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Ministros entregam cargos na Bolívia em meio a manifestações que pressionam por renúncia do presidente

Por Redação Juruá em Tempo.3 de junho de 20265 Minutos de Leitura
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Em meio a uma onda de protestos que já dura mais de um mês e impôs bloqueios de estradas que provocam desabastecimento em algumas das principais cidades da Bolívia, os ministros da Defesa, Mauricio Salinas, e da Educação, Beatriz García, renunciaram nesta terça-feira, aumentando a pressão sobre o Gabinete do presidente Rodrigo Paz, que assumiu o cargo há menos de sete meses e é o principal alvo dos manifestantes, que exigem sua renúncia.

Classes populares, incluindo organizações de trabalhadores, camponeses, mineradores e professores exigem medidas contra a pior crise econômica do país em quatro décadas, culpando o governo Paz de não oferecer soluções imediatas para problemas cotidianos, como os baixos salários. Também pesou contra o governo uma crise envolvendo a distribuição de combustível adulterado, que danificou milhares de veículos — que Paz prometeu indenizar, mas muitos afirmam não ter sido procurados. A política liberal do presidente — o primeiro de direita após 15 anos de governos socialistas — também é alvo de críticas.

Autoridades da Administração Boliviana de Estradas (ABC, na sigla em espanhol) citadas pelo jornal El Día afirmaram que nesta quarta-feira havia 85 pontos de bloqueio em vias pelo país, incluindo 28 em Cochabamba e 19 em La Paz. Cidades importantes, como Potosí e Oruro também são afetadas, em menor intensidade. A polícia foi mobilizada nesta quarta-feira para retirar manifestantes que tomaram uma instalação petrolífera da estatal YPFB, no departamento de Santa Cruz.

A saída de Salinas da Defesa acontece em meio a críticas sobre a incapacidade do governo de garantir a normalidade. O governo Paz alternou entre tentativas de diálogo — rejeitadas pelos manifestantes — e uso de força policial. O governo ainda não descartou declarar estado de exceção para usar militares no controle das manifestações. A imprensa local aponta que o novo titular da pasta será Ernesto Justiniano, que ganhou o apelido de “czar antidrogas” entre 2002 e 2003.

Alguns casos destacados pela mídia boliviana começam a pressionar o governo e os manifestantes pela disrupção social. O jornal La Razón noticiou nesta quarta-feira que uma menina de 12 anos que passava por um tratamento contra o câncer morreu ao não conseguir se deslocar para La Paz, onde recebia cuidados regulares, incluindo quimioterapia. Salinas foi criticado por não garantir corredores humanitários em meio aos protestos.

Manifestantes antigovernamentais mantêm um bloqueio em uma das principais rodovias que levam à cidade de La Paz, em El Alto, Bolívia — Foto: MARVIN RECINOS/AFP
Manifestantes antigovernamentais mantêm um bloqueio em uma das principais rodovias que levam à cidade de La Paz, em El Alto, Bolívia — Foto: MARVIN RECINOS/AFP

A Plaza Murillo, coração de La Paz, está guardada por policiais há semanas. O Mercado Camacho, um tradicional ponto turístico, está quase vazio. Escolas e universidades suspenderam seus itinerários presenciais e passaram a oferecer apenas aulas on-line. A insatisfação popular é alta entre quem é a favor dos protestos ou de uma repressão mais firme pelo governo.

— Nunca antes vivenciamos um mês de cerco e sequestros — disse o direitista Jorge Tuto Quiroga, derrotado por Paz nas eleições, em uma coletiva de imprensa recente. — A polícia, as forças de segurança e as Forças Armadas deveriam garantir os direitos constitucionais de todos os bolivianos, não apenas guardar dois quarteirões da Plaza Murillo.

Governo pressionado

Paz avalia estratégias para lidar com a crise. O Congresso boliviano revogou, na semana passada, uma norma que limitava o decreto de estados de exceção pelo presidente, o que permitiria a mobilização de militares nas ruas e a restrição à liberdade de reunião. Até o momento, ele se mantém reticente sobre o uso da força.

O presidente e seus aliados acusam o ex-presidente Evo Morales de incentivar as manifestações e diz que o país está diante de uma tentativa de “alterar a ordem democrática”. Em entrevista à Bloomberg no mês passado, Paz disse que há “muitos interesses internos e externos” para fazer a democracia boliviana fracassar.

Manifestantes entram em confronto com a polícia durante um protesto contra o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, em La Paz — Foto: Aizar Raldes/AFP
Manifestantes entram em confronto com a polícia durante um protesto contra o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, em La Paz — Foto: Aizar Raldes/AFP

O chanceler boliviano, Fernando Aramayo, denunciou na terça-feira a presença de “atores estrangeiros” em reuniões de setores mobilizados como uma prova de que está em curso um “processo de desestabilização” democrática. Meios de comunicação mencionaram a presença de representantes de movimentos políticos de esquerda da Argentina nos bloqueios.

As tentativas de dirimir as pressões não conseguiram o efeito desejado até o momento. Na terça-feira, a terceira maior força no Congresso boliviano apresentou uma proposta para convocar um referendo revogatório, que permitiria que os cidadãos destituíssem Paz por meio de votação após a conclusão de metade do mandato.

O vice-presidente Edmand Lara rejeitou a proposição em um comunicado divulgado ainda na terça, classificando-a como “flagrantemente inconstitucional” e “uma tentativa de usar mecanismos democráticos para minar a própria democracia”.

Paz anunciou que faria mudanças no Gabinete — o que fez alguns analistas bolivianos afirmarem que os pedidos de renúncia de Salinas e Beatriz foram apenas uma antecipação a demissões. A intensificação da crise e o fracasso das tentativas de negociação também foram apontados como motivos para a queda da ministra da Educação, um dos rostos públicos do governo em tentativas de diálogo promovidas pela Igreja Católica, Defensoria Pública e outras organizações. Além disso, pesou o fato de os professores terem sido uma das primeiras categorias a se levantarem contra o governo. (Com AFP e Bloomberg)

Por: O Globo.
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