Depois de aceitar a ordem do presidente dos EUA, Donald Trump, para não bombardear a capital libanesa, Beirute, o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, se tornou alvo de rivais e até aliados. Para eles, ao “ceder” a Trump, ele pôs em risco a ofensiva contra o Hezbollah — apoiada pela maioria dos políticos, comentaristas e pela população — e a própria soberania nacional: nas palavras de um ex-premier, Netanyahu transformou Israel em um “protetorado” de Washington.
Na segunda-feira, em meio à intensificação dos combates no Líbano, e às ameaças de bombardeios avassaladores contra o distrito de Dahiyeh, a base do Hezbollah no sul de Beirute, o Irã anunciou que as conversas com os EUA sobre o fim da guerra estavam suspensas, condicionando o diálogo a uma trégua na frente libanesa e em Gaza.
Em questão de horas, Trump ligou para Netanyahu e intermediários do grupo político-militar, exigindo que o Hezbollah interrompesse seus ataques contra o norte israelense e, em troca, que Beirute fosse poupada. Segundo o portal Axios, citando fontes da Casa Branca, a conversa do americano com o premier foi marcada por palavrões, ameaças e alegações de que, por causa da guerra atual, “todo mundo odeia Israel”. Na rede social Truth Social, o republicano confirmou o “acordo”, e relatou que o diálogo com Teerã havia sido retomado, algo confirmado por seu secretário de Estado, Marco Rubio mas ainda não pelos iranianos.
Até o momento, Beirute não voltou a ser atacada, e Netanyahu garantiu que não interromperá a invasão no sul do Líbano, destinada à criação de uma “zona tampão” na fronteira, apontada como uma violação da integridade territorial libanesa. Mas a confirmação de que havia cedido aTrump desencadeou uma onda de críticas. Para muitos, apesar da aliança econômica, política e militar crucial entre os dois países, foi uma concessão que abalou a soberania israelense.
“Senhor primeiro-ministro: o senhor disse que um primeiro-ministro forte diz ao presidente dos EUA — ‘sim’ quando possível, e ‘não’ — quando necessário. É hora de dizer ao nosso amigo, o presidente Trump — ‘não’”, escreveu, na rede social X, Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional do Gabinete de Netanyahu.

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Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior do Exército, disse, em publicações no X, que “não houve primeiro-ministro em Israel que tenha aceitado com tal submissão uma exigência que é manifestamente irracional”, afirmando que seu governo causa “danos aos interesses nacionais do Estado de Israel por fraqueza”.
Avigdor Lieberman, um dos pesos pesados da política israelense e que pode ser decisivo na formação de um novo governo após as eleições previstas para esse ano — ainda sem data marcada —, classificou a suspensão dos ataques a Dahiyeh de “inaceitável”.
“Não somos uma república de bananas. Devemos arrasar a Dahiyeh agora e não parar até que aquele prédio caia”, acrescentou.
Em editorial, o jornal Jerusalem Post, alinhado à direita israelense, afirmou que aceitar a proposta de cessar-fogo no Líbano é uma “traição aos cidadãos israelenses”, e que o país agora se vê “na humilhante posição de ter que buscar a aprovação dos Estados Unidos para defender seus próprios cidadãos no norte”.
Combater o Hezbollah no sul do Líbano é considerada uma missão estratégica e, para alguns, existencial para Israel. No atual conflito que tem o Irã como palco principal, a frente libanesa foi aberta em março, e o establishment político e militar israelense viu uma oportunidade única para um ataque decisivo contra um rival de décadas, e para o estabelecimento de uma zona tampão no território libanês — na prática, uma anexação.
Um cessar-fogo chegou a ser firmado em abril, em paralelo à trégua acertada por EUA e Irã. Ele jamais foi aplicado na prática, e o governo de Netanyahu não escondeu sua insatisfação com a ordem para pausar os combates, contra o Hezbollah e contra os iranianos. Diante da violência, mais de um milhão de libaneses foram obrigados a deixar o sul do país, cidades e vilas foram arrasadas, e números do Ministério da Saúde apontam que, desde março, 3,5 mil pessoas morreram. Nas últimas 24 horas, foram 48 mortos.
Para Teerã, o fim da “Operação Fúria Épica” inclui a conclusão da ofensiva israelense no Líbano e também na Faixa de Gaza, onde Israel ampliou seu domínio territorial, e onde 119 pessoas foram mortas em maio, apesar de um cessar-fogo tecnicamente em vigor desde outubro de 2025. Na segunda-feira, os iranianos anunciaram o congelamento das conversas, condicionando sua retomada ao menos à proteção de Beirute. Trump, que quer um acordo o quanto antes, concordou, e obrigou Hezbollah e Israel a fazerem o mesmo.
“Assim parece um governo desconectado que perdeu qualquer ligação com a realidade e com o público em nome de quem deveria agir. Que perdeu não só o norte, mas também a bússola ética”, escreveu no X o ex-premier Benny Gantz, de oposição a Netanyahu.
Outro postulante ao emprego de Netanyahu, o também ex-premier Naftali Bennett, disse que o atual Gabinete é “um governo que perdeu o controle sobre a soberania israelense”, onde há “caos em cada canto”. Yair Lapid, centrista e líder da oposição, foi mais sucinto.
“Um protetorado completo”, escreveu no X.
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Segundo pesquisa publicada em abril pelo Instituto da Democracia de Israel, 80% dos judeus israelenses afirmam que a ofensiva no Líbano deve continuar, mesmo que isso contrarie a Casa Branca. Entre os árabes, 66% são contra. Outra sondagem, do Canal 12, também de abril, mostra que 79% dos entrevistados dizem ser a favor da continuidade da guerra no país árabe.
Por fim, uma pesquisa do jornal Maariv, de maio, revelou que 55% dos israelenses querem que Netanyahu se aposente, e não concorra nas próximas eleições. Segundo a média de projeções feita pelo jornal Haaretz, atualizada no último fim de semana, os blocos liderados Netanyahu e Bennett teriam, cada um 55 cadeiras, e dependeriam de negociações entre si ou do apoio de siglas árabes para compor um novo governo. Caso contrário, seria necessária uma nova votação.
Nesta quarta-feira, Trump confirmou os palavrões no diálogo com Netanyahu, assim como sua impaciência com os combates no Líbano. Mas sem o mesmo teor agressivo.
— Fiquei um pouco perturbado com as constantes lutas dele com o Líbano — disse Trump, em entrevista a um podcast do jornal New York Post. — Trabalhamos muito bem juntos. Gosto muito do Bibi. E trabalho muito bem com ele.

