No extrato bancário, o roteiro se repete: o salário cai, a fatura é paga, o limite é liberado e, em poucas horas, o dinheiro some de novo. Para uma geração que estreia no sistema financeiro com um cartão de crédito antes mesmo de ter renda estável, a promessa de independência virou uma espécie de armadilha silenciosa. O que começou como autonomia, sem precisar pedir autorização aos pais, tem se transformado em um ciclo silencioso de dependência: paga-se a dívida para poder voltar a gastar.
Danielly de Fátima, Everyn Rodrigues e Nathalia Ruhana conhecem, cada um à sua maneira, esse roteiro. Com poucos cliques, tiveram acesso a limites, parcelamentos e até empréstimos antes de conquistar estabilidade financeira. O que apareceu primeiro como autonomia virou, para muitos, uma espécie de teto de vidro: trava planos como financiar uma casa, comprar um carro ou simplesmente reorganizar a vida.
— Hoje estou no looping do cartão: você paga e fica sem dinheiro; paga e fica sem dinheiro de novo — resume Danielly, de 28 anos, estudante de Ciências Sociais.
Dados do Banco Central (BC) mostram que o número de jovens com acesso ao crédito dobrou em oito anos, passando de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024 — números mais recentes disponíveis. Pelo critério do BC, jovens são pessoas de 15 a 29 anos de idade. O avanço foi puxado sobretudo pela população de menor renda: cerca de 70% desses jovens ganham até dois salários mínimos.
Ao mesmo tempo, a digitalização multiplicou as portas de entrada no sistema financeiro. Hoje, o brasileiro mantém, em média, de 6 a 7 relacionamentos com instituições financeiras, entre bancos, fintechs e aplicativos. Na prática, isso significa múltiplos cartões, contas e limites, o que dificulta o controle das finanças.
A entrada massiva dos jovens no sistema financeiro está diretamente ligada à digitalização. Ainda segundo o BC, 96,4% dos adultos brasileiros já têm conta bancária ou de pagamento, e 88% são usuários ativos. E o celular virou o principal canal, o volume de transações financeiras feitas por telefone cresceu seis vezes entre 2020 e 2024. O Pix, cartões e crédito instantâneo transformaram o dinheiro em algo quase invisível e imediato.
Everyn, de 25 anos, também percebeu que a facilidade dos pagamentos digitais mudou sua relação com o dinheiro. Em sua visão, o pagamento por aproximação e o aumento automático de limites reduzem a percepção do gasto.
— Os bancos digitais vão dando limite: “Te dou R$ 2.500, agora R$ 5 mil”, e você acaba não percebendo quanto tem ao certo. Quando acha que sua fatura está em R$ 300 ou R$ 400, já passou de R$ 1.500 — diz.
Depois de perceber que a conta estava vindo muito alta, Everyn passou a manter o NFC desativado, limitar o próprio cartão e usar ferramentas dos aplicativos, como as “caixinhas”, para administrar melhor o dinheiro.
O avanço do crédito entre os jovens já se reflete nos indicadores de inadimplência. Dados do Serasa mostram que o Brasil tinha 82,8 milhões de pessoas inadimplentes em março de 2026. Entre elas, os jovens de 18 a 25 anos representam 11,2% do total, enquanto a faixa de 26 a 40 anos concentra 33,5% dos devedores. Embora não sejam maioria, os mais novos aparecem de forma relevante no início da vida financeira, o que acende um alerta para o risco de que o endividamento se torne precoce e persistente ao longo dos anos. O governo detalha hoje o novo programa de renegociação de dívidas, para reduzir débitos com cartão, cheque especial e crédito pessoal não consignado.
Gasto maior
O descompasso entre renda e limite aparece no relato de Nathalia Ruhana, de 23 anos. Ela conta que recebeu um cartão com limite de R$ 2 mil quando ganhava R$ 700. O crédito, que parecia uma ajuda para despesas pessoais e da família, acabou abrindo caminho para a inadimplência.
— Era um suporte, não só para mim, mas para minha família, e foi se criando uma bolha muito difícil de sair. É muito fácil se endividar — afirma.
Os efeitos desse novo modelo já aparecem no comportamento financeiro. Segundo levantamento “Raio-X do Investidor Brasileiro”, da Anbima em parceria com o Datafolha, cerca de um terço da população gasta mais que ganha. Entre essas pessoas, dívidas em atraso são mais frequentes, enquanto investimentos e reserva de emergência são raros. O impacto não é apenas financeiro: quase metade dos brasileiros apresenta alto nível de estresse com dinheiro.
Marina Lima, de 26 anos, teve o primeiro cartão quando estava no estágio, com limite de cerca de R$ 400, valor que ela conseguia pagar mesmo se usasse tudo. Durante a pandemia, porém, a ruptura na renda da família mudou a relação com o crédito. Com o principal provedor fora das despesas da casa, ela passou a custear boa parte dos gastos domésticos. Entre pagar os cartões e garantir o básico, escolheu sustentar a casa.
— Meu nome foi negativado e ainda está até hoje. É angustiante se ver muito jovem com o nome sujo. Hoje eu não conseguiria financiar uma casa ou um carro — relata.
Coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV EAESP, Claudia Yoshinaga diz que o dinheiro exibido como número na tela muda a percepção de capacidade de consumo. Segundo ela, o limite passa a ser visto não como antecipação de renda futura, mas como extensão do poder de compra presente.
— Essa confusão conceitual é o ponto de partida de muitos ciclos de endividamento — afirma.
Para a professora, os aplicativos financeiros funcionam como “máquinas de redução de fricção”: eliminam etapas, simplificam a linguagem e usam interfaces pensadas para decisões rápidas:
— Um exemplo concreto: a apresentação do valor da parcela, em vez do custo total do crédito, é uma escolha de design. Mostrar “12x de R$ 89” em destaque e o valor total em fonte menor não é aleatório. Reguladores em vários países já reconhecem isso e começam a exigir maior proeminência do custo efetivo total, mas a implementação ainda é inconsistente e não elimina todas as armadilhas.
Esse desenho reduz o que especialistas chamam de “dor do pagamento”. A psicóloga Denise Milk explica que, quando o gasto é digital, por aproximação ou parcelado, a pessoa percebe menos a perda. No parcelamento, o custo total se fragmenta, e o consumidor se conecta mais com o valor da parcela do que com o impacto acumulado da dívida.
— Isso produz uma espécie de anestesia financeira. A compra parece menor do que realmente é. Só depois, quando várias parcelas se somam, a realidade aparece, geralmente acompanhada de culpa, ansiedade e sensação de descontrole — afirma.
Para jovens, esse ambiente é especialmente sensível porque coincide com uma fase de construção de identidade, comparação social e busca por autonomia. Denise avalia que o consumo muitas vezes aparece como linguagem de pertencimento — no celular, na roupa, na viagem, na experiência ou no estilo de vida. As redes sociais ampliam essa pressão ao transformar a vida dos outros em vitrine permanente.
— O crédito entra como uma ponte perigosa entre a vida possível e a vida desejada — diz.
Inclusão financeira
A expansão do crédito, no entanto, não é necessariamente um problema. Pix, fintechs e contas digitais ampliaram a inclusão financeira, reduziram custos e levaram serviços a pessoas que antes estavam fora do sistema bancário.
Além disso, embora o número de investidores tenha crescido — chegando a 36% da população em 2025 —, a Geração Z se destaca com 37% de investidores, superando a Geração X e os Boomers. No entanto, essa base ainda é frágil, a reserva dessa geração é a de menor duração, com 57% afirmando que o dinheiro duraria menos de seis meses.
O estudo da Anbima mostra que a Geração Z apresenta a maior diversificação de investimentos, utilizando menos a poupança e explorando mais produtos como títulos privados, fundos, ações e criptomoedas.
A educação financeira, embora mais presente do que em outras faixas etárias, ainda é limitada: cerca de três em cada dez jovens da Geração Z participaram de cursos ou palestras sobre o tema, refletindo uma base de conhecimento que ainda precisa amadurecer para garantir segurança financeira a longo prazo.
Se antes a entrada no sistema bancário acontecia de forma gradual — primeiro salário, conta, poupança e só depois crédito —, hoje muitos jovens começam pelo cartão, pelo parcelamento ou pelo empréstimo pré-aprovado. Para Henrique Castro, professor de finanças da FGV EESP, trata-se de uma “antecipação radical” do ciclo de crédito.
— Antigamente, o jovem entrava no ciclo de crédito quando conseguia o primeiro emprego formal e o gerente liberava um cartão com limite baixo. Hoje, o crédito chega antes da renda — afirma.

