Há 100 dias, a Venezuela era abalada por dois violentos tremores que impuseram a um país já afetado por crises humanitárias uma catástrofe natural de grande porte, com um elevado custo humano: foram mais de 6 mil mortos, um número que parentes e amigos de desaparecidos dizem ser ainda maior, dezenas de milhares de feridos e uma parcela considerável da população afetada. A ajuda internacional não tardou a chegar, não apenas na forma de mantimentos, mas através do trabalho de voluntários, equipes de resgate e do atendimento médico presente até hoje.
— Eu estava em um prédio que desabou. Fiquei sob os escombros e pensaram que eu estava morta quando me tiraram de lá. Só lembro que estava correndo e caímos com força, no abismo — relata Elvira, de 76 anos, sentada no consultório onde recebe atendimento psicológico, em declarações à organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que atua na Venezuela desde o início da crise. — Cheguei aqui em estado de crise. O que eu vivi não é fácil. Tudo me assustava, eu chorava muito, não dormia. A psicóloga me ajudou a superar o nervosismo. Quero sair do que estou passando. Quero voltar a ser quem eu era.
De acordo com números do MSF, a organização prestou assistência aos hospitais que receberam milhares de feridos, mesmo diante de um cenário crítico que antecede os terremotos, e distribuiu 8,5 toneladas de suprimentos na fase inicial da resposta. Em 100 dias, foram realizadas mais de 7 mil consultas, especialmente para casos de dores musculares e ósseas, infecções e doenças de pele. Os profissionais também se viram diante de pessoas traumatizadas e com medo dos choques secundários.
— O que observamos hoje não é apenas o efeito de um evento traumático isolado, mas o impacto acumulado de viver durante meses em condições de incerteza — disse Milagritos Valderrama, coordenadora médica de MSF para a resposta à emergência. — Muitas pessoas chegam às consultas com dores musculares, dores de cabeça recorrentes, problemas gastrointestinais ou insônia, sintomas que frequentemente refletem um sofrimento emocional e psicológico significativo.
Jornalistas que estiveram em Caracas e La Guaira apontaram que clínicas deixaram seus pacientes ao ar livre, pelo temor de que novos abalos provocassem desabamentos. O estresse ainda agravou quadros de pessoas com doenças crônicas, como hipertensão arterial, diabetes, asma e epilepsia.
— Isso me desmoralizou. Foi um desastre natural, mas destruiu tudo, meu coração, minha mente e minha alma — explica Ashley Mayora, de 43 anos, sentada dentro de sua barraca em Mare Abajo, um conjunto habitacional que desabou parcialmente após o duplo terremoto.
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Ela explicou ao MSF que vivia com a filha e o neto recém nascido, de quem precisou se afastar, e que teve um pré-infarto no dia 29 de julho, cerca de um mês depois dos terremotos.
— Só estou viva por eles — completou.
Rosmari Colmenares, que perdeu a casa, mencionou a dor da incerteza: até hoje, ela não teve informações sobre seu irmão e seu sobrinho, que estavam em um prédio que desabou. O corpo de sua sobrinha foi encontrado pelos resgatistas.
— Eu vi o jeito que demoliram minha casa; meu filho me abraçou e nós choramos. Tantos anos de dedicação para construí-la, melhorá-la… Em segundos, essa parte de você e da sua família é destruída. Não é fácil seguir em frente; você perdeu seu lugar, perdeu sua família. Enquanto eu não tiver meu irmão de volta, nunca vou ficar bem.
Ao MSF, mencionou a importância da assistência aos sobreviventes.
— Minha força já voltou. Há algumas semanas, eu disse à médica: “Quero voltar a trabalhar”. Depois de achar que nunca mais conseguiria.
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De acordo com as Nações Unidas, mais de 2 mil resgatistas vindos de 27 países trabalharam nos escombros das cidades venezuelanas, desde nações vizinhas, como Brasil e Argentina, até lugares distantes, como a Índia, que mobilizou em quatro horas uma equipe para cruzar o mundo em apoio aos venezuelanos. Muitos eram veteranos de outros desastres naturais, mas nenhuma tragédia é igual a outra, e elas sempre deixam impactos em quem atua diariamente com o sofrimento e a morte.
— Minha esperança era encontrar pessoas com vida, mas o que encontrei foram corpos — compartilhou ao MSF Israel Lanza, socorrista da Defesa Civil. — O que mais me marcou foi encontrarmos o corpo de um cachorro, abraçado por uma senhora e seu filho. Os braços deles estavam ao redor do animal, e todos morreram.
Lanza afirmou que, em determinado momento, “esquecia o próprio nome”, e que passou 15 dias sem voltar para casa. Uma carga emocional que provocava quadros de fadiga extrema e estresse traumático em pessoas que precisavam da mente sã para salvar vidas.
— Lembro que, no sexto dia, me sentia completamente esgotado. Precisei parar. Pensei em pedir demissão, dizia a mim mesmo que não conseguia mais. Parte da minha família mora aqui em La Guaira e passei 12 dias sem ter notícias deles — desabafou ao MSF Elvis Díaz, socorrista da Defesa Civil, que revelou chorar no banho “para não incomodar os colegas”.
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Se a vida ds atingidos pelos terremotos mudou em questão de segundos, a reconstrução de seus meios de existência, suas comunidades e da maneira como se relacionavam com o mundo é uma tarefa de longo prazo. Como parte do esforço, o MSF segue oferecendo serviços de primeiro atendimento e saúde mental à população em Caracas e La Guaira, e atua na prevenção de doenças através de ações para o fornecimento de água potável e da instalação de infraestrutura essencial para garantir condições mínimas de saneamento.



