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Dinheiro que vai para a Bet não vai para o supermercado, diz gestor

Por Redação Juruá em Tempo.15 de junho de 20263 Minutos de Leitura
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O avanço das apostas esportivas digitais — as chamadas “bets” — está corroendo a renda disponível das famílias brasileiras e impactando diretamente o varejo alimentar. A avaliação é de Eduardo Alhadeff, sócio e gestor da estratégia de crédito da Ibiuna Investimentos, e ajuda a explicar por que duas grandes redes de supermercados buscaram recuperação extrajudicial nos últimos doze meses.

“O que está afetando a renda disponível das famílias não é só a despesa de juros, não é só o serviço da dívida, mas as bets”, afirma Alhadeff. A lógica é direta: dinheiro que vai para a bet não vai para o supermercado.

O diagnóstico foi dado no programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, em conversa que percorreu o cenário macroeconômico brasileiro. Alhadeff, que passou sete anos em Londres gerindo carteiras de crédito para mercados emergentes no JPMorgan antes de montar a área de crédito da Ibiuna, cita pesquisas do cientista político Felipe Nunes — autor do livro Brasil no Espelho — para sustentar o argumento.

Segundo ele, uma parcela da população de menor renda e escolaridade passou a encarar as plataformas de apostas não como entretenimento, mas como forma de investimento. “A bet hoje é quase como a cachaça de antigamente”, resume — “sempre é o marido que aposta, escondido da esposa, e depois precisa explicar por que o dinheiro sumiu”.

O fenômeno se soma a um quadro já delicado: cerca de 30% da renda mensal das famílias brasileiras é consumida pelo serviço de dívidas. A combinação de endividamento elevado e dinheiro desviado para apostas se traduz em queda de vendas no varejo de supermercados — e os números são concretos.

O Grupo St Marche, dono das redes St Marche e Empório Santa Maria, buscou recuperação extrajudicial com R$ 528 milhões em dívidas. O Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) tem R$ 4,5 bilhões a renegociar. Rumores apontam para uma terceira rede no mesmo caminho.

Juros e commodities têm culpa, mas não são os únicos vilões

O Brasil também enfrenta, em paralelo, um ciclo de recuperações judiciais no mundo corporativo. Mas Alhadeff faz uma distinção importante: para as grandes empresas, o principal fator não foram os juros altos — como se costuma afirmar —, mas anos seguidos de preços deprimidos de commodities. “Para mim, Raízen e Braskem, o principal motivo foi esse, não foi juro”, exemplifica.

Empresas como Braskem (BRKM5) são tomadoras de preço — sua receita depende diretamente do valor de mercado da commodity que produzem, sem qualquer controle sobre ele. Quando esse preço fica reprimido por três anos consecutivos, e a companhia já carrega dívidas elevadas — mais o passivo das minas de sal-gema em Alagoas —, o resultado se torna previsível.

Apesar dos riscos internos, o Brasil ainda está no radar do capital estrangeiro especializado em crédito. Mas o mercado financeiro, avalia Alhadeff, ainda não dimensionou por completo o peso das bets sobre a economia real — um fator novo, silencioso e que já chegou às gôndolas dos supermercados.

Por: InfoMoney.
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