Nos últimos 20 anos, o acesso ao ensino superior mudou a realidade do Acre. A chegada da Universidade Federal do Acre (Ufac) ao interior, com o campus de Cruzeiro do Sul, e a criação de programas federais permitiram que milhares de jovens acreanos pudessem sonhar com uma faculdade.
O avanço da rede pública e a Lei de Cotas abriram as portas para negros, pardos e indígenas de comunidades tradicionais e ribeirinhas. Ao mesmo tempo, programas como o ProUni e o Fies ajudaram estudantes de baixa renda a pagar faculdades particulares em Rio Branco e em outras cidades polo.
No entanto, garantir que esses alunos entrem, continuem estudando e consigam um bom emprego ainda é um grande desafio na nossa região.
O crescimento das faculdades particulares
Embora o acesso tenha aumentado, a maior parte dessas novas vagas não foi criada nas universidades públicas. A expansão aconteceu, principalmente, em grandes redes de faculdades particulares. Com a ajuda de dinheiro público, esses grupos educacionais se espalharam pelo estado.
Na prática, o Acre tem poucas vagas públicas (na Ufac e no IFAC) para muita gente. Para o estudante que mora no interior, a disputa por uma vaga gratuita é muito difícil, o que obriga a maioria a recorrer às faculdades pagas.
Morar em cidades isoladas como Jordão, Santa Rosa do Purus, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo torna o sonho da faculdade presencial quase impossível. O custo com transporte e mudança para as famílias de baixa renda é alto demais. Por isso, o interior do estado virou um prato cheio para as faculdades que vendem cursos pela internet.
A ilusão do ensino à distância (EaD)
Sem vagas presenciais ou condições de mudar de cidade, os estudantes do interior viram no Ensino à Distância (EaD) a única chance de estudar. Hoje, os computadores e celulares conectam alunos dos lugares mais distantes a salas de aula virtuais.
O problema é que essa “facilidade digital” muitas vezes funciona mais como um comércio de diplomas baratos do que como educação de verdade. Sem internet de qualidade — um problema antigo na Amazônia — e sem laboratórios ou bibliotecas físicas, o aluno precisa estudar totalmente sozinho. Isso prejudica o aprendizado e faz com que o estudante saia da faculdade menos preparado para o mercado de trabalho.
Desigualdade que continua
Os dados mostram que o Brasil ainda é um país dividido. Estados do Sul, Sudeste e o Distrito Federal têm muito mais adultos com faculdade do que o Acre e o restante da Região Norte.
A diferença também aparece na cor da pele. Embora o número de negros e pardos com diploma tenha crescido com as cotas na Ufac, a distância em relação aos profissionais brancos continua enorme há mais de dez anos.
No fim das contas, a chance de se formar e mudar de vida no Acre ainda depende muito de três fatores: da renda da família, da raça do estudante e da cidade onde ele mora.
A reportagem utiliza como base os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Anual (PNAD Contínua) de 2025, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com levantamento histórico elaborado pelo projeto @espacialidade (Amanda Silva Almeida, 2026).




