A floresta amazônica ainda demonstra capacidade de se recuperar de queimadas e outros eventos de degradação, mas esse processo tem limites e depende diretamente das condições ao seu redor. A conclusão é de um novo estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), publicado na revista científica PNAS.
O monitoramento teve início em 2004, na Estação de Pesquisa Tanguro, no sul do Mato Grosso, região apontada por modelos climáticos como uma das mais vulneráveis a secas extremas e incêndios. Os pesquisadores simularam três cenários distintos: uma área queimada anualmente, outra queimada a cada três anos e uma área de controle, sem fogo.
Os resultados surpreenderam. Ao contrário do esperado, as queimadas menos frequentes causaram impactos mais severos do que as anuais. “O fogo a cada três anos gera maior intensidade, com chamas mais altas, porque há acúmulo de biomassa no solo, o que ultrapassa a resistência das árvores e aumenta a sua mortalidade”, explicou Leandro Maracahipes, pesquisador associado do IPAM e autor principal do estudo.
Secas extremas registradas em 2007 e 2010 agravaram ainda mais o quadro, elevando a mortalidade das árvores em até 30%. Em um dos eventos monitorados, uma tempestade de vento derrubou 5% das árvores em uma única ocorrência — volume equivalente à mortalidade esperada ao longo de um ano inteiro.
As bordas da floresta foram as áreas mais afetadas. Segundo o pesquisador Paulo Brando, também do IPAM, o desmatamento compromete não apenas a área diretamente derrubada, mas também fragiliza a floresta ao redor. “As bordas desses fragmentos são especialmente críticas, já que é ali que a maioria dos incêndios começa, quase sempre por ação humana”, alertou.
Apesar do cenário preocupante, o estudo identificou sinais de regeneração nas áreas monitoradas, desde que os distúrbios sejam controlados e haja florestas conservadas nas proximidades. A dispersão de sementes por animais, como a anta, é apontada como fator essencial para esse processo. “A anta ajuda a levar sementes de espécies mais resistentes, de crescimento lento, que estocam carbono por centenas de anos. Sem essa dispersão, o processo de regeneração fica comprometido”, destacou Maracahipes.
Os autores ressaltam, no entanto, que a recuperação observada não representa um retorno completo ao estado original da floresta. “Mesmo sob enorme pressão, nossas florestas experimentais não perderam sua capacidade fundamental de permanecer florestas. Esse é um achado significativo e, com cautela, sim, é um motivo para otimismo”, afirmou Brando.
Para os pesquisadores, conter o desmatamento e manter a conectividade entre as áreas florestais são medidas essenciais para evitar que a Amazônia se aproxime do chamado ponto de não retorno — momento em que a floresta perderia definitivamente sua capacidade de se regenerar. “Se controlarmos os distúrbios e mantivermos as fontes de sementes e os animais dispersores, a floresta tem capacidade de se recuperar. Mas esse processo tem limites e depende diretamente das nossas ações”, concluiu Maracahipes.

