As cadeias ligadas ao agronegócio concentraram ao menos R$ 7,7 bilhões dos financiamentos aprovados pelo Plano Brasil Soberano, programa criado para dar suporte aos exportadores afetados pelo tarifaço dos Estados Unidos. O valor corresponde a 39,5% dos R$ 19,6 bilhões aprovados pelo BNDES e considera os setores de alimentos, agricultura e pecuária, madeira e couro.
Os dados são do relatório divulgado pelo Banco no último dia 10 de julho e referente à execução dos recursos liberados em 2025, ano do primeiro tarifaço do governo Donald Trump contra o Brasil.
Nesta semana, o governo brasileiro anunciou que entrará em uma nova etapa do programa, que leva o nome “Brasil Soberano Competitividade” para abrir outra frente de crédito focada na nova tarifa de 25%, que passa a valer a partir desta quarta-feira (22).
Ano passado, a principal beneficiada com os recursos liberados foi a indústria de alimentos, com R$ 4,159 bilhões distribuídos em 260 operações. Na sequência aparecem a fabricação de produtos de madeira, com R$ 1,854 bilhão; agricultura, pecuária e serviços relacionados, com R$ 917 milhões; e preparação de couros e fabricação de artefatos, com R$ 804 milhões.
A reportagem somou todos os itens que possuem um CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas), que identifica a partir de sete dígitos numéricos a atividade exercida por determinada empresa. A soma gerou o valor de pelo menos R$ 7,7 bilhões.
Entretanto, o cálculo é conservador, porque o relatório não detalha as empresas beneficiadas dentro de setores como comércio atacadista, fabricação de máquinas e equipamentos e produtos químicos. Essas categorias podem incluir empresas do agro, como tradings, fabricantes de máquinas agrícolas, fertilizantes e defensivos.
O relatório não inclui empresas do agro que arcaram com custos e perdas do próprio caixa para atravessarem o ano e manterem os contratos de exportação em dia.
Dados gerais:
O plano Brasil Soberano foi criado a partir de uma medida provisória em agosto de 2025, a MP 1309/25. Originalmente, o pacote de socorro abrangia R$ 30 bilhões para crédito a afetados pelos impasses do tarifaço.
Até dezembro de 2025, o total aprovado pelo programa foi R$ 19,59 bilhões em 1.386 operações. O montante comprometeu 89% dos R$ 22 bilhões efetivamente transferidos ao BNDES pelo FGE (Fundo de Garantia à Exportação), segundo o relatório de execução.
Do total aprovado, R$ 10,82 bilhões foram efetivamente desembolsados até dezembro, o equivalente a 55%. Outros R$ 8,77 bilhões permaneciam pendentes de liberação e ainda poderiam ser desembolsados posteriormente ou cancelados.
Os números mostram que o socorro teve caráter predominantemente emergencial e foi direcionado à manutenção do capital de giro, isto é, para o fluxo de caixa das empresas. Cerca de 51% dos recursos aprovados foram destinados ao Giro Emergencial, enquanto outros 47% foram para Giro Diversificação, modalidade que exige da empresa beneficiada o compromisso de exportar para mercados diferentes dos Estados Unidos.
Em contraste, as linhas voltadas a investimentos produtivos tiveram participação pequena. Foram aprovados R$ 348 milhões para bens de capital e investimentos, menos de 2% do volume total do programa. Na modalidade de investimento direto, voltada à adaptação da atividade produtiva, inovação e expansão das exportações, não houve operação aprovada.
O retrato indica que, diante do choque das tarifas, as empresas priorizaram liquidez, pagamento de despesas para manter operações. A adaptação da produção e a compra de máquinas, embora previstas no desenho do Plano Brasil Soberano, ficaram em segundo plano.

