O popular ex-ministro da Defesa da Ucrânia Mykhailo Fedorov, cuja demissão no mês passado pelo presidente Volodymyr Zelensky provocou protestos nacionais, defendeu a realização de eleições no decorrer da guerra contra a Rússia — o que tem sido tratado como um tabu pelo atual governo, e que provavelmente abriria uma disputa com Zelensky. A Ucrânia não realiza eleições desde fevereiro de 2022, por força de uma lei marcial decretada desde então.
— Precisamos responder a uma pergunta fundamental: como um Estado deve funcionar se a guerra durar anos? A Rússia pode efetivamente receber o direito de ditar quando os ucranianos poderão escolher novamente seu governo? — afirmou Fedorov em um vídeo de nove minutos transmitido via redes sociais na noite de terça-feira. — Portanto, precisamos encontrar um mecanismo legal, seguro e realista que permita à Ucrânia restabelecer um processo democrático pleno mesmo em meio a uma guerra prolongada.
A manifestação do ex-ministro ocorreu um dia antes de o Parlamento em Kiev votar a nomeação de seu sucessor, Yevhenii Khmara, que vinha exercendo o cargo interinamente após ser nomeado por Zelensky. A liderança do partido do presidente no parlamento anunciou já nesta quarta-feira apoiar o nome do novo indicado à pasta da Defesa.
Aos 35 anos, Fedorov é muito popular entre milhares de jovens ucranianos, e seu pronunciamento será amplamente interpretado como um desafio ao atual governo. Embora não tenha se apresentado como candidato diretamente, a estética do pronunciamento, no qual aparece vestido com uma camisa preta de estilo militar, diante de uma escrivaninha de madeira, teve a aparência de uma declaração eleitoral.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev apontou que o ex-ministro ocupava a segunda colocação em termos de confiança da população, enquanto Zelensky ficava em quarto.
Fedorov foi afastado do cargo em uma reforma ministerial iniciada por Zelensky no mês passado. Em vez de deixar o cargo discretamente, o funcionário concedeu uma coletiva de imprensa na qual revelou seu conflito com o então comandante-chefe Oleksandr Syrskyi. Suas ações desencadearam uma crise interna no governo, que levou à demissão de Syrskyi. Como gesto conciliatório, Zelensky propôs que o ex-ministro da Defesa se tornasse vice-primeiro-ministro. Ele rejeitou.
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Sem troca de poder
Partidos políticos de oposição e cidadãos ucranianos têm reclamado do prolongamento indefinido do mandato de Zelensky, eleito em 2019 — depois de ganhar notoriedade como ator de comédia em uma ficção em que interpretava um presidente acidental da Ucrânia, que combatia a corrupção e o desperdício de recursos públicos.
Ele e outros líderes ucranianos argumentam que é impossível realizar eleições seguras e justas durante a guerra. A legislação poderia ser alterada para permitir eleições antes do fim do conflito, mas não está claro como seria realizada a votação para soldados, ucranianos que fugiram para outros países e pessoas que vivem em cidades da linha de frente sob constantes bombardeios russos.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, tem explorado a ausência de eleições para chamar Zelensky de presidente ilegítimo. O presidente americano, Donald Trump, e membros de seu círculo próximo ecoaram a argumentação em alguns momentos. Em dezembro, Trump disse que era hora de realizar eleições presidenciais na Ucrânia. Apesar dos rumores de eleições neste ano, nada se concretizou. A pressão a partir de Washington caiu à medida que as atenções se voltaram para a guerra contra o Irã.
Durante o período, Zelensky neutralizou politicamente potenciais adversários. O popular líder do Exército ucraniano durante os dois primeiros anos da guerra, o general Valery Zaluzhny, foi praticamente afastado, tornando-se o embaixador da Ucrânia no Reino Unido. O popular líder da inteligência militar, Kyrylo Budanov, foi nomeado chefe de gabinete de Zelensky. (Com NYT e Bloomberg)



