Se existe um número que deveria estar em letras garrafais no QG de Alan Rick neste início de segundo turno, não é apenas o dos votos conquistados por Mailza Assis.
É o dos 173.669 eleitores que não deram voto válido a nenhum candidato ao Governo do Acre no primeiro turno.
Desse universo, 125.345 eleitores não compareceram às urnas, o equivalente a 20,44% do eleitorado acreano. Outros 39.398 anularam o voto e 8.926 votaram em branco.
É muita gente.
E, para Alan, pode ser justamente aí que esteja uma das principais frentes desta nova etapa da eleição.
Mailza terminou o primeiro turno com 218.760 votos, ou 49,76% dos válidos, enquanto Alan recebeu 141.859, ou 32,27%. A diferença entre os dois foi de 76.901 votos.
Colocando os números lado a lado, fica mais fácil entender o tamanho desse contingente: os 173.669 eleitores que se abstiveram, votaram branco ou anularam representam mais que o dobro da diferença entre Mailza e Alan.
Isso não significa, evidentemente, que esses votos estejam disponíveis para um único candidato. Mailza também disputará esse eleitorado. Tampouco significa que todos os ausentes comparecerão no segundo turno ou que quem votou branco ou nulo agora necessariamente escolherá alguém.
Mas Alan precisa crescer. E muito.
Não basta herdar os votos dos derrotados
O caminho mais óbvio passa pelos eleitores dos quatro candidatos que ficaram fora do segundo turno.
Tião Bocalom recebeu 44.946 votos; Thor Dantas, 32.963; Eudo Raffael, 715; e Dr. Luisinho, 404. Juntos, somaram 79.028 votos.
É praticamente a diferença de 76.901 votos aberta por Mailza.
Só que existe um detalhe fundamental: esses votos não pertencem aos candidatos derrotados.
O eleitor pode migrar para Alan, escolher Mailza, votar branco ou nulo ou simplesmente não comparecer no segundo turno.
E Mailza também está atrás desse eleitorado.
Por isso, para Alan, depender apenas da transferência dos votos dos derrotados é uma equação arriscada. Ele precisa encontrar outros caminhos para ampliar sua votação.
E alguns caminhos políticos já estão fechados.
Alysson está com Mailza
Um deles é o prefeito de Rio Branco, Alysson Bestene.
Alan chegou a anunciar, ainda na noite da eleição, que procuraria o prefeito em busca de apoio no segundo turno. Alysson, porém, decidiu caminhar com Mailza.
Isso coloca o prefeito da capital — onde está concentrada uma parcela expressiva do eleitorado acreano — no palanque adversário.
Para Alan, significa ter de buscar votos em Rio Branco sem contar com uma liderança que poderia ajudar nessa aproximação.
Flávio também não estará em seu palanque
Há ainda uma situação curiosa envolvendo a eleição presidencial.
Alan declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno para presidente. Mas isso não significa que terá Flávio em seu palanque na disputa pelo Governo do Acre.
Mailza também apoia Flávio e, nesta quarta-feira (7), esteve ao lado dele em Brasília durante o ato que formalizou o apoio da Federação União Progressista à candidatura presidencial.
A governadora reforçou seu apoio e lembrou a votação obtida pelo candidato no Acre.
Ou seja: Alan apoia Flávio, mas não poderá tratar esse apoio como um ativo exclusivamente seu na disputa estadual.
E Alan não quer a esquerda
Existe ainda outro contingente político que Alan já deixou claro que não pretende trazer para perto. A esquerda.
Após o primeiro turno, o candidato afirmou que seu campo é o da direita e afastou a possibilidade de uma composição com esse segmento político. É uma decisão política.
Mas ela produz uma consequência matemática simples: Alan precisa buscar votos, ao mesmo tempo em que abre mão de tentar construir uma aliança com parte do eleitorado que não votou nele no primeiro turno.
E é justamente por isso que as abstenções, os brancos e os nulos ganham ainda mais importância.
173 mil eleitores no radar
A soma chama atenção. Foram 125.345 abstenções, 39.398 votos nulos e 8.926 brancos.
No total, 173.669 acreanos não deram voto válido para governador no primeiro turno. É um universo equivalente a cerca de 39,5% da quantidade de votos válidos registrada para governador no primeiro turno.
Para Alan, existem desafios diferentes dentro desse mesmo grupo.
Quem votou branco ou nulo já compareceu à urna. O trabalho da campanha será tentar convencer esse eleitor a escolher um dos dois candidatos desta vez.
Com quem se absteve, a tarefa é ainda maior.
Antes de convencer esse eleitor a votar em Alan, será preciso convencê-lo simplesmente a sair de casa e votar.
É uma campanha em duas etapas: transformar ausência em comparecimento e, depois, comparecimento em voto.
Alan precisa encontrar voto onde não teve voto
A situação fica ainda mais evidente quando todos esses elementos são colocados na mesma mesa.
Alan precisa descontar uma diferença de quase 77 mil votos.
Alysson está com Mailza.
Flávio é apoiado pelos dois candidatos ao governo e está politicamente ligado também ao campo de Mailza.
Alan já declarou que não pretende buscar uma composição com a esquerda.
Os eleitores de Bocalom, Thor e dos demais derrotados estarão sendo disputados pelos dois lados.
Então, onde buscar tamanho crescimento?
Parte da resposta pode estar justamente entre aqueles 173.669 acreanos que não deram voto válido a ninguém no primeiro turno.
Alan terá de conversar com quem votou em outro candidato, claro.
Mas terá também de conversar com quem anulou.
Com quem votou em branco.
E, principalmente, com quem nem sequer apareceu.
Mailza também poderá buscar todos eles. A diferença é que Alan parte de uma votação menor e, portanto, tem uma necessidade maior de ampliar seu contingente eleitoral.
Para mudar o placar do primeiro turno, o republicano precisa fazer algo que talvez seja o maior desafio de sua campanha: encontrar voto onde, no primeiro turno, não houve voto para ele.
E os 173 mil acreanos entre ausentes, brancos e nulos formam um enorme território dessa disputa.



