Existem dores tão profundas que a maioria das pessoas gastaria uma vida inteira tentando decifrar em consultórios. Para a acreana Maria Ângela Costa, de 38 anos, o divã tem quatro rodas, cheiro de descarte urbano e avança pelas ruas de Itajaí, no litoral de Santa Catarina. É correndo atrás do caminhão de lixo, durante turnos que exigem de 30 a 90 quilômetros diários de asfalto, que ela reconstrói uma identidade estilhaçada por traumas familiares difíceis até de verbalizar.
A história de resiliência, contada originalmente em um sensível relato ao Jornal Razão, revela uma mulher que venceu as estatísticas antes mesmo de cruzar qualquer linha de chegada. Recentemente, sem nunca ter pisado em uma pista oficial de atletismo para treinar, Maria Ângela faturou o primeiro lugar na corrida do Marcílio Dias, cravando impressionantes 18 minutes na prova de 5km. “Eu só corro no caminhão do lixo e faço musculação”, resume com a simplicidade de quem não enxerga a própria grandeza.
Por trás do fôlego invejável e do sorriso tímido, mora uma infância que foi interrompida cedo demais. Maria Ângela deixou o Acre fugindo de uma onda de violência que consumiu sua família de forma brutal. O pai foi assassinado pelo próprio melhor amigo em um crime de crueldade indescritível. Uma de suas irmãs, grávida, foi morta a tiros. Pouco tempo depois, o irmão de apenas 17 anos teve o mesmo destino, também traído por alguém em quem confiava. As perdas empurraram as outras irmãs para o abismo das drogas.
Sua própria sobrevivência foi um milagre moldado pela dor. Entregue pela mãe a um desconhecido aos 11 anos para trabalhar cuidando de outras crianças, Maria Ângela tentou o suicídio aos 14 anos com veneno de rato, após conflitos familiares. “Passei um mês em coma. Fiz 15 anos na UTI”, relembra.
A virada de chave veio quando cruzou o caminho de Seu Floriano, um corredor profissional aposentado que a encontrou em uma praça. Ele a adotou esportivamente, buscou-a no fundo do poço e a incentivou a correr. Quando ele partiu, Maria Ângela perdeu o chão novamente. Casou-se, mudou-se para Santa Catarina e enfrentou a dureza do trabalho fabril e a barreira da dislexia, que ainda lhe causa o desconforto de não saber ler e escrever com fluidez.
A cura através do asfalto
O caminhão de lixo, que para muitos representa o ápice do desgaste físico, tornou-se o templo de Maria Ângela. Foi com o dinheiro suado da coleta que ela comprou um terreno em Itajaí. Seu maior sonho atual é terminar de construir uma kitnet para alugar e, com a renda, conseguir enviar sustento para a mãe, de 55 anos, que ainda vive no Acre cuidando dos netos e que, segundo a filha, “aparenta 90 anos de tanto que sofreu”.
A trajetória na corrida também teve seus percalços. Após uma queda que quebrou sua tíbia, ela enfrentou o isolamento, o ganho de peso e o preconceito em forma de memes nas redes sociais. Ao tentar retornar, ouviu de outros corredores que “só iria atrapalhar”. Voltou sozinha. E venceu.
Para a atleta, o esporte é a única terapia possível para combater a depressão crônica que ameaça visitá-la todos os dias. Ela recusa os remédios de tarja preta que viu destruírem a mente de uma de suas irmãs. “Se eu não saio pras corridas, eu não sou nada”, desabafa ao Jornal Razão. Sua postura diante da vida é tão transformadora que dois de seus colegas garis, que enfrentavam severas crises depressivas, começaram a correr inspirados por seu exemplo.
Sem amigos íntimos por um trauma compreensível, “morro de medo de amizade, por causa de amizade minha família foi toda destruída”, Maria Ângela acorda, pedala 10 quilômetros até o ponto de coleta, faz sua musculação, corre o turno atrás do caminhão e dorme. Nos fins de semana, compete.
“Tem dia que eu vou pedindo força pra Deus. Mas ninguém vai me ver brava, ninguém vai me ver reclamando da vida”, finaliza a corredora, deixando uma lição silenciosa a cada quilômetro deixado para trás.


