Uma carta escrita por um passageiro do Titanic poucas horas após o início da viagem inaugural do navio será leiloada no Reino Unido e oferece um raro retrato da rotina a bordo antes do naufrágio que matou mais de 1.500 pessoas, em 1912. Redigido por Henry Price Hodges em 10 de abril daquele ano, o documento pode alcançar até £ 35 mil (cerca de R$ 260 mil) em um leilão da casa Henry Aldridge & Son.
Endereçada ao amigo Hector Young, a carta descreve um ambiente tranquilo e festivo, sem qualquer sinal da tragédia que ocorreria quatro dias depois. Hodges conta que o mar estava calmo e que mal era possível perceber o movimento da embarcação. Ele relata ainda que centenas de passageiros caminhavam pelo convés cantando, enquanto outros jogavam dominó e cartas, liam livros ou escreviam correspondências. “Tudo é muito diferente do que se imaginaria ver no mar”, escreveu.
Vendedor de instrumentos musicais, Hodges viajava na segunda classe rumo a Boston, onde pretendia visitar amigos. Segundo a casa de leilões, relatos desse grupo de passageiros são pouco comuns, já que a maior parte do material preservado ao longo das décadas diz respeito aos imigrantes da terceira classe ou aos milionários que ocupavam as cabines da primeira.
O Titanic partiu de Southampton em 10 de abril de 1912 com destino a Nova York, após escalas na França e na Irlanda. Na noite de 14 de abril, o transatlântico colidiu com um iceberg no Atlântico Norte e afundou em menos de três horas. Das cerca de 2.220 pessoas a bordo, mais de 1.500 morreram no desastre, que se tornou um dos naufrágios mais conhecidos da história.
Henry Hodges estava entre as vítimas. Seu corpo foi recuperado dias depois e enterrado no cemitério Fairview Lawn, em Halifax, no Canadá. A carta foi enviada ainda durante a viagem, quando o navio fez escala em Queenstown, atual Cobh, na Irlanda, e permaneceu preservada pela família desde então. Segundo os organizadores do leilão, esta será a primeira vez que o documento será colocado à venda.
Para Andrew Aldridge, responsável pela casa de leilões, a correspondência tem valor histórico por registrar aspectos do cotidiano de um grupo de passageiros sobre o qual existem poucos relatos. Além de ajudar a preencher essa lacuna, o documento mostra como era a atmosfera a bordo poucas horas antes de uma das maiores tragédias da navegação moderna.

