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Brasil

Empresas brasileiras dão os primeiros passos no mercado de cannabis medicinal

Por Isto É. 03/05/2026 08:32 Atualizado em 03/05/2026 08:32
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O potencial do mercado de cannabis medicinal no Brasil é de R$ 9,5 bilhões, segundo a consultoria especializada Kaya Mind, mas segundo seu último anuário, publicado no final de 2025, o volume hoje desse mercado está longe desse potencial. Apesar da expansão de 22%, em 2024, e outros 14%, em 2025, não alcançou R$ 1 bilhão no ano passado. O número de pacientes que fazem uso da cannabis medicial é de cerca de 873 mil, mas a Kaya calculada que o potencial de pessoas que poderiam ser tratadas com a cannabis medicinal se aproxime de 7 milhões.

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Esse distanciamento, no entanto, deve diminuir após a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ter aprovado uma resolução que autoriza o cultivo de cannabis medicinal no Brasil por empresas habilitadas, desde que atende a critérios restritos, e que seja exclusivamente para a produção de medicamentos e outros produtos sujeitos à regulação sanitária. Na prática, a agência autoriza pesquisas no segmento de cannabis medicinal, o que abre caminhos para empresas – especialmente as farmacêuticas – apostarem em negócios nesse nicho.

Uma estatal está entre as interessadas em entrar nessa corrida. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) vê o cânhamo, a planta que dá origem à cannabis e seus derivados, com potencial para ser a nova fronteira agrícola brasileira, assim como foi com feito seu trabalho com a soja, há 50 anos.

Ainda no final de 2025, a Embrapa já havia recebido o sinal verde da Anvisa para avançar em suas pesquisas com cannabis focadas em melhoramento genético para fins medicinais e uso de suas fibras. Para além de medicamentos, as pesquisas na Embrapa pretendem encontrar a melhor produtividade da planta para outros derivados. Seu uso pode ser  como fibra, assim como o algodão, para cosmético, uso veterinário e até mesmo para recomposição de solos degradados. Quatro unidades da Embrapa espalhadas pelo país participam do projeto.

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De pesquisador a empreendedor

Com origem também no ambiente de pesquisas, as empresas do agrônomo Sérgio Barbosa Ferreira Rocha buscam aumentar o potencial de exploração. Lá em 2020, Sérgio teve a primeira autorização dada a uma pessoa física para o cultivo com fins de pesquisa. Na época, para seu mestrado em agronomia, dentro da área de fitotecnia (melhoramento de plantas, recursos genéticos e biotecnologia), na Universidade de Viçosa (MG).

Agora, Sérgio atua em três frentes de negócios. A ADWA Cannabis, com foco em pesquisas. “Uma escala de investimentos na casa de milhões”, diz. A Dugreen, voltada para insumos para o cultivo, como fertilizantes, que passa para uma fase de escalar os negócios, “buscando recursos na casa de milhares de reais”. A Cannalise, uma espécie de ‘consultoria’ ou assessoramento na parte de qualidade dos cultivos e produtos, está mais ligada aos cultivos associativos, ou domésticos, que devem crescer exponencialmente após a nova regulamentação da Anvisa.

“Embora existam caminhos, o acesso à qualidade para isso ainda é difícil. Foi uma demanda que surgiu ao longo desses anos, dentro da pesquisa tinha essa dificuldade também, de custo e tempo para as análises”, relata ele.

Já a Ease Labs tem uma origem no ambiente de negócios e foco na exploração de um mercado visto com amplo potencial pelos seus fundadores, Gustavo Palhares e Guilherme Franco, que operam como CO-CEOs da empresa desde sua fundação, há sete anos. Saíram de suas carreiras na área de Direito (M&A) e no mercado financeiro, respectivamente, para apostar, primeiramente com fitoterápicos.

Com a evolução dos negócios, passaram a se dedicar exclusivamente a produtos de cannabis medicinal, que estão na fase final de processamento no Brasil, antes de serem distribuídos para a rede farmacêutica tradicional do país. Em 2024, deram um passo já na expectativa de um ambiente regulatório mais favorável no Brasil.

Compraram a colombiana Plena, com experiência no processo de exploração de uso sanitário da cannabis. Sua referência no segmento é tamanha, que foi modelo para a Anvisa (que esteve na Colômbia para conhecer a operação) no processo da resolução de autorização no Brasil. O valor da operação não é revelado.

Processo de envase de medicamentos com cannabis medicinal (Divulgação/Ease Labs) (Crédito:Divulgação/Ease Labs)

Essa operação coloca a Ease Labs em um processo verticalizado na exploração do mercado de cannabis medicinal, do cultivo à rede farmacêutica. “Vamos trabalhar tanto para fins comerciais como para pesquisa. Estamos bem posicionamos para ser pioneiros no Brasil”, afirmou Gustavo à IstoÉ Dinheiro.

Na Colômbia, conta Gustavo, são mais de 500 cultivares da planta (variedades selecionadas/com melhoramento genêtico). Isso dá uma vantagem competitiva para a Ease, até porque, entre os critérios da Anvisa, está o limite de 0.3% de de THC (princípio ativo da cannabis) que as plantas podem ter no Brasil, um desafio técnico no país, uma vez que o clima por aqui tende a produzir plantas com percentual maior que esse. “O mais importante da aquisição foi assumir o know how de ter o cultivo para fins farmacêuticos. Hoje a gente detém genéticas que cumprem esse limite da Anvisa”, diz Gustavo.

Cultivo com sementes importadas

Alko do Brasil, farmacêutica de gestão familiar no Rio de Janeiro, também apostará suas pesquisas nesse nicho. A companhia já atua com medicamentos canábicos, mas por meio de importação. Agora, contratou um agrônomo especialista para uma unidades de cannabis.

“A primeira fase desse arcabouço regulatório [em cannabis medicial], ele não era muito adequado em termos de competição de mercado. Essa nova liberação da Anvisa foi um processo longo e extremamente rígido”, afirma o agrônomo e head de Operações da Alko, Dennys Zsolt Santos.

A Alko já atua no segmento de cannabis, mas por meio de importação. Agora, está investindo – com capital próprio – na exploração do cultivo da planta para fins de pesquisa, que deve cumprir uma série de exigências da Anvisa (como segurança sanitária, controle de acesso ao local etc).

Por enquanto, o cultivo será com sementes importadas de três países: Itália, Austrália e África do Sul. A partir disso, serão feitos testes de adaptação ao solo e clima locais. A exploração do cultivo foi autorizado pela Anvisa a partir de agosto do ano passado e a agência reguladora tem atuado nas visitas técnicas para aprovação de cultivo.

“Até o final deste ano, será o piloto. Vamos fazer o desenvolvimento de ensaios de sementes certificadas no Brasil para os primeiros insumos, ver como vai se comportar e se expressar no território brasileiro, para ter uma certeza por meio de ensaios em campo e para garantir o perfil químico da planta diante de fatores agroambientais, inclusive atendendo aos critérios permitidos pela Anvisa”, conta Santos.

Por questões de segurança, o local do cultivo não é divulgado.  “Temos potencial de virar um player global”, acredita Juliana Oliveira, co-CEO da Alko do Brasil.

O que estabeleceu a nova resolução da Anvisa

No começo de fevereiro a Anvisa publicou as Resoluções da Diretoria Colegiada (RDCs) que regulamentam a produção de cannabis com fins medicinais no Brasil, além do novo marco regulatório para a fabricação e importação de produtos de cannabis.

As três resoluções atendem à determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em novembro de 2024, a Corte definiu a legalidade da produção “para fins exclusivamente medicinais e/ou farmacêuticos atrelados à proteção do direito à saúde”. As normas publicadas entram em vigor seis meses após a publicação, ou seja, em agosto deste ano. São elas:

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