O surto de ebola na República Democrática do Congo (RDCongo) e em Uganda levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar emergência de saúde pública de interesse internacional, o segundo nível mais elevado de alerta.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, está “profundamente preocupado com a escala e a velocidade” do surto da doença, que atinge esses países e que já provocou 131 mortes e 513 casos suspeitos. A Organização das Nações Unidas (ONU) vai convocar o Comitê de Emergência.
“Vamos convocar, nesta terça-feira [19], o Comitê de Emergência para nos aconselhar sobre recomendações temporárias”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, no segundo dia da assembleia anual dos Estados-membros da OMS.
O diretor declarou no domingo (17) Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional, o segundo nível de alerta mais elevado.
Para esta terça-feira (19), está previsto o encontro de um painel de especialistas, liderado pela organização, para discutir se existem opções de vacinas para ajudar a combater o surto que afeta o leste da República Democrática do Congo. Não existem vacinas ou tratamentos aprovados para a espécie Bundibugyo do ebola, que tem taxa de mortalidade de até 40%.
No entanto, existe uma vacina chamada Ervebo, fabricada pela Merck, que é utilizada contra a estirpe Ebola Zaire, mas que demonstrou, em estudos com animais, alguma proteção contra a espécie Bundibugyo. A possibilidade de testar essa e outras opções estará na agenda.
“Quando houver um surto com uma estirpe que não tem medidas, vamos nos aconselhar sobre a melhor abordagem a ser adotada”, disse Mosoka Fallah, diretor interino do Departamento Científico do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças de África (Africa CDC).
“Analisaremos as provas disponíveis e tomaremos uma decisão”, acrescentou.
Casos notificados em vastas áreas da RDC
O surto de ebola na República Democrática do Congo resultou, até agora, pelo menos em 131 mortes e 513 casos suspeitos, afirmou o ministro congolês da Saúde, em entrevista na televisão nacional,na noite dessa segunda-feira (18).
“Registramos aproximadamente 131 mortes suspeitas no total e temos cerca de 513 casos suspeitos”, disse Samuel Roger Kamba.
Um porta-voz do governo da RDCongo afirmou que os casos estão agora sendo notificados em área mais vasta.
Há ainda dois casos confirmados e uma morte em Uganda, segundo os centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.
Emergência internacional
A OMS declarou o surto da atual estirpe do ebola, provocada pelo vírus Bundibugyo, emergência internacional.
À medida que o surto continua a se espalhar, o governo congolês procura tranquilizar a população, afirmando que suas equipes de atuação trabalham para rastrear e investigar infecções suspeitas e que não há motivo para pânico.
No entanto, com casos agora identificados em novas áreas, incluindo Nyakunde, na província de Ituri, Butembo, no Kivu do Norte, e a cidade de Goma, a preocupação aumenta.
A OMS afirmou que o surto na província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo, constitui emergência de saúde pública de importância internacional, mas não preenche os critérios para ser considerado uma pandemia.
A agência alertou ainda que o surto pode ser “muito maior” do que o atualmente detectado, com risco significativo de disseminação local e regional.
Mais de 28.600 pessoas foram infectadas pelo ebola durante o período de 2014 a 2016 na África Ocidental, o maior surto do vírus desde a sua descoberta em 1976.
A doença se alastrou por vários países dentro e fora da África Ocidental, incluindo a Guiné, Serra Leoa, os Estados Unidos, o Reino Unido e a Itália, provocando a morte de 11.325 pessoas.
O vírus ebola é transmitido por meio do contato direto com fluidos corporais de pessoas ou animais infectados e provoca febre hemorrágica grave, febre, vômitos, diarreia e hemorragias internas. Segundo a OMS, o vírus apresenta taxa de mortalidade entre 25% e 90%.
Rastreios transfronteiriços
Jean Kaseya, chefe dos centros africanos de Controle e Prevenção de Doenças, disse à BBC que o número de casos suspeitos tinha chegado a quase 400.
Segundo Jean Kaseya, na ausência de vacinas e medicamentos eficazes, as pessoas devem seguir as medidas de saúde pública, incluindo as orientações sobre como lidar com os funerais daqueles que morreram em consequência da doença.
“Não queremos que as pessoas sejam infectadas por causa dos funerais”, disse ao programa Newsday da BBC.
Os funerais comunitários, nos quais as pessoas ajudavam a lavar os corpos dos seus entes queridos, contribuíram para que muitas pessoas fossem infectadas nas fases iniciais do grande surto, há mais de uma década
A OMS aconselhou a República Democrática do Congo e Uganda, dois países com casos confirmados, a realizarem rastreios transfronteiriços para evitar a propagação do vírus.
A organização pediu ainda aos países vizinhos que melhorem sua preparação e prontidão”, incluindo a vigilância em instalações de saúde e comunidades.
Ruanda, país vizinho, informou que vai intensificar o rastreio ao longo de sua fronteira com a RDCongo como “medida de precaução”, enquanto a Nigéria disse que monitora de perto a situação”.
Médico norte-americano entre os casos confirmados
Um médico norte-americano está entre os casos confirmados na República Democrática do Congo, segundo informações do grupo missionário médico com quem trabalhava e do CDC.
Ele será levado para a Alemanha para tratamento, disse a CBS News.
Embora o CDC não tenha divulgado o nome do norte-americano que trabalha no país, o grupo missionário médico Serge afirmou que um dos seus médicos norte-americanos, Peter Stafford, testou positivo para o ebola.
Outros dois médicos do grupo, que foram expostos enquanto tratavam doentes, incluindo a mulher de Stafford, a médica Rebekah Stafford, não apresentaram sintomas e seguem os protocolos de quarentena, afirmou o grupo em comunicado.
A CBS News citou fontes que afirmam que pelo menos seis norte-americanos foram expostos ao vírus durante o surto na RDCongo.
O CDC apoia a “retirada segura de um pequeno número de americanos diretamente afetados”, mas não confirmou quantos.
O governo norte-americano providencia transporte para o pequeno grupo de americanos até um local seguro para quarentena, informou uma fonte ao site de notícias de saúde STAT.
O site acrescenta que o grupo poderá ser levado para uma base militar norte-americana na Alemanha, embora isso não tenha sido confirmado.
Nessa segunda-feira (18), a agência de saúde pública afirmou que o risco para os EUA é relativamente baixo, mas que vai implementar uma série de medidas para impedir a entrada da doença no país.
Isso inclui o monitoramento dos viajantes que chegam de áreas afetadas e a imposição de restrições de entrada a portadores de passaportes não americanos que tenham estado em Uganda, na República Democrática do Congo ou no Sudão do Sul nos últimos 21 dias.
O CDC afirmou que vai trabalhar com as companhias aéreas e outros parceiros para rastrear os contatos dos passageiros, aumentar a capacidade de testes e a prontidão hospitalar para responder ao surto.
Os EUA emitiram alerta de viagem de Nível 4 – o nível mais grave – desaconselhando as viagens para a RDCongo.

