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Isabel Teixeira fala sobre passagem do tempo: ‘A partir de uma certa idade, nos tornamos sábias’

Por Redação Juruá em Tempo.15 de junho de 20267 Minutos de Leitura
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Isabel Teixeira não tem medo do fundo. Ao contrário: a atriz, que interpreta Pilar Brandão, a vilã de “Quem ama cuida”, fura ondas em alto-mar com fôlego de surfista em busca de recorde. Vai com coragem, encara o medo. Em entrevista presencial de quase três horas em um café no Leblon, acompanhada pelos ouvidos atentos e olhos expressivos da filha Flora, de 15 anos, a atriz paulistana, que também é mãe de Diego, de 22 (ambos do casamento com o fotógrafo Roberto Setton), analisa e contextualiza os próprios passos, como quem ouve uma sinfonia.

Na novela das nove, de autoria de Walcyr Carrasco e Claudia Souto e direção artística de Amora Mautner, ela dá vida a uma megera com camadas de narcisismo, crueldade e humor ácido. “É a minha terceira vilã. Fiz uma na novela das seis (“Elas por elas”), outra na das sete (“Volta por cima”) e agora essa. Estou servindo à teledramaturgia, gênero com forte tradição. Há quem diga que sou teatral demais. Será? Estou com foco no meu sentimento”, explica. Essa mesma intensidade é revelada ao descrever a emoção que sentiu ao exercer a função, por 15 dias, de cortineira (profissional responsável pela cortina do espetáculo). Isso aconteceu no ano passado durante a temporada de “Elã”, da Companhia Mugunzá, dirigido por ela. “É o ‘fazer com’ que me interessa”, ressalta, durante vários momentos da conversa.

A atriz Isabel Teireira ua conjunto Neriage e sapatos Corello — Foto: Marcus Sabah
A atriz Isabel Teireira ua conjunto Neriage e sapatos Corello — Foto: Marcus Sabah

Filha do cantor e compositor Renato Teixeira e da atriz Alexandra Corrêa (1949-2006), a paulistana de 52 anos começou “a fazer com” no teatro, aos 11 anos, ao lado da mãe. Formou-se na Escola de Arte Dramática (EAD) e construiu uma carreira brilhante até ser “descoberta” pelo grande público no remake de “Pantanal” (2022), na pele da icônica Maria Bruaca. Dois anos antes, a artista descobriu ser portadora da Síndrome de Li-Fraumeni, alteração no gene TP53 que predispõe o desenvolvimento de vários tipos de câncer. Ela se confrontou com essa condição genética hereditária por causa da morte da mãe. A partir da tomada de consciência, começou a virar a chave: passou por dupla mastectomia, parou de fumar, de beber e se exercita seis vezes por semana. “Sou do signo de escorpião, sempre fui pulsão de vida e morte.”

Na entrevista, Isabel fala sobre “Quem ama cuida”, devoção ao ator Tony Ramos, menopausa, maternidade, solteirice e “troca de pele” em diversas etapas da existência.

A seguir, os melhores trechos.

Você sonhou interpretar uma vilã clássica da faixa das nove, como a Pilar Brandão?

Eu nunca desejo muito os personagens. Eles vêm, eu faço. A Pilar tem a ver com o meu reencontro com a Amora, que já tinha conhecido nos anos 1990, no Rio. A primeira vez que a revi, ainda na época de “Pantanal”, ela me disse: “Quero muito trabalhar com você”. Fizemos, então, “Elas por elas”, novela que mudamos a rota no meio da decolagem. Foi incrível vivenciarmos o processo. Depois, ela fez questão de que eu fosse uma vilã da novela das nove na trama do Walcyr. Amo ser dirigida e dançar a dança que ela propõe num set de TV.

Qual é o sentimento de contracenar com o Tony Ramos pela primeira vez?

Gostaria de coletar todas as vezes na minha vida em que falei sobre o Tony. Nossa tradição cultural arraigada não é o teatro e, sim, a novela. Para mim, ele é um “Sir”. Permanece no mesmo propósito sem perder a elasticidade da musculatura da emoção. Fora isso, também é conhecido pela ética exemplar, no set, com a equipe e o público. Agradeço todos os dias por trabalhar ao seu lado.

Na trama, a Pilar vai ter um romance com um homem mais jovem, o segurança interpretado pelo José Loreto. Já viveu algo semelhante? Sentiu-se julgada?

Sim. Meu segundo marido (o artista visual Paulo Camacho), com quem fui casada por dez anos, era seis anos mais novo. Eu sentia um olhar por ele parecer bem mais jovem visualmente. Mas isso não é uma questão para mim, não estou olhando a idade de ninguém. Meu foco de vida não é falar das mazelas da menopausa, apesar de respeitar esse processo e estar rodeada por mulheres de vanguarda que levantam esse tema. Pode ser que sofra muito ao entrar nessa fase, mas ainda não entrei. Pretendo viver o sofrimento, que é uma passagem. Acredito na troca de casca da cobra. Na hora em que ela vai mudar de pele, precisa passar por um chão cheio de atrito. A gente tem de morrer para renascer. Às vezes, é justamente a maior dificuldade que leva ao crescimento.

Aplicou esse raciocínio ao descobrir ser portadora da Síndrome de Li-Fraumeni?

A atriz Isabel Teixeira — Foto: MARCUS SABAH
A atriz Isabel Teixeira — Foto: MARCUS SABAH

Sou uma pessoa analisada. Tenho algumas ferramentas. Umas nasceram comigo, outras, desenvolvi. Tem ainda aquelas que foram presenteadas por amigos por meio de uma palavra, por exemplo. Entendi que precisaria seguir um protocolo para poder viver mais. Ao segui-lo, fui me sentindo melhor. Amava fumar, adoro vinho. Amo o ébrio da vida. Fiz parte dessa febre dionisíaca na juventude. Mas também posso alcançar esse estado de outras maneiras. Outro dia, fui a uma festa junina, e eu bebo água. Chegou uma hora, na quadrilha, que senti aquela lisergia. Estou mais ébria do que quando bebia (risos).

Como lida com a passagem do tempo?

Era muito angustiada aos 20 anos, existencialista, quase Sartreana (risos). Tudo era uma grande questão, agora são menos, estou mais leve. Passei a sentir a potência da velhice. Inclusive, sugiro que se mude o nome menopausa. Pausa de quê? É movimento, outro movimento. A partir de uma certa idade, nos tornamos feiticeiras, sábias. São várias revoluções acontecendo ao mesmo tempo, a de gênero, importantíssima, a de nos reconhecermos como um país preto e a das mulheres. São muitas pautas, nem todas eu domino, mas me sinto colaboradora.

Em entrevista ao podcast de Rita Lobo, você fez uma analogia entre tomar sol por meio de uma fresta e de uma janela. Pode explicar?

Tomei muito sol por meio da fresta, que é quando a vida não te dá muito do que é considerado muito. Não foi fácil ser filha de pais separados na década de 1970. Profissionalmente, vivi um período longo sem reconhecimento. Na hora de preencher a ficha do plano de saúde, costumava colocar “atriz de teatro” para não ter de passar por situações. Até chegar à janela, que é o tal “chegou lá”. Mas cheguei lá por quê? Por estar na Globo? Eu me sinto ainda tomando sol por meio da fresta que é acordar cedo e ser trabalhadora. Não acredito no olimpo.

E o etarismo?

Nós, mulheres, ainda sofremos com isso, mas acredito nas revoluções que citei, que abrem o olhar. Estou aberta, fluida, sinapses estão acontecendo. Não tenho mais medo de ser excluída profissionalmente. Gosto de trabalhar. No começo de 2019, quando voltei para São Paulo de uma temporada em Paris, todas as instituições em que dava aula interromperam as atividades. Como pagaria o aluguel? Cogitei trabalhar numa lanchonete em Santa Cecília chamada Flor do Morpara. Isso exemplifica bem a minha pulsão: se me fecharem as portas, tem a minha interna que está sempre aberta.

Como é a sua relação com os filhos?

Meu filho estava há quatro anos estudando Comunicação nos Estados Unidos. Minha filha mora comigo, quer ser atriz. Estão construindo os tapetes voadores com as próprias linhas. Tem muita troca, eles também me veem. Adoro a música do Chico, “O meu guri”, que tem esse lugar iluminado da mãe. Mas não vejo como um amor incondicional. Tudo é construção.

E com seu pai?

Maravilhosa. A gente só não está se falando todos os dias porque estou gravando muito.

O senado aprovou um projeto que dificulta o acesso de crianças e adolescentes ao aborto legal. Qual é a sua opinião?

Sou a favor da legalização do aborto, para minimizar os danos de tanta coisa errada. Estamos do lado do horror, e não é só isso. As notícias dos feminicídios são diárias.

Está namorando?

A que horas? Estou namorando o meu trabalho. Outro dia, fiz uma brincadeira dizendo que sempre fui bígama por estar casada com meus companheiros de vida e com o trabalho. Agora estou um pouquinho monogâmica. E tem sido muito legal.

Beleza: Romulo Flores. Produção de moda: Karen Serra.

Por: O Globo.
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