A falta de absorventes e de condições básicas de higiene menstrual tem afastado adolescentes acreanas das salas de aula e revelado um problema que vai além da saúde: a pobreza menstrual no Acre já impacta diretamente o acesso e a permanência de meninas na educação.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 mostram que 20,4% das meninas acreanas entre 13 e 17 anos já deixaram de frequentar a escola por não terem acesso a absorventes ou outros itens básicos de higiene durante o período menstrual.
O índice significa que uma em cada cinco adolescentes do Acre já precisou faltar às aulas por causa da falta de condições mínimas para lidar com a menstruação.
Escolas sem estrutura agravam cenário
A dificuldade enfrentada pelas estudantes não está ligada apenas à ausência do absorvente.
O levantamentos aponta ainda que 15,1% dos estudantes acreanos frequentam escolas que sequer atestam ter banheiros em condições adequadas de uso.
O estudo nacional Livre para Menstruar também aponta o Acre entre os estados com maior número de alunas do 9º ano parcialmente ou totalmente sem acesso aos quatro requisitos básicos de higiene e saneamento nas escolas: banheiro, pia, papel higiênico e sabão.
Sem trancas nas portas, água corrente ou sabão para lavar as mãos, muitas adolescentes acabam optando por permanecer em casa durante o período menstrual.
“Sem trancas nas portas, sem água corrente ou sabão para lavar as mãos, gerenciar o fluxo menstrual por quatro ou cinco horas em ambiente escolar torna-se um desafio humilhante. Para muitas, a única alternativa segura e viável é o isolamento em casa”, destaca o estudo.
Custo pesa no orçamento das famílias
A vulnerabilidade econômica aprofunda ainda mais o problema.
Segundo estudos citados pelo UNICEF, o custo acumulado com absorventes ao longo da vida fértil pode chegar a cerca de R$ 8 mil.
Para famílias em situação de pobreza extrema, principalmente na Região Norte, o item muitas vezes deixa de ser prioridade diante da necessidade de comprar alimentos.
“Havendo a escolha inevitável entre a compra do alimento para a mesa e o pacote de absorventes para a filha, a prioridade será sempre a comida. O absorvente é substituído por panos velhos, pedaços de jornal ou miolo de pão — métodos improvisados que colocam a saúde dessas meninas em risco”, aponta o estudo do UNICEF.
Na Região Norte, mais da metade das adolescentes entre 10 e 19 anos convivem com algum grau de insegurança alimentar.
Falta de saneamento afeta desempenho escolar
O problema também está ligado à precariedade do saneamento básico no estado.
Relatório da BRK Ambiental e da consultoria Ex Ante aponta que 46,4% das mulheres acreanas não têm acesso à rede geral de abastecimento de água.
Quando considerada a irregularidade no fornecimento diário, o índice chega a 78%, o maior percentual do Brasil.
Além disso, 56,8% das mulheres do estado vivem em residências sem acesso adequado à rede de esgoto.
O levantamento aponta que meninas que vivem em casas sem banheiro acumulam, em média, 1,2 ano a mais de atraso escolar em relação às que possuem estrutura adequada.
Os impactos também aparecem no desempenho educacional. Segundo o estudo, a ausência de saneamento está associada à redução média de 45,7 pontos na nota geral das mulheres acreanas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Lei prevê distribuição de absorventes
Desde 2021, o Acre possui legislação que determina a distribuição gratuita de absorventes higiênicos nas escolas estaduais.
A Lei Ordinária nº 3.795 estabelece o fornecimento dos itens para estudantes de baixa renda da rede pública.
Procurada, a Secretaria de Estado de Educação (SEE) informou que a distribuição ocorre regularmente nas unidades escolares, a partir das solicitações feitas pelas próprias escolas ao almoxarifado central.
Segundo a pasta, a entrega é feita de forma reservada para evitar constrangimentos às estudantes.
Apesar disso, movimentos sociais e ativistas apontam dificuldades relacionadas à fiscalização, logística e distribuição dos insumos, principalmente em escolas mais afastadas do interior acreano.
Especialistas defendem ações estruturais
Embora a distribuição gratuita de absorventes seja considerada importante, especialistas defendem que o enfrentamento da pobreza menstrual depende também de investimentos em infraestrutura escolar e saneamento básico.
Entre os principais desafios apontados estão a melhoria dos banheiros nas escolas, garantia de água potável, acesso à higiene e ampliação do saneamento nas residências.
No Acre, a pobreza menstrual segue refletindo não apenas uma questão de saúde, mas também de desigualdade social, permanência escolar e acesso a direitos básicos.

