandro.
Do meio para a frente é que Ancelotti precisará buscar soluções. Vinicius Junior fez jus à confiança depositada pelo treinador e foi o melhor do time, anotando um golaço que garantiu o empate. Mas a bola pouco chegou a Igor Thiago e, quando isso aconteceu, o centroavante não aproveitou as chances.
A opção de ter Raphinha alternando no comando do ataque com Vini, por sua vez, com Matheus Cunha por trás, gerou mais volume no segundo tempo. Mas, embora tenha sido quem mais correu, o meia do Barcelona esteve tecnicamente aquém do esperado mais uma vez. Com isso, vê a sombra de Luiz Henrique, Rayan e Endrick aumentar. Os dois últimos não foram acionados por Ancelotti, que vê a pressão para lançá-los crescer ainda mais e se irritou com perguntas.

