Antes de se tornar brasileiro, o Acre teve presidente, ministérios, escolas, selo postal e um governo próprio funcionando em pleno coração da Amazônia. Por cerca de nove meses, entre 1899 e 1900, o território deixou de ser apenas uma área disputada entre Brasil e Bolívia para se transformar em um país independente.
A história é um dos tantos capítulos curiosos da formação acreana e ajuda a explicar os acontecimentos que culminariam, anos depois, na incorporação definitiva do Acre ao Brasil. No aniversário de 64 anos da elevação do Acre à categoria de estado, celebrado nesta segunda-feira, 15 de junho, A GAZETA conversou com o historiador Marcos Vinícius para revisitar o período em que o Acre foi proclamado independente e passou a manter uma estrutura própria de governo em pleno território amazônico.
Quando o Acre era administrado pela Bolívia
O início dessa história remonta a 2 de janeiro de 1899. Naquele dia, uma expedição boliviana chegou à região do Rio Acre para assumir oficialmente a administração do território. Segundo Marcos Vinícius, a missão era liderada pelo diplomata José Paravicini e ocorreu com autorização do próprio governo brasileiro, já que os tratados internacionais então vigentes reconheciam a área como pertencente à Bolívia.
Ao chegar à região, os bolivianos fundaram Puerto Alonso, atual município de Porto Acre, e passaram a exercer a administração local. A cobrança de impostos e a aplicação das leis bolivianas passaram a fazer parte da rotina dos moradores.
“Assim que passaram a linha imaginária que dividia o que era da Bolívia e o que era do Brasil, eles pararam nas margens do Rio Acre e fundaram a cidade de Puerto Alonso, que hoje é a cidade de Porto Acre”, explica o historiador.
A situação, no entanto, gerou desconforto entre muitos brasileiros que já viviam nos seringais acreanos. Embora a região fosse oficialmente boliviana, a população local era majoritariamente formada por brasileiros, que não aceitavam facilmente a nova administração.
Primeira reação dos acreanos
O descontentamento cresceu rapidamente. Menos de cinco meses após a chegada das autoridades bolivianas, um grupo de brasileiros decidiu reagir.
Em 1º de maio de 1899 ocorreu a primeira insurreição acreana. Liderados por José Carvalho, os revoltosos exigiram a retirada das autoridades bolivianas da região.
“Foi o primeiro movimento da Guerra do Acre, ou da Revolução Acreana, como preferir”, afirma Marcos Vinícius.
Sem efetivo suficiente, poucas munições e escassos recursos para resistir, os bolivianos optaram por abandonar o território. A vitória dos revoltosos foi rápida, mas não resolveu definitivamente a questão do Acre.
Naquele momento, a disputa estava apenas começando.
Jornalista que descobriu um acordo secreto
Enquanto a tensão aumentava na Amazônia, um jornalista espanhol chamado Luiz Galvez ganhava notoriedade em Belém do Pará.
Segundo Marcos Vinícius, Galvez foi contratado para traduzir um documento sigiloso relacionado ao Acre. O texto tratava do arrendamento da região a uma companhia internacional formada por capitais ingleses e norte-americanos.
O acordo previa que a empresa administraria o Acre por 20 anos. Mais do que isso, segundo o historiador, havia a expectativa de apoio dos Estados Unidos à Bolívia caso o Brasil tentasse impedir a execução do contrato.
Galvez decidiu tornar o conteúdo público.
“O Galvez pegou esse documento secreto, que ele estava sendo pago para traduzir, e publicou no jornal. Isso foi um furo de reportagem, uma bomba”, conta Marcos Vinícius.
A repercussão foi imediata. O jornalista tornou-se uma figura conhecida e passou a ser visto por muitos acreanos como alguém capaz de fortalecer a luta contra a presença boliviana.
Ideia de criar um novo país
Após divulgar o documento, Galvez seguiu para Manaus e depois para o Acre. Próximo a Puerto Alonso, reuniu-se com importantes seringalistas da região para discutir os rumos do movimento acreano.
Foi durante essas conversas que surgiu uma proposta ousada: criar um país independente.
Segundo Marcos Vinícius, a avaliação dos líderes locais era que apenas uma medida radical conseguiria alterar a posição do governo brasileiro, que continuava reconhecendo a soberania boliviana sobre o território.
“A única maneira de forçar o governo brasileiro a mudar de posição seria confrontar a Bolívia de qualquer maneira. Então, a ideia foi criar um país, um novo país, uma nova república, o Estado Independente do Acre”, explica.
A estratégia tinha um objetivo claro: pressionar o Brasil a assumir uma posição favorável aos acreanos e impedir uma nova ocupação boliviana.
Nasce o Estado Independente do Acre
A proclamação ocorreu em 14 de julho de 1899. A escolha da data não foi por acaso. Naquele dia eram celebrados os 110 anos da Queda da Bastilha, marco da Revolução Francesa.
“E assim foi feito. No dia 14 de julho de 1899 foi fundado o Estado Independente do Acre”, relata o historiador.
Luiz Galvez foi aclamado presidente da nova república. Pela primeira vez, o Acre passava a existir não como parte do Brasil ou da Bolívia, mas como um país independente.
Presidente, ministérios e selo postal
Uma vez instalado no poder, Galvez iniciou rapidamente a organização administrativa do novo Estado.
Foram criados ministérios, escolas e uma estrutura de governo capaz de administrar o território. O novo país adotou a língua portuguesa, utilizou a moeda brasileira e aplicou as leis do Brasil enquanto desenvolvia suas próprias normas.
“Galvez foi rápido na organização do governo do Estado Independente do Acre. Criou vários ministérios, criou escolas, adotou a língua, a moeda e as leis do Brasil”, explica Marcos Vinícius.

O governo também buscou reconhecimento internacional. Para isso, mandou confeccionar selos postais próprios e iniciou contatos com outros países.
“Mandou fazer um selo para mandar correspondência para os países com o selo próprio do Acre, solicitando que os outros países reconhecessem a independência do Acre”, relata.
Durante alguns meses, o Acre funcionou efetivamente como uma pequena república amazônica.
Por que o Brasil não apoiava o Acre?
Apesar do entusiasmo dos líderes acreanos, o governo brasileiro não compartilhava da mesma visão.
Naquele momento, a posição oficial do Brasil era reconhecer os direitos da Bolívia sobre o território.
“O governo brasileiro tinha uma posição oficial que reconhecia o domínio da Bolívia”, explica o historiador.
Mesmo assim, o movimento acreano continuou recebendo apoio de seringalistas e de setores ligados ao governo do Amazonas. Havia também uma importante questão econômica envolvida.
O Rio Acre era uma das regiões mais produtivas da Amazônia durante o ciclo da borracha e movimentava grandes volumes de recursos.
“O Acre era um rio muito rico, que mandava muita borracha para fora e pagava muito imposto”, destaca Marcos Vinícius.
A crise que abalou a república acreana
Os desafios do Estado Independente não vieram apenas de fora.
Em determinado momento, Galvez decidiu bloquear a exportação da borracha acreana para pressionar o governo brasileiro a repassar recursos que considerava pertencentes ao Acre.
A decisão provocou reação entre alguns produtores locais, que dependiam diretamente do comércio da borracha.
Um dos seringalistas chegou a prender Galvez e assumir temporariamente o controle do governo no final de 1899.
A mudança, porém, durou pouco. Cerca de um mês depois, o próprio grupo que havia apoiado a deposição devolveu o poder ao líder espanhol, que reassumiu a presidência.
Fim do Estado Independente
A experiência republicana terminou no início de 1900.
Preocupado com a instabilidade na região, o governo brasileiro enviou embarcações da Marinha para o Acre. A intervenção resultou na prisão de Luiz Galvez e no fim do Estado Independente.
“Em 15 de março de 1900, com a deportação do Galvez, o governo brasileiro devolve o Acre para a Bolívia e oficialmente põe fim ao Estado Independente do Acre”, afirma Marcos Vinícius.
Galvez foi retirado do Acre, levado para Manaus, passou por Belém e acabou deportado para a Espanha.
Luta continuou até o Acre se tornar brasileiro
O desaparecimento da república acreana não encerrou a disputa pelo território.
Segundo Marcos Vinícius, os anos seguintes foram marcados por novos conflitos e negociações. Em 1900 ocorreu a chamada Expedição dos Poetas. Em 1901, o Congresso boliviano aprovou o acordo do Bolívia Syndicate, que previa o arrendamento do Acre a uma companhia estrangeira.
A medida aumentou ainda mais a tensão na região e preparou o terreno para a fase mais intensa do conflito.
“Depois veio o início da fase mais sangrenta e acirrada da Guerra do Acre, conhecida como Revolução Acreana, comandada por Plácido Castro em 1902 e 1903”, relata o historiador.
Após quatro anos de disputas, batalhas e negociações diplomáticas, a questão acreana foi resolvida com a assinatura do Tratado de Petrópolis, em 17 de novembro de 1903.
“Toda essa luta culminou com a assinatura do Tratado de Petrópolis. Depois de quatro anos de luta, entre 1899 e 1903, o Acre conquistou o direito de se tornar brasileiro”, resume Marcos Vinícius.

