Morgan Freeman insiste que ainda não entende toda a comoção em torno de sua voz. Aos 89 anos, o ator vencedor do Oscar já deu voz a Deus e a presidentes, além de ser o narrador preferido de muitos documentaristas. Ainda assim, minimiza o impacto de seu barítono grave e imediatamente reconhecível.
Freeman, cuja carreira só decolou mais tarde na vida, está prestes a se tornar um nonagenário, mas segue em plena atividade. Ele volta a interpretar Edwin Mullins, secretário de Estado dos Estados Unidos, na terceira temporada do thriller de espionagem “Lioness”, de Taylor Sheridan, no Paramount+, que também tem Zoe Saldaña e Nicole Kidman no elenco. Além disso, sente que tem a missão de preservar a música blues: é um dos fundadores de uma casa de shows dedicada ao gênero em Clarksdale, no Mississippi, e produziu e narrou um álbum de blues que será lançado em agosto.
Recentemente, ele conversou com o The New York Times sobre seu trabalho no universo criado por Sheridan, sua voz e os critérios que usa para escolher novos projetos.
Taylor Sheridan atraiu uma longa lista de astros do cinema para suas séries. O que há na escrita dele que torna essas produções tão atraentes?
A escrita dele tem muito a ver com a experiência humana, com o que as pessoas realmente estão vivendo, emocionalmente, em muitos casos. Você viu muito disso em Yellowstone, e também em praticamente tudo o que ele escreve. Em Lioness, por exemplo, no caso da Joe (personagem de Zoe Saldaña), ele retrata uma mulher cuja vida está frequentemente em risco. Ela tem filhos e marido. Precisa tomar decisões levando tudo isso em consideração. É preciso coragem para escrever sobre esse tipo de situação, e o Taylor parece ter bastante.
Antigamente era raro ver grandes estrelas do cinema entrando para séries de televisão. Por que isso mudou?
Hoje há mais trabalho nas séries de streaming do que nos filmes destinados aos cinemas. Se as pessoas podem ficar em casa assistindo a algo extraordinário, é isso que elas vão fazer. É por isso que Warner Bros., Paramount, Hulu e todas essas empresas investem tanto em plataformas de streaming.
Em que momento você percebeu que sua voz era um instrumento tão único?
Ainda não percebi. Só dizem isso para mim.
Com quantos anos você ouviu isso pela primeira vez?
Não sei… 80, 75.
É difícil acreditar nisso.
Não ache difícil acreditar. Minha carreira nem tinha começado quando eu fiz 50 anos.
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O que passa pela sua cabeça quando dizem que você tem uma voz e uma cadência tão marcantes?
“Nossa!”. “Sério? Muito obrigado.” Só isso. O que mais eu poderia fazer?
Você fez algo específico ao longo dos anos para aperfeiçoar sua voz?
Não. Apenas tento falar com clareza. Só isso. O que existe, existe.
Você também mergulhou no universo do blues. Por que isso é importante para você?
O blues é, antes de tudo, um patrimônio fundamental dos Estados Unidos, e esse patrimônio pertence à população negra do país. Nós o criamos. Nós o mantivemos vivo — assim como o gospel. Muitos cantores de gospel passaram depois a cantar blues. O blues dava mais dinheiro que o gospel. Os dois gêneros são inseparáveis. Eu nunca sentei e decidi que isso seria uma missão na minha vida. Simplesmente aconteceu.
Um dia eu estava em Clarksdale e vi dois mochileiros andando pela cidade procurando um lugar para ouvir blues. Não havia nenhum. Meu sócio e eu decidimos que isso era inaceitável. Precisávamos fazer alguma coisa. Então não posso dizer que essa sempre foi uma paixão de vida. A necessidade se impôs.
Existe algum elemento essencial em um roteiro que o faça aceitar um papel?
É muito bom quando alguém oferece um trabalho acompanhado de um roteiro empolgante. Mas, na prática, duas ou três coisas entram em jogo. Quanto vão pagar? Se o pagamento for bom, você acaba relevando alguns problemas do roteiro. Às vezes dá para apontar coisas que não funcionam muito bem, e, na maioria dos casos, elas acabam sendo ajustadas.
Existe algum papel que você ainda gostaria de interpretar?
Não. Estou chegando aos 90 anos. Então os papéis que eu gostaria de ter feito agora serão interpretados por Denzel Washington.
O que continua motivando você a fazer arte?
Penso como Clint Eastwood: “Não deixe o velho entrar”. Então continue trabalhando. Se você consegue sair da cama sem cair no chão, agradeça pelas bênçãos e siga em frente. Vou continuar trabalhando enquanto puder — enquanto alguém me perguntar: “Você quer fazer este papel?”



