Neymar pega a bola, se prepara para bater o pênalti para o Brasil e trava um diálogo provocativo com o goleiro da Noruega. Ao fazer o gol, em vez de buscar a bola no fundo das redes, encara Orjan Nyland e gesticula com as mãos como se o adversário falasse demais. A cena aconteceu no último minuto dos acréscimos, quando a seleção ainda poderia ter alguns segundos para buscar um improvável milagre. Mesmo com a eliminação se confirmando, o camisa 10 tentou terminar a participação como o protagonista que, em campo, claramente não foi.
Na direção da saída de bola, mandou um beijo para alguém na arquibancada, deu uma ombrada em outro jogador norueguês, criou mais confusão com adversários e por pouco não foi expulso.
No apito final, a ficha caiu. Aos 34 anos, era o fim de sua jornada com a seleção em Copas do Mundo. Sentou-se no gramado e chorou, consolado primeiro pelos companheiros da seleção, depois pela mulher, Bruna Biancardi, e pelo filho, Davi Lucca.
— Tentei, tentei. Agora acabou. Comecei aqui, fechei aqui — disse Neymar, lembrando que estreou com a camisa amarelinha no MetLife Stadium, em amistoso contra os EUA, em 2010.
Nesta edição, esteve disponível em três jogos e atuou por um total de 54 minutos, contando com os acréscimos: contra a Escócia, quando jogou 21 minutos; contra o Japão, quando não foi utilizado; e mais 33 contra a Noruega.
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Neymar entrou aos 22 minutos do segundo tempo, quando o placar ainda marcava 0 a 0, como uma esperança de poder de decisão em um time que falhava em converter as chances.
Nos primeiros minutos, criou apenas uma jogada com algum perigo, mas se atrapalhou na finalização. Na maior parte do tempo, se limitou a trotar de um lado para o outro enquanto os defensores da Noruega trocavam passes e construíam desde a defesa. Passada a primeira linha, se mantinha na posição de falso nove, obrigando Endrick a fechar o lado direito da defesa e Vini Jr., o esquerdo. Com a bola, o camisa 10 baixava mais do que deveria para jogar e mudava o eixo da equipe, caindo pelo lado esquerdo e se confundindo com Vini.
Depois do primeiro gol de Haaland, aos 34 minutos da etapa final, Neymar entrou no modo provocativo. Comportamento que aumentou após o segundo gol da Noruega, aos 45. Foi o camisa 10 que pegou a bola para sair jogando nas duas oportunidades.
Para o bem e para o mal
Tornava-se protagonista, sim, mas do fracasso do Brasil. Convocado entre os 26 nomes mesmo lesionado, passou a se comportar como se tivesse cumprido, até então, o pacto com o técnico Carlo Ancelotti. Durante a Copa do Mundo, Neymar não se preocupou em chamar a atenção. Recuperou-se e voltou a treinar em silêncio. As gracinhas apareciam em tom de bom humor e motivação, mas em nenhum momento durante o torneio o atacante demonstrou que poderia ser um salvador da pátria de fato.
Ao entrar em campo ontem, passou Pelé e Rivaldo e se isolou como o jogador que mais vestiu a pesada camisa 10 da seleção em Copas, 15 vezes. Com o gol, entrou para o top-3 histórico da artilharia da seleção, com nove gols em Mundiais, empatando com Ademir Menezes, Vavá e Jairzinho e ficando atrás apenas de Pelé, com 12, e de Ronaldo Fenômeno, com 15. Mas a marca negativa também chama a atenção. Igualou Thiago Silva como o jogador brasileiro a disputar quatro Copas do Mundo sem títulos.

