Extensão de cessar-fogo revela posição frágil de Trump em negociação com Irã
Horas antes do fim do prazo dado por ele mesmo para um cessar-fogo na guerra contra o Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a extensão por tempo indeterminado da trégua, para que os iranianos apresentem uma proposta unificada. Foi o desfecho, ao menos temporário, para um perigoso impasse sobre o futuro do conflito, e que marcou ao menos o sétimo recuo de Trump em uma guerra na qual se declara vencedor.
Até as primeiras horas da terça-feira, havia a expectativa de que o vice-presidente dos EUA, JD Vance, embarcaria rumo a Islamabad para chefiar a segunda rodada de negociações com o Irã, tal como o fez há cerca de duas semanas. Nos bastidores, os americanos acreditavam que ao menos uma extensão da trégua seria obtida à mesa.
Segundo iranianos e paquistaneses, a trégua terminaria às 21h desta terça-feira, pelo Horário de Brasília, enquanto os EUA consideravam que a pausa seria válida até a noite de quarta-feira. Não estava claro o que aconteceria se o prazo terminasse sem acerto. Na véspera, Trump disse ser “extremamente improvável” concordar com mais tempo para a diplomacia, e sugeriu que poderia atacar alvos do setor de energia e instalações civis.
Mas no final da tarde de terça, ele estendeu o cessar-fogo por tempo indeterminado.
“Considerando que o governo do Irã está seriamente fragmentado, o que não surpreende, e a pedido do marechal de campo Asim Munir e do primeiro-ministro Shehbaz Sharif, do Paquistão, fomos solicitados a suspender nosso ataque ao Irã até que seus líderes e representantes apresentem uma proposta unificada”, escreveu no Truth Social.
Desde a semana passada, Trump tratava as novas conversas como fato consumado, e chegou a dizer que os iranianos “concordaram com tudo”, se referindo a possíveis concessões em seu programa nuclear, incluindo a suspensão do enriquecimento de urânio e o envio de material enriquecido aos EUA. Ele prometeu um acordo “melhor” do que o assinado em 2015 por Barack Obama, que conseguiu impor limites às atividades nucleares iranianas, até ser rasgado pelo republicano em 2018. Sempre que possível, declarava-se o vencedor da guerra, e travava as críticas como atos de “anti-americanismo”.
“A mídia de notícias falsas anti-americana está torcendo para que o Irã vença, mas isso não vai acontecer, porque eu estou no comando!”, escreveu no Truth Social, na segunda-feira à noite. “Assim como essas pessoas antipatrióticas usaram cada grama de sua força limitada para me combater nas eleições, elas continuam fazendo o mesmo com o Irã.”
Não se sabe o que foi discutido nos bastidores, mas em público Teerã jamais confirmou sua participação nas conversas em Islamabad. Representantes do regime dizem que não pediram a extensão do prazo.
— Ao longo das negociações, Trump se comportou como se os americanos estivessem vencendo a guerra, e como se isso lhes permitisse extrair concessões do Irã, o que é uma visão muito questionável — afirmou Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, ao GLOBO. — Ao menos do ponto de vista econômico, o Irã demonstra uma capacidade maior de influenciar os acontecimentos do que os EUA. Um exemplo é o fechamento do Estreito de Ormuz.
A passagem, por onde em tempos de paz trafegam 20% das exportações globais de petróleo e gás, está praticamente fechada pela Guarda Revolucionária desde o início de março, e nem as ameaças de Trump forçaram sua reabertura. No começo do mês, ele disse que “uma civilização iria morrer” se não houvesse um acordo para reabrir o estreito. A fala, considerada por si só um crime de guerra, angariou críticas até em sua base mais fiel nos EUA, e levou ao cessar-fogo temporário de duas semanas, agora ampliado indefinidamente.
Na semana passada, Trump determinou um bloqueio naval aos portos iranianos e a todas as embarcações de bandeira do Irã, que desviou dezenas de navios e foi além de simples alertas. No domingo, um navio cargueiro no Golfo de Omã foi atacado e capturado, e nesta terça-feira, um petroleiro foi abordado no Oceano Índico. Segundo diplomatas, neste momento o bloqueio é o ponto mais sensível das conversas, e deixou à mostra fissuras na República Islâmica, mencionadas pelo republicano no Truth Social.
A Guarda Revolucionária expôs publicamente a insatisfação com o anúncio feito pelo chanceler, Abbas Araghchi, na sexta-feira passada, de que Ormuz estava “completamente aberto”, apesar do bloqueio naval. Araghchi foi criticado na imprensa oficial, suas declarações retificadas e, no sábado, o estreito voltou a ser fechado a quase todos os navios. Desde então, o país passou a condicionar sua ida a Islamabad ao fim do bloqueio. Segundo o portal Axios, os paquistaneses pediram a pausa para dar tempo ao novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, dar ordens claras e uniformes aos negociadores, o que pode acontecer até quarta-feira. Mas por enquanto, as restrições seguem em vigor
“Ordenei que nossas Forças Armadas continuem o bloqueio e, em todos os outros aspectos, permaneçam prontas e aptas, e, consequentemente, estenderei o cessar-fogo até que sua proposta seja apresentada e as discussões sejam concluídas, de uma forma ou de outra”, escreveu no Truth Social.
O Irã não se pronunciou até a noite de terça-feira. Em despacho, a agência Mehr News disse que o republicano foi “forçado a estender o cessar-fogo”. Em análise, a agência Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, afirma que o recuo mostra que Trump “perdeu a guerra”. Para Mahdi Mohammadi, conselheiro do presidente do Parlamento, Mohammad Bagher-Ghalibaf, o plano dos EUA é ganhar tempo para um ataque surpresa. Em Washington, assessores da Casa Branca afirmaram privadamente, de acordo com a rede CNN, que os iranianos poderiam usar a ausência de prazos para arrastar as conversas — as negociações para o acordo nuclear de 2015 levaram quase dois anos.
Seja qual for o motivo, uma impressão ficou no ar: a de que o presidente recuou, pela sétima vez, em uma guerra da qual não sabe como sair, quando sua aprovação está no ponto mais baixo do atual mandato, 36%, segundo pesquisa da Reuters. Como escreveu um analista do jornal britânico Guardian, mais um episódio do chamado “Taco”, sigla em inglês para a expressão “Trump sempre amarela”, agora em sua versão persa
— Quando ele inicia esse novo ciclo de guerras contra o Irã, Trump tem problemas para vender isso à sua base eleitoral. As pesquisas mostram que o apoio à guerra é baixo nos EUA, o eleitor está preocupado com a inflação, e isso pode influenciar nas eleições de meio de mandato. — opina Santoro. — Para ele, é complicado equilibrar essas demandas contraditórias, o que ele quer e o que os eleitores esperam dele, e isso leva a um discurso mais descolado da realidade, mais afastado do que acontece no campo de batalha.