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El Niño deve ‘queimar’ reserva de hidrelétricas e encarecer tarifas de energia em 2027

Por Redação Juruá em Tempo.15 de junho de 20266 Minutos de Leitura
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A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou na última quinta-feira, dia 11, o início oficial do El Niño, com 63% de probabilidade de atingir a categoria “muito forte” entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Se a projeção se concretizar, o fenômeno pode entrar para o grupo dos mais intensos desde 1950, ao lado dos ciclos de 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Para o setor elétrico brasileiro, porém, o risco mais grave não é imediato. E é justamente essa margem que preocupa especialistas.

O Brasil inicia este ciclo em uma condição relativamente confortável, com os reservatórios das hidrelétricas do Nordeste registrando entre 95% e 100% de capacidade nos últimos meses, após dois anos de chuvas favoráveis.

No Sudeste e no Centro-Oeste, onde concentra-se cerca de 70% do volume de armazenamento hídrico do país, os níveis também se mantêm estáveis. Esse colchão, porém, pode criar uma percepção equivocada de segurança.

— Esse cenário não vai ter um efeito tão catastrófico em 2026. O grande problema fica para 2027. No entanto, (o El Niño) deve queimar toda a reserva construída nesses últimos dois anos — afirma Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da consultoria especializada Nottus.

Sob o aspecto climático, a questão é a sazonalidade hídrica. O período úmido do subsistema Sudeste/Centro-Oeste vai de setembro a março, justamente quando o El Niño estará no pico.

O Climatempo aponta que, nesse intervalo, há alto potencial de irregularidade de precipitação e volumes abaixo da média no Brasil, além da redução na formação do principal sistema responsável pelas chuvas volumosas e persistentes do verão.

— Se o primeiro trimestre for crítico, os reservatórios não encherão e teremos problemas de geração hidrelétrica no período seco de 2027. Não vejo perigo de apagão, como em 2021, pois contamos com matrizes mais diversificadas. Hoje, além das termelétricas, temos agora energia eólica e solar. E essas fontes podem suprir a demanda por um período crítico — avalia Nivalde de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ.

A conta chega em 2027

A possibilidade de impacto sobre as tarifas se dá em caso de acionamento em escala das termelétricas. Isso é necessário sempre que os reservatórios despencam a níveis críticos. São equipamentos mais caros de operar que as hidrelétricas, e sua entrada progressiva ativa o sistema de bandeiras tarifárias — de verde a amarela, a vermelha 1 e a vermelha 2 —, com o custo repassado ao consumidor.

— O preço da energia vai subir. Quando os reservatórios estão com níveis baixos, temos que acionar as termelétricas. Como custam mais caro, as bandeiras tarifárias são ajustadas. Mas o que me preocupa mesmo é o impacto inflacionário — diz Castro.

Anomalia de Temperatura: mais calor do que o normal na maior parte do país — Foto: Reprodução/Nottus
Anomalia de Temperatura: mais calor do que o normal na maior parte do país — Foto: Reprodução/Nottus

Em um primeiro momento, o cenário contrasta com o que o sistema vive hoje. Em fins de semana e feriados, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem determinado cortes de geração (o chamado curtailment) por excesso de oferta de energia solar e eólica em momentos de baixa demanda. Neste mês, a entidade acionou pela primeira vez um plano emergencial de gestão de excedentes, retirando cerca de mil megawatts (MW) de usinas conectadas à rede de distribuição.

Porém, quando projetamos esse cenário para o El Niño, as renováveis não poderão resolver o problema. Castro explica que estas são fontes intermitentes, e o planejamento do ONS só contabiliza matrizes estáveis e constantes. Ou seja, se faltar água para as hidrelétricas e houver pico de demanda, a resposta inevitável são as termelétricas. Elas são consideradas opções seguras e que podem ser acionadas a qualquer momento do dia, diferentemente das usinas solar e eólica.

— Não se consegue armazenar ainda a energia que sobra. Quando chove, armazena-se na hidrelétrica. Quando não chove, é preciso usar aquela água. O paradoxo ocorre todo santo dia: muito sol, sem demanda, o ONS tem que cortar — resume Castro.

Em nota, o ONS informou que mantém contínuo monitoramento das condições hidrometeorológicas por meio de centros de pesquisa, elaborando estudos prospectivos para embasar medidas adicionais.

“As avaliações atuais indicam que o fenômeno tende a ocorrer no segundo semestre de 2026. Contudo, sua intensidade e seus impactos efetivos sobre os empreendimentos mais relevantes para o sistema permanecem indefinidos, tanto do ponto de vista climático quanto operacional”, ressaltou o órgão.

O paralelo com 2023 e 2024

O último ciclo do El Niño foi classificado como moderado, bem abaixo do que as projeções sugerem para 2026-2027. Ainda assim, seus efeitos foram devastadores para o Sul, com as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024. A meteorologista Carine Malagolini Gama, do Climatempo, aponta que o planeta mais aquecido foi o fator amplificador. E que o mesmo mecanismo se aplicará ao evento atual.

— Este evento pode ser mais similar em intensidade ao de 2015/2016, e parcialmente comparável ao de 2023/2024 por conta das mudanças climáticas. Com o globo mais aquecido, as temperaturas ficarão acima da média em praticamente todo o Brasil. E as ondas de calor serão mais frequentes — diz a meteorologista.

Em anos de El Niño, em média, chove mais no Sul e menos no Nordeste e parte do Norte. Sudeste, Centro-Oeste e oeste da Amazônia, têm chuvas irregulares e mais calor do que o normal, com risco de ondas de calor — Foto: Reprodução/Nottus
Em anos de El Niño, em média, chove mais no Sul e menos no Nordeste e parte do Norte. Sudeste, Centro-Oeste e oeste da Amazônia, têm chuvas irregulares e mais calor do que o normal, com risco de ondas de calor — Foto: Reprodução/Nottus

Nascimento, da Nottus, alerta que o impacto geográfico das tempestades pode ser mais amplo que o do ciclo anterior.

— Pode cobrir uma área maior do que foi no passado. Não só o Rio Grande do Sul, agora pode ser Santa Catarina e Paraná também — avalia.

Em paralelo, o fenômeno impõe riscos estruturais à infraestrutura elétrica em duas janelas distintas. No Sudeste e no Centro-Oeste, a combinação de calor e alta umidade cria um ambiente favorável a tempestades com granizo, vendaval e descargas atmosféricas, padrão semelhante ao que causou quedas massivas na rede de distribuição em São Paulo nos últimos anos.

A Enel, por exemplo, informou ao GLOBO que aprimorou ferramentas de monitoramento meteorológico e já adota protocolos preventivos para fortalecer a capacidade de resposta a eventos climáticos extremos e antecipar a mobilização de equipes em campo no período do El Niño.

Na segunda janela, no início de 2027, o cenário climático molda uma ameaça silenciosa de queimadas que pode afetar grandes linhas de transmissão do Sistema Interligado Nacional (SIN) que cortam o país. Segundo os especialistas, precipitações recentes e volumosas mantiveram a vegetação densa e verde, fator que ainda contém a rápida propagação de chamas no curto prazo.

Contudo, a persistência de anomalias térmicas e a estiagem ao longo dos próximos meses devem secar progressivamente a flora, criando condições favoráveis para incêndios.

— Há um aumento do risco de fogo sob as linhas de transmissão, especialmente entre a primavera e o verão, o que pode provocar danos estruturais e interrupções. Com essa correlação direta de elevação de temperatura e secas mais prolongadas, há um potencial maior na probabilidade de desligamentos — adverte Carine Gama.

Por: O Globo.
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