Os três meses consecutivos de crise na campanha do senador Flávio Bolsonaro começam a cobrar seu preço. Um recorte inédito da pesquisa Genial/Quaest mostra que 55% dos eleitores acreditam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será reeleito em outubro. Apenas 25% apostam na vitória de Flávio Bolsonaro. A vitória do presidente é a opinião majoritária em todas as regiões, gêneros, idades, nível escolar e religiões. Entre os evangélicos, fortaleza do bolsonarismo, Lula é considerado o provável vencedor por 45% a 36% para o senador. Mesmo entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, o levantamento mostra uma degradação na confiança das chances do candidato: entre os que se identificam com direita não-bolsonarista, o índice dos que acreditam na vitória da oposição caiu de 67% em abril para 46% em julho. Entre os bolsonaristas raiz, a variação foi de 80% para 72%. Entre os eleitores independentes, na prática os que decidem a eleição, 52% creem na vitória de Lula. Apenas 14% acreditam em Flávio Bolsonaro.
Faltando onze semanas para o primeiro turno, o fato de Lula ser o favorito não significa que o jogo está jogado. Na política brasileira, falta um século até a eleição. No entanto, o fato de que tanta gente desconfia das chances de Flávio Bolsonaro tem implicações políticas imediatas. Um eleitor pode votar no candidato que defende suas propostas mesmo achando que ele vai perder. Um político, porém, terá muito mais cautela em embarcar num barco afundando.
No domingo que vem, o PL faz a convenção para sacramentar a candidatura de Flávio Bolsonaro e, por enquanto, só deve atrair partidos nanicos. Maior federação do Congresso, PP e União Brasil ficarão neutros. O Republicanos também resiste a um apoio formal. É grande a possibilidade de Bolsonaro ter menos tempo de propaganda de rádio e TV do que Lula.
A fragilidade de Flávio Bolsonaro abriu a temporada de caça por uma improvável substituição do candidato. Conversei com três dirigentes de partidos de direita nos últimos dias, e eles concordam que o risco da campanha bolsonarista é virar uma profecia autorrealizável: se a maioria acha que Flávio vai perder, ele acaba perdendo.
Mesmo dentro da campanha há o temor de que, nas próximas semanas, aumentem os ataques para convencer Jair Bolsonaro a substituir o filho por outro candidato. São três as frentes de ataques no radar:
- Caso Vorcaro – A divulgação da fotografia na piscina da cobertura do hotel Fasano, no Rio de Janeiro, de Flávio Bolsonaro com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário” do banqueiro corrupto Daniel Vorcaro, foi compreendida como um alerta de que outras imagens podem surgir em breve. Ninguém na campanha dorme tranquilo, com medo de um vídeo comprometedor de Flávio com Vorcaro.
- Governo do Rio – As investigações em curso sobre a corrupção no governo Cláudio Castro sugerem que Flávio Bolsonaro controlava algumas secretarias envolvidas em licitações fraudadas.
- Um novo vídeo de Michelle – Descartada por Flávio Bolsonaro e atacada violentamente pela guerrilha de Eduardo Bolsonaro, nada impede a madrasta Michelle de divulgar novos ataques. No último, ela deixou uma ameaça no ar: “Eles (os irmãos Bolsonaro) me tratam como se eu fosse idiota. Como se eu fosse alguém que chegou ontem. Eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam”.
Num ataque de sinceridade, Flávio Bolsonaro reconheceu na semana passada, em entrevista ao Flow Podcast, não ter mais nenhuma relação com a madrasta. Depois de Eduardo Bolsonaro coordenar ataques nas redes sociais, a campanha de Bolsonaro está também distante de outros dois líderes da oposição, o governador Tarcísio de Freitas e o deputado Nikolas Ferreira.
Os adversários sentiram o sangue na água. Nos últimos dias, Ronaldo Caiado, do PSD, que até agora fazia uma campanha mais bolsonarista que o próprio Flávio, passou a mostrar um tantinho de coragem. Com luvas de pelica para não ferir os sentimentos dos eleitores bolsonaristas, Caiado argumenta que Flávio teria uma derrota certa no segundo turno contra Lula, ao contrário do que supostamente aconteceria se ele chegasse à reta final. Com luvas de boxe, Renan Santos, do Missão, escolheu como candidato a vice um tenente-coronel da Brigada Militar gaúcha que se apresenta como um “verdadeiro bolsonarista” e acusa Flávio de ter “traído os ideais” defendidos pelos que votaram no pai em 2018.
Na avaliação dos líderes da direita, os ataques especulativos contra Flávio Bolsonaro duram até 5 de agosto, prazo para o registro da candidatura. Em tese, um novo escândalo até lá poderia fazer Jair Bolsonaro retirar o nome do filho. No plano de alguns políticos, se Flávio Bolsonaro ficar inviável, poderia surgir uma nova chapa com Ronaldo Caiado e Michelle Bolsonaro como vice. Por enquanto, é só sonho. O fato de alguns políticos investirem nesse sonho, porém, comprova a fragilidade de Flávio Bolsonaro neste momento.

