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PM do Acre monta força-tarefa para tentar conter violência contra mulheres em Feijó

Por Redação Juruá em Tempo.11 de julho de 20265 Minutos de Leitura
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Dois feminicídios em menos de 24 horas, duas famílias destruídas e um alerta que acendeu o sinal vermelho na Segurança Pública do Acre. A escalada da violência contra mulheres levou a Polícia Militar a adotar uma medida incomum: deslocar policiais especializados de Rio Branco para Feijó, município que, segundo a comandante-geral da corporação, coronel Marta Renata, apresenta índices de violência doméstica e crimes sexuais incompatíveis com seu tamanho populacional.

Em entrevista exclusiva ao ac24horas, a comandante revelou que os indicadores da regional Tarauacá/Envira, especialmente os de Feijó, passaram a exigir uma resposta imediata do Estado. Mais do que reforçar o policiamento, a operação pretende entender por que um município do interior registra números tão preocupantes. “Apesar de Feijó estar numa regional pequena, os números negativos se aproximam muito dos índices da capital. Isso exige um estudo sociológico, antropológico. Precisamos compreender a dinâmica desses crimes para conseguirmos mudar essa realidade”, afirmou.

Foto: Comandante-Geral da Polícia Militar do Acre, Coronel Marta Renata I Neto Lucena/SECOM

A partir de segunda-feira (13), equipes da Patrulha Maria da Penha, Polícia Comunitária, Forças Especializadas e policiais enviados da capital permanecerão durante uma semana em Feijó. O trabalho envolverá fiscalização de medidas protetivas, visitas domiciliares, ações educativas, análise criminal e, se necessário, operações repressivas. A iniciativa foi definida poucos dias depois de dois feminicídios que chocaram o Acre.

Uma semana marcada pela violência

O primeiro caso ocorreu no dia 5 de julho, em Cruzeiro do Sul, na regional do Juruá, limítrofe à Tarauacá/Envira.

Aldemir Abreu de Oliveira, de 44 anos, assassinou a ex-companheira Juliana Barboza Cerqueira, também de 44, com diversos golpes de faca no ramal Japãozinho. Em seguida, suicidou-se.

Foto: Juliana Barboza Cerqueira, assassinada aos 44 anos a golpes de faca I rede social/reprodução

O crime ganhou contornos ainda mais graves porque Aldemir era alvo de uma medida protetiva expedida pela Justiça. Segundo familiares, ele monitorava constantemente a rotina da vítima, permanecendo nas proximidades da residência para saber quando ela chegava ou saía de casa, desrespeitando a determinação judicial.

Menos de um dia depois, outro feminicídio voltou a abalar o estado.

No km 27 da rodovia entre Manoel Urbano e Feijó, o bombeiro militar da reserva Osmar Pinheiro da Silva, de 58 anos, matou a esposa, Maria Ferreira da Silva Almeida, de 49 anos, dentro da casa onde moravam.

Foto: Osmar Pinheiro da Silva, de 58 anos, à esquerda; Maria Ferreira da Silva Almeida, de 49 anos, à direita I rede social/reprodução

A principal linha investigativa aponta o ciúme como motivação do assassinato. A filha adolescente do casal presenciou toda a cena e deverá receber acompanhamento psicológico. Após matar a companheira, Osmar também tirou a própria vida.

Um município que desafia as estatísticas

Na avaliação da comandante-geral da PM, o problema vai além da atuação policial.

Ela admite que as causas ainda não estão totalmente compreendidas e defende uma investigação aprofundada sobre fatores sociais, culturais e econômicos que possam explicar por que Feijó concentra tantos casos de violência doméstica. “Não basta apenas reforçar o policiamento. Precisamos estudar de fato como esses crimes acontecem naquela região. É uma realidade que precisa ser compreendida para que possamos combatê-la de maneira eficiente”, afirmou.

Foto: Município de Feijó, no interior do Acre I Ascom/Prefeitura de Feijó

A presença das equipes especializadas servirá justamente para esse diagnóstico. Além das rondas ostensivas, os policiais irão mapear ocorrências, acompanhar medidas protetivas, visitar comunidades e produzir uma análise detalhada sobre o comportamento da criminalidade envolvendo mulheres.

A violência que não chega às estatísticas

Se os números oficiais já preocupam, a comandante acredita que a realidade pode ser ainda pior.

Segundo Marta Renata, existe uma elevada subnotificação dos casos de violência doméstica, principalmente nas comunidades rurais e ribeirinhas. “Não tenho dúvida de que há muitas ocorrências que nunca chegam ao conhecimento da polícia. A distância, a dificuldade de comunicação e o isolamento fazem com que muitas mulheres sequer consigam denunciar”, disse.

Foto: Aldeia indígena em área alagada, na zona rural ribeirinha de Feijó I Ascom/Corpo de Bombeiros

Essa realidade faz com que boa parte da violência permaneça invisível ao Estado. Mesmo assim, ela avalia que a confiança da população nas instituições vem aumentando. “Nós percebemos que mais mulheres estão procurando ajuda porque entendem que o Estado está presente e está atuando. Essa relação de confiança entre sociedade e polícia vem crescendo”, afirmou.

Quando a denúncia não acontece, a polícia volta

Um dos pontos menos conhecidos da atuação da Polícia Militar é o trabalho de busca ativa realizado pela Patrulha Maria da Penha. Nem sempre uma ocorrência termina com um boletim de ocorrência.

Em muitos casos, vizinhos acionam o 190 ao ouvirem gritos ou agressões. Quando a guarnição chega, porém, a vítima já desistiu de denunciar, não abre a porta ou afirma que está tudo bem. Ainda assim, o atendimento não termina ali.

A ocorrência é registrada, analisada pelas equipes especializadas e passa a integrar um banco de informações utilizado pela Patrulha Maria da Penha. Nos dias seguintes, policiais continuam a retornar ao endereço para conversar novamente com a vítima. “O objetivo é ouvir essa mulher, abrir um canal de comunicação e encorajá-la a romper o ciclo da violência. Muitas vezes ela precisa apenas de um segundo momento para conseguir falar”, detalha.

Mais de 156 mulheres assassinadas em dez anos

A preocupação da Polícia Militar encontra respaldo nas estatísticas nacionais.

Dados da plataforma Sinesp, do Ministério da Justiça, apontam que mais de 156 mulheres foram vítimas de feminicídio no Acre desde 2015. Os assassinatos registrados nos dias 5 e 6 de julho ainda não aparecem na base de dados.

Por: AC24horas.
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