Pular para o conteúdo
O Juruá Em Tempo
Início / Destaque 2

Nova IA adapta correção de redação às neurodivergências dos estudantes

Uma inteligência artificial (IA) educacional foi desenvolvida para corrigir redações de estudantes neurodivergentes adaptando suas dificuldades às notas. A ferramenta identifica os erros mais comuns cometidos por quatro condições específicas — transtorno do espectro autista (TEA), transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), dislexia e disgrafia — e não os considera para a pontuação final dos alunos.

A nova função foi implementada na Red1000, uma plataforma de correção de texto automática do grupo Cogna. Atualmente, há 2,3 mil estudantes com neurodivergências cadastrados. Isso corresponde a 5% do do total de alunos que utilizam a plataforma.

Em meia década, o número de diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nas escolas quadruplicou, passando de 294.394, em 2021, para 1.298.637 no ano passado. Os dados do Censo Escolar 2025, promovido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), indicam a primeira vez em que os matriculados com TEA superaram aqueles com deficiência intelectual, respondendo por mais da metade do total de alunos da chamada educação especial. Neste novo cenário, diferentes ferramentas educacionais têm sido criadas ou adaptadas para atender esses estudantes.

Algumas escolas que utilizam a plataforma, segundo a Red1000, chegam a ter registrados com alguma neurodivergência mais de 20% dos estudantes. No Distrito Federal, um colégio privado que utiliza a ferramenta chegou a ter 26% dos alunos apenas com uma das quatro condições (TEA, TDAH, dislexia e disgrafia) que têm adaptações na IA de correção de redações.

De acordo com Carolina Siequeroli, gerente sênior de produto e fundadora da Red1000, os alunos atípicos acabavam se desestimulando em usar a plataforma por conta das baixas notas geradas pela correção padronizada. Com a nova função, a IA identifica os tipos de problemas causados pela neurodivergência, mas não desconta a pontuação.

— O aluno não utilizava a plataforma e deixava de treinar a redação. A ferramenta possibilitou que cada vez mais os alunos praticassem para fazer o Enem mais preparado — conta Siequeroli.

De acordo com os desenvolvedores, as escolas precisam cadastrar os alunos apontando suas neurodivergências para ativar a correção adaptada. Para isso, ela não exige laudo ou qualquer tipo de comprovação.

— Respeitamos a autonomia das instituições de ensino nesse processo: cabe à escola definir quando uma redação deve ser avaliada considerando necessidades educacionais específicas. Assim, mesmo que o estudante não tenha um diagnóstico formal, se a escola entender que esse tipo de avaliação é o mais adequado ao seu contexto pedagógico, ela pode solicitar essa configuração na plataforma, sem necessidade de apresentar um documento ou laudo — diz Siequeroli.

Em alguns casos, ela pode até identificar padrões de escritas compatíveis com características frequentemente observadas em estudantes neurodivergentes. No entanto, isso não permite inferir qualquer diagnóstico — o que também não é a finalidade da tecnologia, de acordo com os idealizadores.

Padrões identificados

Cada uma das quatro neurodivergências possuem adaptações específicas para os alunos na plataforma. Os que estão no transtorno do espectro autista, por exemplo, têm sinalizados no máximo 15 desvios de ortografia, gramática, sintaxe ou vocabulário. Caso passe disso, apenas os mais relevantes são apresentados.

Para esse grupo, também há maior tolerância para organização textual não convencional, repetição de palavras, textos em blocos únicos, fuga ao tema ou tangenciamento.

Já as adaptações para estudantes com TDAH procuram “reduzir o impacto de dificuldades relacionadas à atenção sustentada, revisão textual e organização da escrita, sem comprometer a avaliação do conteúdo desenvolvido”, segundo o documento Red1000 com as adaptações programadas.

Na prática, isso significa que erros ortográficos possuem peso reduzido, pequenas distrações não geram penalizações desproporcionais e erros isolados recebem tratamento mais leve do que erros recorrentes. Além disso, transições abruptas; pequenas falhas de sequência lógica; e organização menos fluida, recebem penalizações leves quando o conteúdo principal está preservado.

Já transtornos específicos de aprendizagem, como dislexia e disgrafia, possuem adaptações como menores punições gramaticais; marcações deixam de ser penalizadoras e passam a funcionar apenas como sinalização pedagógica; e erros repetitivos deixam de ser punidos diversas vezes. Em vez disso, quando um mesmo padrão ocorre repetidamente, ele é explicado apenas uma vez ao estudante.

Outra adaptação aos alunos neurodivergentes é a forma como seus erros são explicados. Para eles, os comentários enfatizam mais estratégias de revisão, evolução da escrita e aspectos positivos do texto do que os erros. Os textos também passam a ter linguagem mais objetiva e orientações concretas.

Na avaliação de Jucélia Linhares, coordenadora do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Tecnologia Assistiva (Lepta) da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), a IA pode ser uma ferramenta efetiva de inclusão ao identificar padrões de escrita relacionados às neurodivergências e oferecer feedback imediato e personalizado, promovendo autonomia e reduzindo a exposição do aluno.

— Mas, para que seja efetiva, é fundamental que seja usada como ferramenta de apoio ao professor, e não como substituta, com formação docente adequada para a interpretação dos relatórios — afirmou a especialista.

De acordo com ela, a adaptação da correção, não punindo desvios da redação que são característicos das neurodivergências, permite uma avaliação mais justa. Segundo Linhares, a ferramenta não configura “facilitação”, mas sim uma adaptação razoável ao desconsiderar na correção aspectos que são manifestações diretas da neurodivergência.

— Ela passa a medir o conhecimento e o potencial do aluno, e não o sintoma. Isso valoriza o aprendizado, aumenta a autoestima e a motivação do estudante, evitando a desmotivação causada por notas baixas recorrentes que não refletem sua capacidade intelectual. Mas também é essencial que a plataforma e a escola utilizem um “modo simulado Enem”, sem as compensações, para que o aluno treine e desenvolva estratégias de revisão e adaptação para a prova. O objetivo da IA deve ser ainda preparar o aluno para a realidade da avaliação externa.