Para Matheus Cunha, o surfe não representa apenas um hobby. É quando ele se desconecta da rotina de pressão do futebol de alto nível. Logo, faz todo o sentido levar este momento para dentro de campo justamente na catarse do gol. E eles estão saindo nesta Copa. Já foram três. Como um bom surfista, o camisa 9 está na crista da onda com a Amarelinha. E chega ao duelo de hoje, contra o Japão, às 14h (de Brasília), em Houston, pela segunda fase, como peça-chave para a seleção seguir viva no torneio.
Mas nem sempre a maré esteve a favor. Cunha nunca atuou como profissional no seu próprio país. Deixou o Brasil ainda aos 18 anos, depois de se destacar na Copa São Paulo de Juniores pelo Coritiba. Ao todo, já atuou em quatro ligas. Por isso, para ele, saber se adaptar é uma questão de sobrevivência, o que fica evidente no fato de falar francês, espanhol, inglês, alemão e italiano, além da língua materna.
Apesar das voltas, a brasilidade é de suas marcas registradas, principalmente suas raízes nordestinas. Nascido em João Pessoa, não perde o sotaque, escuta artistas da região (como o pernambucano João Gomes, de quem é fã), exalta o São João de Campina Grande (PB) e aproveita qualquer folga, por menor que seja, para visitar sua terra.
— Não consigo ficar sem ir para o Nordeste. Minha terra é aquilo ali. Aquele povo é o meu povo — contou, empolgado, em entrevista à CazéTV. — Sou muito Brasil, está enraizado. Quero fazer as coisas, ficar descalço, estar com os bêbados lá (risos).
Nas visitas ao Nordeste, o surfe surgiu em sua vida. Cunha aprendeu a pegar onda em Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, onde costuma aproveitar os dias de descanso. Foi lá que conheceu o surfista Ítalo Ferreira, filho ilustre da pequena cidade e medalha de ouro nos Jogos de Tóquio, assim como o atacante da seleção. A paixão pelo surfe é tão forte que Cunha a levou para a Inglaterra. Ele já foi flagrado nas ondas artificiais de um clube em Bristol e adotou a comemoração em cima de uma prancha imaginária como sua marca registrada também na Premier League, onde atua pelo Manchester United.
— É um jogador inteligente dentro e fora de campo, sem falar que é uma figura que está sempre feliz, agregador, sorridente. E dentre muitas virtudes, essa é uma das que fazem com que as coisas estejam fluindo e dando certo para ele — comentou o coordenador Rodrigo Caetano.
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Carreira deslancha fora do Brasil
Depois do início na base do Coritiba, viu o clube precisar negociá-lo cedo diante de dificuldades financeiras, por isso não ficou conhecido pelo público brasileiro. Na Europa, teve a carreira conduzida pelo empresário Giuliano Bertolucci e se desenvolveu. Primeiro, com bom trabalho no Sion, da Suíça; de lá foi para o Leipzig, da Alemanha; em seguida, para o Hertha; e depois para o Atlético de Madrid, da Espanha.
— Ele foi relativamente bem, mas o Atlético precisava fazer uma venda, e apareceu o Wolvehampton. Dali, a carreira deslanchou —lembra Bertolucci sobre a ida para os Wolves, onde Cunha ficou de 2023 a 2025.
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Antes, o jogador se decepcionou com a não convocação para a Copa do Mundo de 2022, sob o comando de Tite, quando foi preterido por Pedro, do Flamengo.
— O jogador que não sai de um grande time do Brasil é menos conhecido do público e um pouco mais cobrado. Na seleção, ele foi artilheiro no Pré-Olímpico, foi para a Olimpíada, esteve na última convocação antes da Copa de 2022, mas foi preterido — lamentou o agente.
Na ocasião, Cunha divulgou um vídeo emocionado e deu força aos jogadores que foram convocados.
Se no surfe, o equilíbrio é a base de tudo, no futebol, ainda que não no sentido literal, também. Na seleção, Matheus lidera uma briga por posição no ataque com um espírito de coletividade com Igor Thiago, Endrick e até Neymar. E o encaixe do setor ofensivo do time passa muito por Cunha. É ele quem sustenta o esquema encontrado por Carlo Ancelotti e que permitiu ao técnico encerrar a fase de grupos passando a impressão de estar no caminho certo.
Versatilidade como ponto forte
Cunha joga como um falso 9, atrás da dupla de ataque, com liberdade para flutuar. Principalmente para a direita, onde reveza com Rayan e ocupa o corredor quando o ex-Vasco ataca mais centralizado. Seu posicionamento mais recuado também lhe permite fazer a ligação entre os meias e os atacantes. E, claro, aparece na área. Por sua dinâmica com os companheiros, surge como um elemento surpresa.
— A posição do Cunha no último jogo nos deu vantagem. Não é bem definida no campo. É importante mudar, ter mobilidade, para mudar a referência do rival — comentou Ancelotti.
O camisa 9 cresceu na seleção num momento curioso. Após a má atuação do time na estreia, Ancelotti precisou fazer ajustes. Um deles foi a entrada de Cunha, que havia sido reserva de Igor Thiago, exercendo uma função entre a de um camisa 10 e a de um 9. Essa posição, num primeiro momento, pareceu lapidada para Neymar, naquela época em recuperação.
Só que os dois gols sobre o Haiti e a atuação contra a Escócia (com direito a mais uma bola na rede), mostraram que o dono da vaga era mesmo Cunha. Contra o Haiti, o camisa 9 foi o segundo do time que mais se ofereceu para receber a bola e o jogador de ataque que mais deu passes e mais tentou quebrar as linhas de marcação do rival.
Já diante da Escócia, Cunha foi o jogador da seleção que mais pressionou o adversário quando estava prestes a receber a bola, atrapalhando seu domínio e passe; e novamente foi o atacante brasileiro que mais tentou quebrar as linhas.
A versatilidade também se reflete nos hobbies. Em casa, coleciona tênis e camisas de futebol trocadas com jogadores após os jogos. E, na seleção, já foi flagrado por Neymar jogando xadrez no celular. No tradicional jogo de tabuleiro, Cunha seria o equivalente à Rainha, peça que goza de maior liberdade — pode se movimentar para qualquer direção — e detém maior importância estratégica. O xeque-mate nos japoneses passa por ele.
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