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Tiro ao Pix pode ser fatal para Flávio Bolsonaro

Por Redação Juruá em Tempo.3 de junho de 20264 Minutos de Leitura
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Tarifaços que vão e vêm e classificação de facções criminosas como terroristas são decisões do governo dos Estados Unidos que podem ou não ter impacto eleitoral no Brasil, a depender da narrativa ou do grau de compreensão do eleitor a respeito de suas consequências. Uma tentativa de Donald Trump de embargar ou limitar o uso do Pix na base da ameaça tem outra magnitude: trata-se de um daqueles assuntos capazes de implodir uma candidatura. No caso, a de Flávio Bolsonaro.

Não foi por outra razão que o filho de Jair, que até a véspera se jactava do acesso à Casa Branca e de ter conseguido, no breve encontro com Trump, arrancar a classificação de PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas, correu para mostrar ofício, carta, sinal de fumaça, tudo o que pudesse dissociar a mesma reunião do anúncio de novo tarifaço e de uma eventual ofensiva sobre o meio de pagamento queridinho dos brasileiros.

Uma das poucas coisas no Brasil de 2026 capazes de quebrar a ferrenha polarização ideológica que turva qualquer compreensão mais sofisticada é o Pix. Todo mundo usa, todo mundo gosta, ninguém imagina viver sem.

Se o amigão dos Bolsonaros insistir em sua campanha sem sentido na defesa de bandeiras de cartões de crédito (que praticam as taxas de juros mais escorchantes de todas, na modalidade do crédito rotativo) em detrimento do Pix, sem tarifas, será um tiro não no pé da candidatura do PL, mas no coração, com impacto maior que a transação feita diretamente por Flávio para descolar R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, alegadamente para o filme sobre o pai.

A ordem no Palácio do Planalto e no PT é aproveitar a oportunidade dada de bandeja por Trump e Marco Rubio para fustigar Flávio ao máximo. Lula foi com tanta sede ao pote depois da nova ameaça de tarifaço que acabou proferindo um discurso raivoso, sem pé nem cabeça, confundindo Tiradentes com Joaquim Silvério dos Reis, seu delator, e, de quebra, insinuando que seu adversário merecia ter “o mesmo destino”, ao citar, erroneamente, que ele foi enforcado.

O ataque frontal de Lula, a resposta de Flávio dizendo não ter medo de ameaça e todo o calor produzido pelas muitas e confusas interferências americanas em assuntos eleitorais brasileiros produzem muito bate-boca, mas não se sabe ao certo quanto ou o que chega ao eleitor.

Especialistas em pesquisas observam ser difícil até formular perguntas para incluir nos próximos levantamentos para medir o conhecimento e o impacto dessas últimas medidas. Afinal: Flávio foi fundamental para que os Estados Unidos classificassem as facções como terroristas? Ou o encontro só produziu uma foto, e o resto foi coincidência de datas?

Enquanto restar uma zona cinzenta e sujeita a narrativas dos dois lados, a tendência é que a polarização resista. Até porque os candidatos a terceira via, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, seguem como linhas auxiliares de Flávio e não conseguem diferenciar seu discurso nem ao comentar a ameaça de tarifaço de 25% sobre o Brasil.

Se a coisa virar para o lado do Pix, é diferente. Trata-se de algo compreensível para qualquer um, capaz de provocar rejeição imediata ao candidato marcado com essa insígnia de conspirar contra o mecanismo com um governo estrangeiro.

Basta lembrar duas eleições recentes: quando Lula encaçapou a bola de que Geraldo Alckmin privatizaria todas as empresas nacionais, em 2006 — levando o hoje vice-presidente a vestir boné e jaqueta com logomarcas do Banco do Brasil, da Caixa e da Petrobras — e a propaganda de Dilma Rousseff de 2014 em que o prato sumia da mesa dos pobres, num prenúncio do que aconteceria caso Aécio Neves ou Marina Silva fossem eleitos, pois acabariam com o Bolsa Família.

Diante da confusão armada a partir de Washington, resta uma certeza: dada sua imprevisibilidade, Trump está longe de ser o cabo eleitoral com que a família Bolsonaro sonhou.

Por: O Globo.
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