A Guarda Revolucionária do Irã anunciou ter lançado ataques contra uma base americana na Jordânia e quase 20 navios no Golfo Pérsico, em um movimento que aprofunda a instabilidade regional e forçou o preço do barril de petróleo para um patamar acima dos US$ 100 (cerca de R$ 509 no câmbio atual) pela primeira vez desde julho. Agências de monitoramento confirmaram informaram sobre incêndios a bordo de embarcações, enquanto analistas afirmam que a postura mais agressiva de Teerã se trata de uma resposta ao aumento da pressão econômica americana e de um receio de que o controle sobre o Estreito de Ormuz possa estar escapando.
“Foram atacadas as instalações de manutenção e reparo, áreas de preparação e locais dos caças F-35, F-16 e F-15, infligindo danos graves ao inimigo”, informou a agência estatal IRNA, citando os militares, enquanto o Exército da Jordânia afirmou ter interceptado 18 de 20 mísseis disparados. Os outros dois, acrescentaram, teriam caído “em áreas desabitadas”.
As ações não ficaram restritas ao alvo militar. A Guarda Revolucionária também afirmou ter disparado contra duas embarcações americanas, oito petroleiros e outros dez navios que tentavam passar por Ormuz. A organização de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO) relatou que “vários navios mercantes no norte do Golfo Arábico e no Golfo de Omã” haviam sido “alvo de disparos que os deixaram inoperantes, como parte da atividade militar em curso na região”.
A força de elite iraniana havia emitido um aviso a “todos os petroleiros presentes nos portos do Kuwait e do Bahrein”, para que suas tripulações abandonassem as embarcações, consideradas alvos lícitos de ataques. A UKMTO relatou o caso de uma embarcação localizada a 44 Km a noroeste de Port Rashid, nos Emirados Árabes Unidos, que estava em processo de emborcamento, possivelmente devido a um ataque.
As ações iranianas ocorrem um dia após ataques americanos destruírem cinco petroleiros do país — quatro deles no Golfo de Omã, e um quinto perto da Ilha de Kharg. Os ataques de terça-feira, segundo Washington, foram resposta a tentativas de Teerã de atingir um navio de guerra americano, em duas ocasiões distintas. Em viagem pela América do Sul, o secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, advertiu que novos ataques contra alvos iranianos deveriam acontecer nesta quarta-feira.
— O Irã continua tentando atacar navios da Marinha dos EUA e, sempre que o fizerem ou tentarem fazê-lo, perderão petroleiros — disse Rubio, em uma declaração à imprensa na Colômbia. — Acredito que eles testemunharão isso novamente hoje.
As ações militares iranianas foram precedidas de indicações retóricas. O presidente do Parlamento do Irã, Mohammed Bagher Ghalibaf, afirmou no domingo que a era das “respostas proporcionais” aos ataques americanos havia acabado. O chefe de segurança do país, Mohsen Rezaei, anunciou planos para impor uma “zona restrita” à navegação no Golfo Pérsico, que iria além dos esforços do país para controlar o Estreito de Ormuz.
A Guarda Revolucionária do Irã forneceu mais detalhes sobre o plano nesta quarta, apontando que a nova “zona proibida” abrangeria partes do Golfo de Omã e além. O porta-voz da Guarda, Hossein Mohebi, afirmou que a área “começa aproximadamente na direção de Chabahar, cobrindo parte do Mar de Omã e outra parte do Mar Arábico”, prometendo que as coordenadas precisas seriam divulgadas em breve.
— Se uma embarcação entrar nessa área sem coordenação [com as forças iranianas], estará sujeita às nossas sanções — disse.
A retomada dos enfrentamentos em Ormuz não é o único fator de instabilidade a contribuir para a alta do petróleo. O recrudescimento do conflito entre o grupo rebelde Houthis e a Arábia Saudita, que apoia o governo internacionalmente reconhecido do Iêmen, tem pressionando o tráfego naval no Mar Vermelho e no Estreito de Bab el-Mandeb — uma situação que, se escalada, pode afetar profundamente uma das últimas vias de escoamento por mar da produção dos países do Golfo.
Disposição para escalada
Analistas apontam que os ataques iranianos vêm na esteira de uma escalada retórica por parte de autoridades políticas do país, demonstrando que Teerã pode estar disposto a dobrar a aposta de resistência aos EUA por meio da confrontação militar. Estudiosos relacionam a estratégia ao bloqueio americano, que está dificultando profundamente a exportação de petróleo, e ao sucesso parcial da escolta de petroleiros promovida pelas forças de Washington — que mesmo a um custo excessivo, tem aliviado ligeiramente os mercados e enfraquecido a ideia do controle iraniano na região.
— Como recuperar o ímpeto? Você escala — disse Farzan Sabet, analista de Irã no Geneva Graduate Institute, acrescentando que o país provavelmente tentará intensificar o confronto militar, ao mesmo tempo em que buscará evitar um retorno à guerra total. — É extremamente prejudicial, mas, ao mesmo tempo, eles esperam que isso eleve os preços globais do petróleo ou feche novamente, por completo, o Estreito de Ormuz.
A liderança iraniana acredita que este pode ser o melhor momento para elevar o nível de tensão, antes das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, em novembro, quando uma guerra impopular poderia prejudicar Trump e o Partido Republicano.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/Q/L/laWBNaQ7yiRYEBMvEpBg/116016784-motorists-drive-past-an-anti-us-billboard-in-tehran-on-august-24-2026-iran-responded-with.jpg)
— Todos os sinais apontam para um momento decisivo — disse Mohammad Ali Shabani, analista de Irã e editor do site regional de notícias Amwaj.media. — Não tenho certeza de que os iranianos vão esperar até depois das eleições para serem atacados caso a diplomacia fracasse.
A decisão do Irã de atacar dois navios de guerra americanos com mísseis balísticos, na terça-feira, representou uma escalada significativa, na avaliação de Hamidreza Azizi, analista sênior de Irã no International Crisis Group. Anteriormente, as forças iranianas não haviam feito nenhum esforço sério para atacar navios militares americanos e pareciam relutantes em realizar ataques que pudessem provocar um grande número de baixas americanas, disse Azizi.
— Esses cálculos obviamente mudaram — afirmou o analista, afirmando que a resposta massiva dos EUA aos ataques de terça-feira são um reconhecimento de que as capacidades iranianas evoluíram. — Os dois lados estão tentando estabelecer suas linhas vermelhas e empurrar as linhas vermelhas do outro lado o mais longe possível.
Antes do início da guerra, os EUA não acreditavam que Teerã fosse capaz de atingir com precisão bases militares americanas na região, na avaliação de Azizi. Contudo, nos últimos meses, Teerã demonstrou que consegue fazê-lo, inclusive com um ataque a uma base americana na Jordânia, em julho, que matou dois soldados americanos. O país poderia se tornar igualmente eficaz no ataque a frotas navais. (Com AFP e NYT)



