Em estudos do Projeto LEGAL – Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal da Universidade Federal do Acre (UFAC), mostra avanço econômico das cooperativas agroextrativistas, mas também maior dependência de recursos externos para sustentar produção e conservação ambiental.
As cooperativas agroextrativistas do Alto Acre estão mostrando que existe um caminho possível entre floresta preservada e geração de renda. Os números dos últimos cinco anos revelam crescimento das operações, ampliação da produção e fortalecimento da organização econômica das famílias extrativistas. Mas os mesmos dados trazem um alerta importante: conservar e produzir na Amazônia continua exigindo apoio permanente do poder público.
O levantamento realizado com três cooperativas da Reserva Extrativista Chico Mendes — Cooperativa Agroextrativista de Assis Brasil, Epitaciolândia e Brasileia (COOPAEB), a Cooperativa de trabalhadores Agroextrativista Santa Fé (COPASFE) e a Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (COOPERXAPURI) — ajuda a entender uma transformação silenciosa que vem ocorrendo no interior do Acre. Não se trata apenas de vender castanha, borracha, frutas ou café. O que está em curso é um modelo que combina organização coletiva, agregação de valor, industrialização e manutenção da floresta em pé.
Juntas, essas cooperativas reúnem mais de mil cooperados e operam conectadas à estrutura da Cooperacre, que passou a exercer papel central no beneficiamento, logística e acesso aos mercados. Ao mesmo tempo, todas compartilham desafios semelhantes: longas distâncias em ramais intrafegáveis, dificuldade de armazenamento, assistência técnica limitada e forte dependência de apoio institucional.
Outro ator fundamental nessa trajetória tem sido o Sistema OCB/SESCOOP Acre. Ao longo dos últimos anos, a entidade vem desempenhando papel estratégico na capacitação de dirigentes, conselheiros e cooperados, no fortalecimento da governança, na assistência técnica gerencial e na difusão dos princípios do cooperativismo. Parte importante da profissionalização observada nas cooperativas agroextrativistas acreanas resulta desse trabalho contínuo de formação e acompanhamento institucional. Em conjunto com parceiros como Sebrae, Embrapa UFAC, governos e organizações de cooperação internacional, a OCB/SESCOOP Acre ajudou a criar as condições necessárias para que o cooperativismo deixasse de ser apenas uma alternativa de organização social e se consolidasse como instrumento de desenvolvimento econômico e inclusão produtiva na floresta.
Os números mostram uma expansão expressiva, conforme demostrado didaticamente no quadro a seguir. Entre 2021 e 2025, o patrimônio e a capacidade operacional das cooperativas cresceram de forma acelerada, acompanhados pelo aumento do capital de giro e pela manutenção de resultados positivos ao longo de todo o período. Mesmo reinvestindo integralmente as sobras, as cooperativas continuaram ampliando suas atividades.

Mas há um dado que merece atenção especial.
Ao mesmo tempo em que cresceram, as cooperativas passaram a utilizar mais recursos de terceiros e assumiram mais compromissos financeiros no curto prazo. Em uma leitura superficial, isso poderia ser interpretado como fragilidade. Mas essa conclusão seria simplista.
Produzir dentro de uma reserva extrativista não funciona com a mesma lógica da agricultura em larga escala. As distâncias são maiores, os custos logísticos são elevados, a escala de produção é menor e parte importante do trabalho realizado pelas famílias produz benefícios que não aparecem diretamente no preço do produto vendido.
Quando uma família extrativista conserva floresta, evita desmatamento, mantém biodiversidade e protege recursos naturais, ela gera valor que vai muito além da castanha ou da borracha comercializada.
Por isso, mecanismos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) ganham importância estratégica.
A lógica do PSA é relativamente simples: quem conserva e produz benefícios ambientais para toda a sociedade também deve receber por isso. Não se trata de caridade nem de política experimental. Países desenvolvidos utilizam há décadas diferentes formas de subsídios e incentivos para fortalecer pequenos produtores rurais, garantir ocupação do território, ampliar segurança alimentar e estimular práticas ambientalmente sustentáveis.
Na Europa, na América do Norte e em vários países asiáticos, políticas públicas voltadas ao pequeno produtor são parte permanente da estratégia de desenvolvimento. O apoio estatal ajuda a reduzir riscos, estabilizar renda e manter atividades consideradas socialmente desejáveis.
Na Amazônia, onde produzir significa também conservar, esse debate ganha ainda mais relevância.
Experiências como as desenvolvidas pelas cooperativas da Reserva Extrativista Chico Mendes dificilmente alcançarão todo seu potencial apenas com a força do mercado. Crédito adequado, assistência técnica, infraestrutura, compras públicas, industrialização regional e ampliação dos pagamentos por serviços ambientais tendem a ser instrumentos decisivos para consolidar esse modelo.
O desafio, portanto, não é reduzir apoio público. É melhorar sua qualidade e sua continuidade.
Os dados mostram que o chamado novo cooperativismo agroextrativista já deixou de ser apenas uma experiência social. Ele se tornou uma estratégia econômica concreta para gerar renda, manter famílias no território e preservar a floresta. O próximo passo talvez seja reconhecer que conservar também exige investimento — e que apoiar quem produz dentro da floresta pode custar menos do que reconstruir aquilo que foi perdido fora dela.

