A gripe ainda é frequentemente tratada como um quadro banal, mas está longe de ser. Em entrevista à IstoÉ Saúde, o médico Drauzio Varella chama atenção para um dos principais problemas em torno da doença: a forma como ela é subestimada pela população.
“Tem gente que qualquer resfriado acha que é gripe”, afirma. A confusão, segundo ele, contribui para a banalização de uma infecção que, na prática, pode ter consequências relevantes, especialmente em grupos mais vulneráveis.
Para diferenciar, o médico recorre a um critério simples e direto: “Se a pessoa conseguiu trabalhar normalmente, não era gripe”. Ao contrário do resfriado, a gripe costuma provocar febre alta, dor intensa no corpo e um grau de prostração que impede a rotina habitual.
Mas o ponto central do alerta vai além dos sintomas.
Estudos observacionais, segundo Drauzio, mostram que durante períodos de maior circulação do vírus influenza há um aumento consistente no número de eventos cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
“Não é que a gripe cause diretamente o infarto, mas ela aumenta o risco”, explica. Isso ocorre porque a infecção desencadeia um processo inflamatório sistêmico, capaz de desestabilizar condições já existentes no organismo.
Esse cenário ganha ainda mais relevância diante de uma mudança demográfica importante. O Brasil está envelhecendo — e, como destaca o médico, “envelhecendo mal”. Metade da população chega aos 60 anos com hipertensão, enquanto o número de pessoas com diabetes segue em crescimento. São condições que aumentam significativamente o risco de complicações associadas à gripe.
Nesse contexto, a vacinação contra a gripe assume um papel central
Embora não ofereça proteção absoluta contra a infecção, a vacina reduz de forma significativa a gravidade dos quadros.
“Mesmo quando a pessoa vacinada adoece, a tendência é de uma evolução mais leve”, afirma. O efeito, do ponto de vista coletivo, também é relevante: menor gravidade significa menos hospitalizações e menor sobrecarga sobre o sistema de saúde.
Ainda assim, a adesão segue abaixo do ideal, muitas vezes influenciada por desinformação. Para Drauzio, o impacto disso é grave. “Lançar dúvidas sobre vacina é um crime contra a população”, diz, ao criticar a disseminação de conteúdos sem respaldo científico.
Ao longo da conversa, o médico também amplia a discussão para além da doença e da prevenção, trazendo um olhar sobre estilo de vida e envelhecimento. Após mais de cinco décadas atendendo pacientes, ele observa um padrão claro: aqueles que chegam bem às idades mais avançadas são, em geral, os que mantêm uma rotina ativa.
É nesse contexto que entra a corrida — e, mais especificamente, a maratona.
Drauzio relata que adotou a prática como uma forma de disciplina e cuidado contínuo com a saúde. O hábito o levou a completar as seis principais maratonas do mundo — as chamadas World Marathon Majors, que incluem provas em cidades como Nova York, Boston, Londres, Berlim, Chicago e Tóquio. O feito, conhecido entre corredores como “Six Majors”, é considerado um marco no esporte.
Mais do que desempenho, porém, ele destaca o impacto no estilo de vida. A preparação exige regularidade, organização e consistência — fatores que, segundo ele, se refletem diretamente na saúde ao longo dos anos. Hoje, aos 82 anos, mantém uma rotina ativa e sem limitações relevantes.
A mensagem final é direta: prevenir ainda é o melhor caminho.
No caso da gripe, isso passa, inevitavelmente, pela vacinação, não apenas como proteção individual, mas como estratégia de saúde pública. Em um cenário de envelhecimento populacional e aumento de doenças crônicas, tratar a gripe como algo trivial pode custar caro.

