Em meio a uma onda de protestos que já dura mais de um mês e impôs bloqueios de estradas que provocam desabastecimento em algumas das principais cidades da Bolívia, os ministros da Defesa, Mauricio Salinas, e da Educação, Beatriz García, renunciaram nesta terça-feira, aumentando a pressão sobre o Gabinete do presidente Rodrigo Paz, que assumiu o cargo há menos de sete meses e é o principal alvo dos manifestantes, que exigem sua renúncia.
Classes populares, incluindo organizações de trabalhadores, camponeses, mineradores e professores exigem medidas contra a pior crise econômica do país em quatro décadas, culpando o governo Paz de não oferecer soluções imediatas para problemas cotidianos, como os baixos salários. Também pesou contra o governo uma crise envolvendo a distribuição de combustível adulterado, que danificou milhares de veículos — que Paz prometeu indenizar, mas muitos afirmam não ter sido procurados. A política liberal do presidente — o primeiro de direita após 15 anos de governos socialistas — também é alvo de críticas.
Autoridades da Administração Boliviana de Estradas (ABC, na sigla em espanhol) citadas pelo jornal El Día afirmaram que nesta quarta-feira havia 85 pontos de bloqueio em vias pelo país, incluindo 28 em Cochabamba e 19 em La Paz. Cidades importantes, como Potosí e Oruro também são afetadas, em menor intensidade. A polícia foi mobilizada nesta quarta-feira para retirar manifestantes que tomaram uma instalação petrolífera da estatal YPFB, no departamento de Santa Cruz.
A saída de Salinas da Defesa acontece em meio a críticas sobre a incapacidade do governo de garantir a normalidade. O governo Paz alternou entre tentativas de diálogo — rejeitadas pelos manifestantes — e uso de força policial. O governo ainda não descartou declarar estado de exceção para usar militares no controle das manifestações. A imprensa local aponta que o novo titular da pasta será Ernesto Justiniano, que ganhou o apelido de “czar antidrogas” entre 2002 e 2003.
Alguns casos destacados pela mídia boliviana começam a pressionar o governo e os manifestantes pela disrupção social. O jornal La Razón noticiou nesta quarta-feira que uma menina de 12 anos que passava por um tratamento contra o câncer morreu ao não conseguir se deslocar para La Paz, onde recebia cuidados regulares, incluindo quimioterapia. Salinas foi criticado por não garantir corredores humanitários em meio aos protestos.
A Plaza Murillo, coração de La Paz, está guardada por policiais há semanas. O Mercado Camacho, um tradicional ponto turístico, está quase vazio. Escolas e universidades suspenderam seus itinerários presenciais e passaram a oferecer apenas aulas on-line. A insatisfação popular é alta entre quem é a favor dos protestos ou de uma repressão mais firme pelo governo.
— Nunca antes vivenciamos um mês de cerco e sequestros — disse o direitista Jorge Tuto Quiroga, derrotado por Paz nas eleições, em uma coletiva de imprensa recente. — A polícia, as forças de segurança e as Forças Armadas deveriam garantir os direitos constitucionais de todos os bolivianos, não apenas guardar dois quarteirões da Plaza Murillo.
Governo pressionado
Paz avalia estratégias para lidar com a crise. O Congresso boliviano revogou, na semana passada, uma norma que limitava o decreto de estados de exceção pelo presidente, o que permitiria a mobilização de militares nas ruas e a restrição à liberdade de reunião. Até o momento, ele se mantém reticente sobre o uso da força.
O presidente e seus aliados acusam o ex-presidente Evo Morales de incentivar as manifestações e diz que o país está diante de uma tentativa de “alterar a ordem democrática”. Em entrevista à Bloomberg no mês passado, Paz disse que há “muitos interesses internos e externos” para fazer a democracia boliviana fracassar.
O chanceler boliviano, Fernando Aramayo, denunciou na terça-feira a presença de “atores estrangeiros” em reuniões de setores mobilizados como uma prova de que está em curso um “processo de desestabilização” democrática. Meios de comunicação mencionaram a presença de representantes de movimentos políticos de esquerda da Argentina nos bloqueios.
As tentativas de dirimir as pressões não conseguiram o efeito desejado até o momento. Na terça-feira, a terceira maior força no Congresso boliviano apresentou uma proposta para convocar um referendo revogatório, que permitiria que os cidadãos destituíssem Paz por meio de votação após a conclusão de metade do mandato.
O vice-presidente Edmand Lara rejeitou a proposição em um comunicado divulgado ainda na terça, classificando-a como “flagrantemente inconstitucional” e “uma tentativa de usar mecanismos democráticos para minar a própria democracia”.
Paz anunciou que faria mudanças no Gabinete — o que fez alguns analistas bolivianos afirmarem que os pedidos de renúncia de Salinas e Beatriz foram apenas uma antecipação a demissões. A intensificação da crise e o fracasso das tentativas de negociação também foram apontados como motivos para a queda da ministra da Educação, um dos rostos públicos do governo em tentativas de diálogo promovidas pela Igreja Católica, Defensoria Pública e outras organizações. Além disso, pesou o fato de os professores terem sido uma das primeiras categorias a se levantarem contra o governo. (Com AFP e Bloomberg)

