A disputa para saber quem será o nono presidente do Peru em uma década continua indefinida na tarde desta segunda-feira, com a apuração dos votos indicando agora uma margem mínima de vantagem para o candidato de esquerda Roberto Sánchez em relação à candidata de direita Keiko Fujimori — filha do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000). Com pouco mais de 93% das seções eleitorais apuradas, Sánchez, que passou o restante da apuração atrás de Keiko por uma margem pequena de votos, abriu nesta tarde uma vantagem inferior a meio ponto percentual: 50,01% a 49,98% dos votos.
Com a apuração acirrada, aliados de Sánchez demonstram otimismo com o fato de a apuração ainda estar em andamento em zonas rurais, onde o esquerdista tem sua base eleitoral. Para declarar um vencedor, também será necessário revisar atas impugnadas que contêm quase 400 mil votos, um processo que pode demorar muitos dias.
Milhares de simpatizantes se reuniram em dois pontos da capital peruana no domingo para comemorar antecipadamente os resultados de seus candidatos. Mas, em suas declarações, os candidatos evitaram antecipar anúncios de vitória.
Em sua quarta tentativa de chegar à Presidência, Keiko pediu paciência a seus apoiadores, afirmando que “teremos dias longos pela frente”. Já Sánchez disse a seus eleitores que a disputa estava em “empate técnico” e que tudo ainda estava em aberto. Pesquisas de boca de urna e contagens rápidas também indicavam ser impossível apontar um vencedor claro.
— O resultado reflete as divisões do país — afirmou à AFP Paulo Vilca, analista político do Instituto de Estudos Peruanos. — Quem vencer terá metade do país contra si e uma legitimidade frágil, razão pela qual, sem maioria legislativa, deverá construir uma coalizão para governar.
Muitos eleitores esperam que a eleição acabe com a criminalidade que assola o país e coloque um ponto final em anos de caos político, período em que uma série de presidentes foi presa, destituída ou sofreu impeachment. A votação de domingo, para a qual foram convocados 27 milhões de eleitores, aconteceu sem incidentes, ao contrário do caótico primeiro turno de abril.
Fujimori, uma administradora de 51 anos, apela ao legado ambivalente do pai, que estabilizou a economia, derrotou a insurgência, mas foi acusado de crimes contra a Humanidade.
— Estou feliz porque sei que ela vai fazer um bom governo. Por quê? Porque ela quer limpar a imagem do pai — afirmou Gladys Silva, dona de casa de 56 anos, durante o evento do partido de Fujimori em Lima.
Sánchez, congressista e ex-ministro de 57 anos, reivindica o legado camponês do ex-mandatário Pedro Castillo, que foi destituído e preso após uma tentativa fracassada de autogolpe de Estado em 2022. Como demonstração de lealdade, usa o chapéu camponês que ganhou do ex-presidente e promete indultá-lo.
— Queremos mudança porque estamos cansados da corrupção, do fujimorismo que administra o país como se fosse sua chácara — disse Marlene Veramendi, de 46 anos.
‘Legitimidade frágil’
Sob a palavra “ordem”, Keiko prometeu prosperidade e advertiu sobre o perigo do “comunismo”. Por sua vez, Sánchez moderou seu discurso, que pregava “mudança radical” no primeiro turno, distanciou-se de ultranacionalistas e disse querer uma relação “respeitosa” com Washington.
O esquerdista acusa Keiko de integrar uma “ditadura” do Congresso, que tem derrubado presidentes de forma reiterada. O próprio Sánchez observa a perspectiva de ter que travar embates com os deputados peruanos, à sombra de uma denúncia por supostas anomalias financeiras em seu partido. Se eleito, ele terá imunidade, mas ficará vulnerável diante de um Parlamento inclinado à direita.
— O eleito terá metade do país contra si e uma legitimidade frágil, razão pela qual, sem maioria legislativa, deverá construir uma coalizão para governar — disse Vilca.
O vencedor substituirá a partir de 28 de julho o presidente interino José María Balcázar.
Criminalidade
Apesar da desilusão política, a maior preocupação dos peruanos é a insegurança em um país onde abundam as quadrilhas criminosas e as denúncias de extorsão aumentaram nove vezes em cinco anos.
Para enfrentar a violência, Fujimori sugere uma abordagem linha-dura: militarizar as prisões e as zonas de conflito e expulsar migrantes para acabar com a “criminalidade” com a “mesma força” — segundo ela — com que seu pai venceu a insurgência nos anos 1990. Sánchez propõe enfrentar a corrupção na polícia e na justiça, diante do que denuncia ser uma cumplicidade das elites políticas com os criminosos.
Sua base social está na zona rural empobrecida, onde a insegurança é menor. A base de Fujimori fica em Lima, onde a taxa de homicídios triplicou entre 2020 e 2025, chegando a 23 por 100.000 habitantes.
Fujimori defende propostas neoliberais, o respeito à propriedade privada e a atração de investimentos americanos. Sánchez prometeu aumentos salariais e tentou tranquilizar os investidores, ao dizer que vai manter a abertura econômica e a independência do estratégico banco central. O vencedor das eleições governará um Peru economicamente estável, com crescimento do PIB de 3,4%. Mas sete em cada dez trabalhadores estão na informalidade.
(Com AFP)

