Israel e o Hezbollah concordaram com um cessar-fogo que entrou em vigor às 16h no horário local desta sexta-feira (10h em Brasília), segundo autoridades israelenses e fontes do grupo ouvidas pela agência Reuters. A trégua ocorre horas após uma escalada de combates no sul do Líbano ter deixado ao menos 47 libaneses mortos e 97 feridos, além de quatro militares israelenses mortos, levando ao adiamento de de conversas entre Estados Unidos e Irã previstas para esta sexta-feira na Suíça. Apesar do acordo, o Exército israelense afirmou que manterá suas operações no país vizinho “até receber ordem em contrário”, acrescentando que realizou mais de 150 ataques no país desde a meia-noite.
— Nosso objetivo e nossa missão são muito claros — disse à imprensa o porta-voz das Forças Armadas israelenses, Effie Defrin. — Qualquer questão relacionada a acordos é uma decisão do governo. Enquanto não recebermos ordens diferentes, vamos agir de acordo com as determinações do chefe do Estado-Maior do Exército.
A trégua foi anunciada depois de negociações conduzidas por Estados Unidos e Catar com ajuda do Irã, disse uma fonte americana à Reuters. Até o momento, Israel e Hezbollah não haviam divulgado declarações oficiais confirmando os termos da trégua, embora membros do grupo xiita tenham dito à agência que a organização começou a respeitar a trégua imediatamente após receber a confirmação de que ela havia entrado em vigor.
— Entendemos que, após a troca de tiros ocorrida mais cedo hoje, Israel e Hezbollah estão agora em um cessar-fogo — disse a autoridade americana.
Cessar-fogos anteriores entre os dois lados, firmados em diferentes momentos durante a guerra, não foram mantidos. O novo acordo ocorre em meio a uma tentativa mais ampla de interromper as hostilidades na região, após um entendimento provisório entre Estados Unidos e Irã que previa o fim dos combates “em todas as frentes”, incluindo o Líbano.
Antes do anúncio da trégua, Israel havia realizado ataques contra áreas do sul e do leste do Líbano durante a madrugada. O Exército israelense afirmou ter atingido locais de infraestrutura do Hezbollah e matado “dezenas de terroristas” do grupo. Autoridades libanesas, porém, informaram que mulheres e crianças estavam entre os mortos.
O Exército israelense afirmou que quatro soldados, incluindo um tenente-coronel, morreram após um ataque contra um tanque em uma aldeia próxima à cidade de Nabatieh, no sul do Líbano. Segundo as forças israelenses, um ataque com drone explosivo também deixou outros cinco militares feridos.
Trocas de acusação
Após o ataque, Israel lançou novos bombardeios contra áreas de Nabatieh e outras regiões, acusando o Hezbollah de cometer “violações flagrantes do cessar-fogo”. Mais tarde, o Exército informou ter atingido alvos no Vale do Bekaa, no leste do Líbano. A imprensa libanesa relatou que a aldeia de Douris foi atingida.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que Israel não aceitaria ataques contra seus soldados ou território, escrevendo, em comunicado: “Israel não tolerará ataques contra nossos soldados ou contra nosso território e cobrará um preço muito alto do Hezbollah por esses ataques”.
O Hezbollah afirmou ter atacado tanques israelenses em resposta ao que classificou como violações do cessar-fogo por Israel. O grupo disse que as ações ocorreram depois que forças israelenses tentaram avançar para o lado norte do monte Ali al-Taher, uma posição estratégica com vista para Nabatieh e que Israel tenta capturar. No sul do Líbano, moradores deixaram suas aldeias em meio aos combates.
— A situação está sem lei, não podíamos ficar — afirmou Mustafa Zain, que fugiu em uma caminhonete acompanhado das seis filhas.
A presença militar israelense em áreas do sul do Líbano também permanece como um dos principais pontos de divergência. O Irã exige a retirada das forças israelenses, enquanto Netanyahu afirmou que tropas permanecerão em uma “zona de segurança” enquanto “as necessidades de segurança de Israel exigirem”.
‘Responsabilidade direta’
O conflito entre Israel e o Hezbollah é considerado uma das partes mais delicadas do acordo envolvendo o Irã. Nem Israel nem o grupo libanês assinaram o entendimento, mas o acordo prevê o fim dos combates entre ambos.
O Irã afirmou que um cessar-fogo no Líbano é necessário para a continuidade das negociações. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei, condenou os ataques israelenses contra o Líbano e disse que os Estados Unidos tinham “responsabilidade direta” pela situação.
Segundo Baghaei, a interrupção da guerra no Líbano era uma parte integrante do acordo para encerrar as hostilidades em todas as frentes. O porta-voz afirmou ainda que o Irã tomaria todas as medidas necessárias para proteger seus interesses, sua segurança e seus aliados.
As conversas entre Estados Unidos e Irã, previstas para ocorrer na Suíça, foram adiadas após os combates no Líbano, segundo autoridades. Representantes iranianos não viajaram como planejado, insistindo que os ataques no país precisavam cessar antes do início das negociações. O vice-presidente americano, JD Vance, também adiou sua viagem.
O entendimento provisório entre Washington e Teerã havia interrompido hostilidades no Irã e no Golfo e permitido a reabertura do Estreito de Ormuz, depois que ataques e ameaças iranianas haviam afetado o fluxo de petróleo e gás pela passagem marítima.
As futuras negociações devem abordar um acordo permanente para o conflito e restrições ao programa nuclear iraniano, tema central da guerra iniciada em 28 de fevereiro entre Israel e os Estados Unidos contra o Irã, segundo o material. O acordo provisório estabelece um prazo de 60 dias para que negociadores busquem um novo entendimento, com possibilidade de extensão.

