Por matéria depreciativa aos povos indígenas do Acre publicada, site da capital acreana foi obrigado mediante termo de ajustamento de conduta a se retratar publicamente.
A reportagem publicada ofendia aos povos Huni Kui e Yawanawá. A matéria original, que já foi retirada do ar, associava a aberturas das rotas de turismo nas aldeias do estado, ao uso de drogas e prostituição. Sem embasamento jornalístico, o site apenas publicou a opinião de um indígena que se opõe à abertura das aldeias para o turismo, sem conhecer a realidade da atividade nas aldeias acreanas.
O processo de abertura das aldeias indígenas acreana a diferentes modelos de visitação, tem sido um processo lento e gradual, iniciado ainda nos anos 2000 com os primeiros festivais. De lá para cá, muito debate tem sido realizado nas aldeias para a implantação desse etnoturismo. As aldeias que optaram por aderir às rotas de etnoturismo estabelecem um calendário de atividades e agendamento de grupos de acordo com seu interesse e necessidade, sem interferir nas atividades tradicionais de agricultura, pesca e caça e no ambiente de convivência familiar.
O lançamento das rotas de etnoturismo pelo Estado do Acre ocorreu durante o governo Tião Viana com participação ativa das organizações indígenas. A atividade continua sendo apoiada pelo atual governo Gladson Cameli, que recentemente esteve em visita na Terra Indígena Yawanawá.
A retratação ocorreu por via judicial a partir de mobilização da Federação do Povo Huni Kui – FEPHAC que representa a totalidade de associações do povo Huni Kui, com população estimada em 3.500 pessoas, vivendo em diferentes territórios no Acre.
Segue a Nota Publica de Retratação
NOTA PÚBLICA DE RETRATAÇÃO
“Por força do Termo de Ajustamento de Conduta n. 2/2020, firmado com o Ministério Público Federal, a Federação do Povo Huni Kui do Estado do Acre – FEPHAC, no inquérito civil n. 1.10.000.000657/2019-93, este veículo de comunicação se retrata publicamente pedindo desculpas para toda comunidade indígena e acreana, e reconhece que a matéria intitulada “turismo indígena atrairia gringos, dinheiro e drogas para as aldeias do Acre” (em referência específica ao povo Huni Kui e Yawanawa) apresentou conteúdo equivocado e distorcido, não condizente com a realidade. A notícia repercutiu como conotação de racismo e preconceito étnico e social em meio aos parceiros e apoiadores da causa indígena.
E a fim de ressaltar a importância da valorização da cultura indígena, este jornal publicita o apreço a todos os povos indígenas, em especial aos do Estado do Acre, e com isso, se compromete a trabalhar respeitando os termos da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e da Convenção n. 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que reconhecem, respectivamente, aos povos indígenas a sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam (art. 231, da CF), bem como a consulta livre, prévia e informada antes de serem tomadas decisões que possam afetar seus bens ou direitos (obrigação estatal de consulta).”

