A divulgação de informações sobre a rápida redução dos estoques de munições dos Estados Unidos durante a guerra contra o Irã abriu uma nova frente de tensão dentro do governo do presidente americano, Donald Trump. Segundo altos funcionários ouvidos pela CNN, o presidente passou a reclamar reservadamente que os vazamentos fazem os EUA parecerem enfraquecidos em um momento decisivo das negociações com Teerã. Ao mesmo tempo, o episódio ampliou o desgaste do secretário de Defesa, Pete Hegseth — um dos principais defensores da campanha militar contra o Irã —, que enfrenta críticas pela condução da guerra tanto dentro da Casa Branca quanto entre parlamentares republicanos.
Segundo o Washington Post, durante uma reunião de Gabinete em Camp David na semana passada, o presidente cobrou explicações de Hegseth após acreditar que havia sido mantido sem informações precisas sobre o nível de esgotamento dos estoques americanos. De acordo com duas fontes ouvidas sob anonimato pelo jornal americano, Trump afirmou que pensava que o problema “já havia sido resolvido”. Hegseth, por sua vez, teria atribuído a falha ao vice-secretário de Defesa, Stephen Feinberg, afirmando que ele não havia garantido que Trump estivesse plenamente informado sobre a situação.
No entanto, segundo a CNN, Trump não demonstrou irritação apenas com a situação dos estoques militares, mas principalmente com a divulgação pública dessas informações. De acordo com seis pessoas familiarizadas com a reunião em Camp David, o presidente já tinha conhecimento havia meses das limitações do arsenal americano, mas ficou furioso porque os vazamentos ocorreram em um momento crucial da guerra, quando tenta projetar força nas negociações com o Irã.
Diante da repercussão das reportagens, Trump tentou rebater as informações na quinta-feira. Em publicação na rede Truth Social, afirmou que os EUA possuem “quantidades maciças de munições, especialmente de certos tipos”, acrescentando que “grandes quantidades estão sendo fabricadas e enviadas aos EUA conforme necessário”.
O republicano também atacou as reportagens e afirmou que os responsáveis pelos vazamentos “estão sendo caçados”, prometendo buscar “penas de prisão de longa duração” para quem divulgar esse tipo de informação.
Segundo autoridades ouvidas pelos dois veículos, Hegseth foi um dos principais incentivadores da ofensiva contra a República Islâmica e convenceu Trump de que a campanha seria rápida e relativamente simples. Cinco meses depois, porém, a guerra se prolonga, os estoques de munições diminuíram rapidamente e o governo passou a rever seus planos militares. Fontes ouvidas pelo Post afirmam que a escassez de mísseis guiados de longo alcance e interceptadores de defesa aérea levou Trump a recuar, nos últimos dias, da realização de novos ataques de grande escala contra alvos iranianos.
Escassez de munições
Nos últimos dias, diferentes veículos detalharam o impacto da guerra sobre o arsenal dos EUA. Segundo a Reuters, o Exército praticamente esgotou seus estoques de mísseis táticos Army Tactical Missile System (ATACMS) e Precision Strike Missile (PrSM), armamentos avaliados em mais de US$ 1 milhão cada (cerca de R$ 5,1 milhões). Já de acordo com a CNN, cerca de 80% dos interceptadores Terminal High Altitude Area Defense (THAAD) e aproximadamente metade dos interceptadores Patriot foram consumidos desde o início da guerra.
O Washington Post informou ainda que, somente no primeiro mês de combates, os EUA dispararam mais de 850 mísseis de cruzeiro Tomahawk, mais de mil interceptadores Patriot e THAAD e mais de 1.300 mísseis balísticos táticos. O consumo acelerado levou militares americanos a alterar os critérios para utilização de mísseis interceptadores, priorizando apenas ameaças consideradas mais relevantes.
A pressão sobre os estoques, porém, antecede o conflito. Antes mesmo do início da guerra, o presidente do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, havia alertado Trump de que os EUA não possuíam reservas suficientes para sustentar uma campanha militar prolongada. Segundo a CNN, os alertas incluíam não apenas o impacto sobre uma eventual guerra com o Irã, mas também o risco de comprometer os estoques destinados ao apoio militar dos EUA à Ucrânia e a Israel.
O ritmo intenso das operações agravou rapidamente esse cenário. Entre 28 de fevereiro e 7 de abril, data que marcou o início do cessar-fogo, as forças americanas atingiram mais de 13 mil alvos no Irã e interceptaram mais de 8.500 mísseis e drones iranianos, segundo o Washington Post.
Pressão sobre Hegseth
O desgaste provocado pela guerra também ampliou as dúvidas sobre a permanência de Hegseth como um dos principais nomes do governo Trump. Além da crescente irritação do presidente, o secretário de Defesa vem enfrentando perda de apoio dentro do próprio Partido Republicano.
Em entrevista ao jornal al-Jazeera, o senador republicano Thom Tillis afirmou que não confia mais em Hegseth.
— Não tenho mais nenhuma confiança nele. Acho que ele está completamente perdido — disse o parlamentar, acrescentando ter ouvido relatos de uma “perda de confiança” em relação à liderança do secretário dentro do Pentágono e dizendo que essas preocupações também circulam entre congressistas no Capitólio.
A guerra contra o Irã tornou-se um dos principais focos das críticas. Hegseth passou a ser responsabilizado por parlamentares pelo prolongamento do conflito, apesar de ter defendido, antes da ofensiva, que a campanha seria rápida. Desde o início da guerra, ele também foi chamado diversas vezes ao Senado para explicar os custos das operações militares e os pedidos de recursos adicionais destinados a recompor os estoques de armamentos.
O secretário já enfrentava desgaste antes mesmo da atual crise. Em 2025, tornou-se alvo de críticas após compartilhar informações sigilosas sobre ataques ao Iêmen em conversas por aplicativos de mensagens que incluíam pessoas sem autorização para receber esse tipo de informação, episódio que ficou conhecido como Signalgate. Ele também enfrentou questionamentos por autorizar operações militares contra pequenas embarcações próximas à Venezuela sob alegações de combate ao tráfico de drogas e ao terrorismo, medidas que foram alvo de críticas de especialistas em direito internacional.
As incertezas sobre sua permanência no cargo também alimentam especulações sobre o futuro político de Hegseth. A NBC News informou, nesta quinta-feira, que o secretário discutiu reservadamente a possibilidade de disputar o governo do Tennessee em 2027. Segundo a emissora, pessoas que conversaram diretamente com ele afirmaram que a hipótese foi considerada, embora assessores e o Pentágono neguem que ele pretenda deixar o Departamento de Defesa para disputar um cargo eletivo.
Apesar da crise atual, Hegseth continua sendo uma figura importante para Trump. Veterano das guerras do Afeganistão e do Iraque e ex-apresentador da Fox News, ele foi escolhido pelo presidente para comandar o Departamento de Defesa em 2024 e se tornou um dos principais defensores da agenda militar do governo.
Casa Branca nega atrito
A Casa Branca e o Pentágono rejeitam a versão de que Trump tenha confrontado Hegseth em Camp David. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, que participou da reunião de Gabinete, afirmou que a discussão “literalmente nunca aconteceu” e classificou a reportagem do Post como “100% falsa”. Segundo ela, o presidente mantém “total confiança” no secretário de Defesa. Já o diretor de comunicações da Casa Branca, Steven Cheung, classificou a publicação como “fake news”, de acordo com o jornal The Hill.
O Pentágono também negou as informações. Em nota, o principal porta-voz da instituição, Sean Parnell, afirmou que Hegseth “não enganou ninguém” sobre a situação dos estoques de munição e negou que ele tenha responsabilizado o vice-secretário pela falta de informações ao presidente. Segundo Parnell, as alegações sobre estoques esgotados, divergências internas e desentendimentos entre Trump e Hegseth são “igualmente fictícias”.
Segundo a CNN, integrantes da Casa Branca sustentam que a irritação do presidente não é direcionada a Hegseth, mas aos responsáveis pelos vazamentos das informações sobre os estoques militares.
— Ele nunca culpou Pete. Toda essa questão é sobre os responsáveis pelos vazamentos — afirmou um funcionário do governo.
O próprio Trump também procurou desvincular Hegseth da controvérsia. Em publicação na Truth Social, afirmou estar “extremamente satisfeito” com o trabalho do secretário.
“Tudo tem sido extraordinário, incluindo nosso ataque à Venezuela, cujo resultado foi alcançado em menos de um dia, permitindo que levássemos um dos piores criminosos do mundo, Nicolás Maduro, à Justiça!”, escreveu Trump. “Da mesma forma, o Irã, onde o país foi devastado com o objetivo de IMPEDIR QUE TENHA UMA ARMA NUCLEAR, está indo muito bem!”
Nesta semana, o secretário de Defesa também participou de um evento na Casa Branca ao lado da esposa, Jennifer Hegseth, escolhida por Trump para presidir a primeira Comissão de Cônjuges de Militares dos EUA. Durante a cerimônia, Jennifer agradeceu ao presidente por “colocar as famílias militares em primeiro lugar” e afirmou que a comissão trabalhará em defesa dos cônjuges e familiares de militares.
Reposição deve levar anos
Embora o Pentágono tenha anunciado nesta semana novos acordos com as empresas Northrop Grumman e Lockheed Martin para ampliar a produção de componentes dos interceptadores Patriot PAC-3 e THAAD — cuja fabricação deverá ser triplicada e quadruplicada, respectivamente —, especialistas afirmam que os contratos não resolverão o problema no curto prazo.
Segundo Brad Bowman, diretor sênior da Fundação para a Defesa das Democracias, a indústria de defesa ainda depende da assinatura definitiva dos contratos e da aprovação de recursos pelo Congresso antes de ampliar efetivamente a produção. Mesmo após essa etapa, a recomposição dos estoques pode levar até dois anos.
Enquanto isso, a escassez de armamentos continua limitando as opções militares dos EUA em um conflito que, ao contrário das expectativas iniciais da Casa Branca, se transformou em uma guerra longa, custosa e cada vez mais desgastante para Trump e sua equipe de segurança nacional.
(Com AFP)



