Foi com sigilo máximo que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)André Mendonça tratou do pedido que fez na semana passada para que a Polícia Federal identificasse interlocutores de algumas mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro. A conversa citava conteúdos graves, como pedido de blindagem por meio do chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O retorno veio em 72 horas, prazo dado pelo ministro para que a PF identificasse os interlocutores das mensagens enviadas pelo banqueiro. Seu colega no STF, Alexandre de Moraes, era o receptor das mensagens que Vorcaro trocava sobre a Operação Compliance Zero, que viria a prendê-lo no fim de 2025. Mendonça não deu nem mesmo à PGR ciência do relatório policial que mostrava as conversas entre o banqueiro e Moraes.
No fim de semana, o ministro, que é o relator das investigações do Banco Master, procurou o presidente do STF, Edson Fachin, e relatou o conteúdo bombástico das mensagens. Como informou a colunista Malu Gaspar, o presidente da Corte não escondeu o temor pelo desgaste que o Supremo pode amargar com a crise em plena campanha eleitoral. Mendonça também se reuniu com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, que, assim como ele, foi indicado ao tribunal por Jair Bolsonaro. Além de tratar de temas eleitorais, Mendonça falou sobre o conteúdo das mensagens e disse que o material seria remetido à PGR.
Na segunda-feira (31), ministros relataram que o clima de que uma “bomba estava prestes a estourar” pairava no tribunal. Veio a explosão. Alexandre de Moraes teve conhecimento do relatório policial em que aparece sua troca de mensagens com Vorcaro. Irritado, buscou Mendonça e o bate-boca começou. Acusou Mendonça de investigar colegas da Corte. O relator do caso Master rebateu, dizendo que fez o pedido sem saber quem era o interlocutor e questionou como Moraes teve acesso ao documento, que ainda era sigiloso.
Segundo aliados de Moraes, foi só depois do “calor” que houve entre ele e Mendonça que o ministro decidiu encaminhar o documento para a PGR se manifestar. Já interlocutores de Mendonça relataram que o ministro já iria encaminhar o relatório, que também cita o procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao órgão que ele chefia.
O documento foi encaminhado à PGR e, na terça-feira (1º), as mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro se tornaram públicas, por ordem do ministro. A essa altura, os ministros do STF já estavam em polvorosa. A ala ligada a Moraes saiu em defesa do magistrado, em reservado. O principal argumento a favor dele é questionar a legalidade das ações feitas por Mendonça. Para esses ministros, o relator do caso Master teria ferido o rito do tribunal ao investigar um colega da corte sem a autorização do presidente do STF ou do plenário.
Integrantes do gabinete de Mendonça argumentam que ele não investigou colegas e que dirigiu o pedido à PF para saber quem eram os destinatários das mensagens com Vorcaro, sem saber que Alexandre de Moraes seria citado.
O caso também fez entornar de vez o caldo com a Polícia Federal. A decisão de Mendonça causou revolta e indignação no diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. A interlocutores, o delegado acusa Mendonça de atuar de maneira ilegal, cometendo abuso de autoridade e desvio de finalidade. A crítica central é que Mendonça assumiu a função de investigador, o que não compete ao juiz. A mesma crítica passou a ser entoada por aliados de Gonet e ministros do STF ligados a Moraes.
O caso agora será decidido no plenário do STF, a pedido do relator e deixará claro se Mendonça ou Moraes ganhará a queda de braço. Seja qual for o desfecho, o fato é que o STF hoje vive uma crise sem precedentes.



