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EUA ampliam campanha de ataques a embarcações e passam a mirar barcos de ‘reabastecimento’

Um ano após o início da campanha militar americana de ataques a embarcações, os Estados Unidos parecem estar mirando um novo tipo de navio: grandes barcos de pesca ao largo da costa do Equador que, segundo o governo do presidente Donald Trump, fornecem combustível a embarcações menores que transportam drogas. Na noite de terça-feira, as Forças Armadas do país anunciaram a sexta operação desse tipo em duas semanas, divulgando um vídeo que mostrava um helicóptero sobrevoando o oceano e militares embarcando em um grande barco de pesca para retirar a tripulação, antes de a embarcação explodir.

O Comando Sul dos EUA afirmou que o barco, assim como outras cinco grandes embarcações destruídas ao largo da costa do Equador desde 28 de agosto, funcionava como um “posto de reabastecimento flutuante”, abastecendo o tipo de lancha rápida que as Forças Armadas têm atacado em operações que mataram mais de 220 pessoas desde que começaram, em 2025.

O governo Trump tem afirmado, sem apresentar provas, que as embarcações transportam drogas. Especialistas nas leis que regem o uso de força letal dizem que os ataques são ilegais porque as Forças Armadas dos EUA não têm permissão para atacar civis que não representem uma ameaça iminente de violência, mesmo que estejam cometendo um crime. A sequência de ataques contra embarcações maiores ocorre paralelamente à retomada dos ataques contra barcos menores supostamente carregados de drogas, após uma pausa de dois meses.

Enquanto isso, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, viaja ao Equador nesta quarta-feira como parte de uma visita a três países da América do Sul, tendo a segurança e a cooperação militar contra grupos de narcotráfico no topo de sua agenda. O presidente do Equador, Daniel Noboa, que deve se reunir com Rubio, foi o primeiro líder da região a firmar um acordo com os EUA para permitir operações militares conjuntas.

Método ‘mais eficaz’

Autoridades afirmaram que as embarcações pesqueiras maiores atacadas nas últimas duas semanas, algumas delas em coordenação com forças equatorianas, estavam ligadas à gangue Los Choneros, classificada pelos EUA como uma organização terrorista estrangeira. Fontes militares americanas, atuais e antigas, afirmam que afundar os barcos maiores usados para reabastecimento é uma maneira mais eficaz de atingir a infraestrutura de contrabando de drogas de grupos criminosos do que explodir embarcações menores.

Segundo um ex-funcionário dos EUA, as embarcações de reabastecimento são mais difíceis de substituir do que os barcos menores, e sua destruição tem um impacto maior sobre a rede de contrabando de drogas. Mirar barcos maiores também oferece a vantagem adicional de não matar os tripulantes. Ataques letais contra embarcações têm enfrentado duras críticas do Congresso, de líderes internacionais e de grupos de defesa dos direitos humanos.

Em cada caso, militares americanos embarcaram nos barcos e retiraram os tripulantes, que, segundo as autoridades dos EUA, foram entregues às autoridades equatorianas. Em seguida, os militares americanos instalaram explosivos nas embarcações e as destruíram. O governo do Equador não respondeu a um pedido de comentário.

O Comando Sul dos EUA, por sua vez, afirmou em comunicado que “essas interdições eliminam pontos críticos da rede logística de narcóticos” e promovem os objetivos do governo de aplicar “fricção sistêmica total contra narcoterroristas”. A outra campanha militar de ataques a embarcações, acrescentou, “continuou sem alterações”.

Novas justificativas

A justificativa apresentada pelo governo Trump para os ataques militares contra embarcações mudou ao longo do tempo. Inicialmente, autoridades disseram que os ataques tinham como objetivo atingir uma gangue venezuelana nos meses que antecederam a captura, pelos EUA, do ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro. Depois, o governo ampliou sua justificativa, explicando ao Congresso que Trump havia determinado que os EUA estavam sob ataque de grupos de narcotráfico e que, portanto, todos os traficantes eram combatentes inimigos.

Nos últimos meses, o governo Trump passou a militarizar ainda mais o combate aos traficantes, tanto no mar quanto em terra na América Latina, pressionando líderes ideologicamente alinhados a permitir operações conjuntas com os EUA e a mobilizar de forma agressiva suas próprias forças de segurança contra grupos criminosos.

Autoridades do governo compararam a nova ofensiva “anticartéis” na América Latina à campanha militar contra a al-Qaeda e o Estado Islâmico. Desde o ano passado, o governo acrescentou cerca de 20 grupos latino-americanos à lista americana de organizações terroristas, preparando o terreno para ataques militares. Em agosto, o general Francis L. Donovan, comandante do Comando Sul dos EUA, ativou a força-tarefa militar permanente envolvida nos recentes ataques a embarcações, a Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental, para combater ameaças relacionadas ao narcotráfico em todo o hemisfério.

No mesmo mês, o Departamento do Tesouro dos EUA impôs sanções a uma rede de equatorianos que, segundo o órgão, havia auxiliado Los Choneros e outra gangue, Los Lobos, utilizando barcos de pesca para fornecer combustível, alimentos, suprimentos médicos e, em pelo menos um caso, drogas a lanchas rápidas que transportavam entorpecentes para cartéis mexicanos. Segundo o Tesouro, as embarcações maiores também ajudavam a monitorar a presença das forças de segurança.

Apesar dos questionamentos generalizados sobre a legalidade dos ataques militares contra embarcações, as autoridades americanas não parecem dispostas a recuar. Em 2 de setembro, o Comando Sul dos EUA publicou uma mensagem nas redes sociais para marcar um ano desde o início da operação de ataques a barcos e declarou:

“O Hemisfério Ocidental não é mais um refúgio seguro para o narcoterrorismo.”